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Florianópolis, 30 de Julho de 2006
RAUL CORTEZ: RELATO-HOMENAGEM DE MINHA TIA ROSINHA DE SANTO AMARO.
Por: Vera Albers
“Antes de me emancipar, eu era professorinha em um desses colégios caretas que ainda existiam antigamente, na Chácara Santo António. Era para meninas, mas os professores eram de ambos os sexos. Eu não o conhecia, pois na sala dos professores sentávamos por grupinhos, mas Raul Cortez era meu colega.
Um dia, ao chegar em casa ( ainda morava com meus pais), encontrei meus guarda-roupas completamente mudados. Nada mais havia de vertical. Tudo havia sido transferido para prateleiras no“quarto dos armários”e, mesmo os móveis, não eram mais os mesmos.
Uma quentura borbulhante foi surgindo de dentro de meu peito e eu senti que algo se rompia e se impelia para fora, aos borbotões. Ressentimento em suas várias formas mudas, todas ofensivas. Senti então que estava na hora de ir embora. Procuraria um apartamento, apesar de eu gostar de jardim, pois a casa que havia comprado com as economias de dez anos e do casamento que não se realizara ainda era habitada pelos donos que, obviamente, não iriam sair tão fácil. Por que será que tudo emperra comigo? Comecei a pensar e foi embrulhada nesse pensamento que cheguei ao colégio.
Lá também -- como mais tarde soube que era para se esperar – houvera mudanças. Os pais das alunos haviam chegado à conclusão, depois de reunião conjunta com a diretoria, que a escola devia tomar urgentes medidas de modernização. Foi isso que disse a diretora, olhando para meus sapatos que, obviamente, destoavam das inconvenientes meias pretas, as únicas que conseguira encontrar na nova prateleira. Agora as aulas da sexta serão dadas aos pares, também disse, vamos animar as turmas. E a mim coube dar aula com Raul Cortez.
Vamos teatralizar a aula, disse Raul, representá-la como se fosse uma peça. Eu , acanhada como sou, indiquei logo a Viviane, para ser a parceira da representação e me sentei junto com a classe para ver, no “telão”, o que se passaria.( O telão de antigamente era apenas um biombo atrás do qual se desenrolariam as cenas, para dar a sensação de distanciamento). E aí vi que ator enorme Raul era.-- Conte-nos o momento de maior felicidade e de maior infelicidade que você já teve -- , pedira-lhe Raul. E ela começou a falar, primeiro representando, depois se ensimesmando de tal maneira, que, inclinando-se no banco até encostar a cabeça no peito dele, esqueceu onde estava e transformou a peça na confissão mais tocante que jamais ouvira. Enquanto ela falava e soluçava, Raul ia se avolumando no telão, até tomar toda a superfície dele. Via-mos , estarrecidas, sua mão passar pelos cabelos da moça e ela se acalmar aos poucos, enquanto a imagem ia, aos poucos, deixando de arfar, contraía-se e voltava ao tamanho normal. Como ele conseguiu isso não sei, mas a sua memória faz parte do legado que jamais me abandonou. A partir desse dia, é escuso dizer, as coisas também começar a correr mais soltas, para mim.”
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