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Florianópolis, 11 de Abril de 2008 DONA SARA Por: Vera Albers Tinha uma vendinha de lingerie bem na esquina da Consolação com a Amaral Gurgel. Agora ela se deslocou para outra esquina, a uma quadra de distância e tem um pequeno restaurante. Passando de carro pela ex- esquina dela, vejo no chão uma caixinha de capim verde recém-nascido. Provavelmente algo destinado à decoração. Não me custa levá-lo, inclusive porque adoro fazer boas surpresas. Paro em frente ao restaurantezinho e lá está ela, cabelo à rainha Elizabeth, servindo as mesinhas de pessoas anacrônicas. As imagens refletidas nos espelhos me falam de outras eras. A senhora (Olga?) de colar de contas redondas, sorriso grande e poudre esbranquiçado, como se costumava dizer. Alegria! Alegria! E dois senhores de calva redonda sorrindo galantemente aos dizeres da dama. Há outra. As toalhas brancas e os reflexos das lâmpadas no espelho dão realmente ao pequeno cômodo um ar passé composé que me comove, mas também , e principalmente, me entristece. Era a São Paulo de outrora, da qual ainda peguei um escorço, mas que agora se foi. Não apenas pela involução dos costumes, mas pela própria idade.Todos mortos. Como a outra, Liuba, cujos irmãos conheci, um, strelets em Leningrado, outro, pseudo-capitalista na Frei Caneca. O primeiro me falou do grande patriotismo, apesar das críticas; do segundo só sei que usava peruca e que nada deixou de herança ao sobrinho. E a pobre Liuba, que devia atuar de intermediária, acabou morrendo com o coração partido pelos impropérios deste, embrutecido.
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