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Florianópolis, 19 de Dezembro de 2007

SÃO CAETANO
Por: Vera Albers

Numa cidade como São Paulo que cresce convulsivamente, há certos  lugares que morreram. Curiosamente, et pour cause, são lugares industriais.Tome-se o centro de São Caetano de Thiene, por exemplo. Eu voltei lá depois de uns tantos  anos e levei um susto. Não é mais um centro, é uma assombração. As indústrias, mortas. As casas de tijolos vermelhos, abandonadas. Sobram relíquias, pintadas de cores berrantes. Nem trânsito há mais. A estação da estrada de  ferro, na época uma atração com seus sininhos que tocavam à aproximação do trem, um mausoléu. Ao Carioca, a papelaria onde nós crianças comprávamos por uns poucos centavos o papel de seda para as pipas, não existe mais.O velho cine foi transformado em bingo. A galeria que ostentava numa vitrine enfeitada o que foi meu primeiro sutiã de renda, transformada em amontoado de muambeiros. E as chácaras, na direção do rio dos Meninos onde ainda os  vênetos colhiam almeirão, são agora favelas, favelinhas, favelões.Isso, sem falar da velha casa onde morávamos, no final da Ibitirama, quase  la maison des pères. Quis voltar para fotografá-la para minha galeria de recordações  e não a encontrei mais. Simplesmente trocaram a fileira de residências cercadas por anosas árvores por uns lotes de terra amarelo-esverdeada onde , pelos planos, vão construir sobrados-singapura, bem grudadinhos , sem plantas que atrapalhem.Ainda bem que meu pai morreu antes de tanto arraso. Para quem não é  propriamente sociável os lugares doem mais que as pessoas.Adeus cine Vitória, onde, quando te conheci passava a première de Floradas na Serra.Adeus, cine Max, onde chegávamos aos domingos de matinê ao som de Quando danço com você.Adeus estrada de ferro, adeus auto-bus  marron e verde são paulo-são caetano. Adeus filas de espera, biblioteca pública, costureira, posto de abastecimento e chá com geléia de abóbora. E fabriquinha, embaixo do viaduto, que das conchas do mar fazia botões de madre-pérola.Adeus, São Caetano do Sul. Esqueça você também e repouse em paz.

 

 

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