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Florianópolis, 26 de Dezembro de 2007 A VIDA DOS OUTROS Por: Vera Albers Acabo de assistir no Canal Nacional uma entrevista com Lygia Fagundes Telles que, remontando a Santo Agostinho, faz da memória uma componente da essência do escritor ( a outra, se bem lembro, será a imaginação). O entrevistador pede a Lygia que narre alguma memória particular e entre outras, ela relembra-se estudante da Faculdade de Direito ( São Francisco) protestando contra a ditadura ( de Getúlio) que, após a morte de um estudante pela polícia, só permitiria uma passeata em silêncio. Lygia - “subversiva”, como orgulhava-se de ser chamada – tivera a idéia de ir a uma loja de armarinhos e, de comum acordo com os colegas , comprara cem metros de filó preto que se usava para amortalhar o defunto, para fazer mordaças com as quais compareceram, de luto e em silêncio, à passeata. Na dignidade dessas memórias privilegiadas, que fazem de cada um um “ser humano”, é que se estriba a força da personalidade, a segurança de si, o gostar de si próprio. Conheci muitos que mitificaram um gesto, um ato, uma conjuntura feliz e fizeram dele sua estrela, seu norte. “ Não é o físico que passa no vestibular” – dizia o dono de um cursinho, que também era professor, aos alunos que o olhavam arregalados,” mas se vocês se esforçarem inteligentemente e os resultados forem satisfatórios, começarão a gostar de vocês”.Simples palavras, ditas por quem sabe que o vestibular é ( ou, ao menos, era) um grande ritual de superação da adolescência, ao menos aqui no Brasil. Mas lembro isso, para falar do contrário. Para falar das pessoas cujas memórias – apesar dos esforços para deletá-las - as levam a atos ou fatos ou ditos indignos, perpetrados não por se terem tornado antenados “ burocratas do mal” durante algum regime totalitário ( cf. a coluna de C.Calligaris de 6/12/07 sobre A Vida dos Outros de F.H. von Donnersmarck), que esse é um caso que a psicologia das massas de Harendt ou Canetti hão de explicar, mas de pessoas normais que, como indivíduos isolados, cometem em relação a outro indivíduo um ato indigno com repercussões graves. Como essas pessoas conseguem arcar com essas memórias? Com certeza, a justificativa nunca falta. Fi-lo por ciúme, diz-se a professora que foi dedar a ex-aluna como “ perigosa líder comunista” ao diretor do colégio onde esta trabalhava. Fi-lo por vingança, diz a outra que foi vertendo veneno aos poucos no ouvido do marido, enquanto este dormia. Fi-lo por inveja, diz o crítico laureado que fez sorrateiramente a caveira do colega, com receio que este o desbancasse. Afinal, sempre ou é amor, ou guerra, como diz o ditado. E o tempo vai lavando os escrúpulos que porventura teimem em não se deixar convencer. A tirada de Millôr “ será que as pessoas que fazem tudo para sobreviver não se perguntam se valeu a pena sobreviver?” já não tem presa sobre suas consciências. Com certeza, no começo não gostam de si, mas se consolam com outras ocupações. Dinheiro, sexo, comida, compras, viagens,análise ... e vão embotando a lembrança, vão achatando aquela dignidade juvenil ( incômoda) de que falava Lygia. Só resta esperar que, como nos filmes de Bergman ou nas peças de Shakespeare a memória volte sob forma de sonho, ou melhor, de pesadelo.
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