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Florianópolis, 31 de Agosto de 2006

COMO SE LIVRAR DE UMA PAIXÃO
Por: Vera Albers

Deixe passar seis meses – ele me disse, no fim – depois se sentirá melhor.

Quer dizer que o danado já tinha até a receita!

Que o tempo haveria de aliviar a dor que me ficara...sim, mas e o despeito, e o amor próprio e a estima de mim mesma, como é que iam ficar?

Marinheira era sua natureza: onde quer que parasse arrumava outra mulher. Vai ver que é isso, mudou para a Argentina e...


À noite, o sonho trouxe-me a resposta


Ondas gigantes.

Em lugar de ficar na embarcação, resolvi enfrentá-las sozinha, com o apoio da prancha.

Eram de assustar. A onda sempre o é, mas essas eram das grandes e ...e o coração subia à garganta.

De repente, do cume de uma delas vai resvalando um homem completamente nu: estatura média, grisalho, braços alargados, vai caindo de cabeça ao meu lado, e... eu não sinto nada.


De manhã, já sei o que vou fazer. Arrumo um programa de eventos ( a agenda lotada será a minha prancha), preparo minhas malas ( as roupas , as melhores) e baixo em Buenos Ayres.

Hei de tentar de tudo, meu deus, vou conseguir me livrar à minha moda, vou conseguir que alguma coisa quebre. Como a história do carro a álcool. Só me convenceu não comprá-lo um único argumento, lembra?. E foi definitivo.



Telefono do hotel, ele não retorna (coitadinho, deve estar assoberbado...) Vou ao escritório dele e ele está em reunião ( está vendo, tanto trabalho), ouço-o dizer umas frases desconjuntadas ( coitadinho, não está ambientado), ele me diz que alguém mandou-lhe carta anônima ( é mesmo, que coisa!), que um marido deixou-lhe a mulher de herança ( ela é doente terminal!). Passa a semana planejada, ele ficou de me levar ao aeroporto, mas o tempo passa, ele não se vê. Chamo um táxi e, movida pelo derradeiro escrúpulo, resolvo deixar uma mensagem no hotel onde ainda mora ( a mensagem dizendo que eu já fui ao aeroporto: coitadinho, está atrasado). Chego ao Hotel de las Américas, lembro-me muito bem, ele vibrou ( como sempre!) ao pronunciar o nome (tão pomposo!).

-- Não senhorita. O professor Campita não mora aqui. Sim, só ficou alguns dias. Deixou o hotel há três meses ( eu insisto). Tenho certeza absoluta.


Sinto alguma coisa se mexer em meu peito. A mentirinha de repente me revela o seu caráter furado, a sua aparência enganosa, todas as... mentiras, a mentir tão estupidamente ... para mim, que dei tudo para ele, como pode, etcétera. É o carro a alcool! Consegui! Consegui!!

 

 

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