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Florianópolis, 31 de Janeiro de 2008 CAUSO À MODA DE KHARMS Por: Vera Albers Se tivesse que morar em algum prédio, seria neste. (Assim pensei no aguardo do elevador que me levava à cobertura, sede de um congresso de médicos, um dos quais era o meu ginecologista.)Isso, por muitos motivos: adoro espelhos de grande estatura, murcioplelo vermelho e chapas de latão brilhando que enfeitam o longo corredorDeve ser meu ressaibo conservador, que tanto atrai os passadistas.Mal sabem eles que atrás desse perfil há um espírito muito descolado.Cuidado! Disse descolado, não depravado, como com certeza é o deles.(Depois de RC dizer que desconfio dos passadistas é vezo de linguagem).Sei que ao olharem para uma mulher a despem imediatamente.Pergunto: qual a graça?No encalço do elevador há agora uma fila de matronas, cheias de pacotinhos. Com certeza as mulheres dos luminares.Como de fato é mesmo, dizia a empregada louca, a dona Maria.De fato as mulheres carregam os ingredientes para a alimentação do seminário.Uma traz farofa, outra farinha, outra um emplastro amarelo alemão ou russo, não sei bem – a mulher lembra a matrona do Cirque du Soleil- Acho que não vai bastar , meu marido é um bom garfo -, diz a terceira.Quero encorajá-las, mas a distância é muita.( Entre mim e elas, quero dizer.)Elas esperam outro elevador: são muitas.Eu que estou sozinha, vou nesta.Até que tenho sorte. Há médicos bonitos no elevador que sobe à cobertura.Olham-me, despem-me...Chegando às alturas, a paisagem me ilumina.Vejo embaixo, ao lado do leito da estrada, o leito do rio quase seco, mas a água é prateada. Encômio: Quem sabe eu goste mais de rio do que de mar.O rio é alegre: o mar me dá tristezaO rio é povoado de árvores e pedras. O mar só de ondas: os peixes não os vejo.O mar é imenso, o rio, delimitado.Um é cósmico, o outro – terreal. Mas meu gineco, com cara de Gianecchini, me ausculta logo.E eu, num leve toque, derrubo prédio abaixo uma caixinha redonda de plástico com seus pertences: um pistão, também de plástico, um tubinho tranparente, quem sabe uma boínha: vejo-os lá do alto e decido descer às pressas para recolhê-los.Antes que alguém na estrada os atropele.Tenho sorte. Ninguém passou por eles. Apresso-me a fazê-lo pois eu é que posso ser a atropelada.Desvio para o leito do rio, com a caixinha na mão, a bóia, a bolinha, o tubo, só não encontrei a tampa.Duvido que alguém possa recolocá-los no lugar.E agora, pergunto-me, o que farei sem útero?
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