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Florianópolis, 25 de Dezembro de 2007

SINA
Por: Vera Albers

Sei que vou morrer dentro de alguns minutos. Minha mãe sonhou com escorpião que me picava. E agora, da janela aqui  que dá para  a rua vejo dois homens cercarem a mulher da qual já quis  muito me ver livre, mas não tive a coragem. Algo me impele escada abaixo. O pior é  que eu sei que esses homens são os mesmos  que cercaram meu filho, tempo atrás.    Sinto a necessidade visceral de ir defendê-la. Visceral, como dizia a mulher do Braz,  que visceralmente não conseguia mais agüentá-lo. Ai, meu Deus, tenho que lembrar  tudo, depressa. Meu pai, seus olhos fundos , que sabiam  tudo. Inclusive a álgebra, e eu fiquei tão impressionado, daquela vez, quando ele veio perto de mim e me disse:  Olha, faz assim. Minha mãe, coitada, que ficou uma seda, quando ele morreu, mas até lá infernizou sua vida. Vestida de organdis florido. Assim a lembro. E aquela vez que eu  sai com o Pedro, para defendê-lo dos moleques da esquina, que viviam batendo nele.  Bateram nos dois. E quando fui trabalhar na Ford, como office-boy, que desperdício, e  seu Bretas me disse, Agora só vou falar inglês com você. De fato falou. E era eu quem  respondia ao telefone para os gringos, as telefonistas não sabiam. Cinco anos.  Ganhando menos que telefonista, que vergonha. E aquela vez que não quis entregar a  chave do almoxarifado ao engenheiro pois havia prometido a seu Bretas que só a  entregaria com a ordem dele? Olhavam para mim como se fosse débil. Mas era a  palavra dada. Meu pai que me ensinou. E quando resolvi fazer o cursinho e disse a seu Bretas,  disse a ele: O senhor não entendeu, agora só vou estudar. Ele achou que era questão de aumento. Se tivesse me aumentado antes, talvez viesse a ser um alto funcionário da Ford, talvez  tivesse ficado na Ford. Mas não naquela hora. Naquele tempo a Ford dava participação  nos lucros. Só com a participação paguei meu cursinho todo. E meus filhos? Eu gosto  deles demais. Só o último que me deu trabalho. Sempre dessa janela vi-o conversando  com dois caras, um tempão. Eu não disse nada, só olhando. Não sei o que era. Não  quis saber.  E aquela menina da favela que sabia das coisas Meu Deus, que coisa mais  incrível. Mas nem vale a pena lembrar.  E o presente que recebi de Deus e que nunca vou esquecer? Uma outra dimensão. Mas  ela não me amava. Podia até gostar de mim, mas não me amava. E eu queria chutar o  chinelo da Beatriz, bem longe. Santa Beatriz. Sempre comendo pelas bordas. Mas a  gente se fecha em sua casa, lambe suas feridas. Lá fora é muito pior. E o prato de  conchinhas do mar? Gente, como eu me lambuzava!  Obrigado, meu Deus.

 

 

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