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Florianópolis, 18 de Abril de 2008

POESIA CONCRETA NO PONTO
Por: Vera Albers

 Apresentação/revisitação da poesia concreta em duas palestra e um debate, captada por uma ouvinte bem intencionada.

I palestrante.

Não sei se “ reificar” a poesia concreta, retirando-a do contexto, seja um bem ou um mal. Ou melhor, geralmente é um mal, mas aqui parece um bem, pelo seguinte. Existe agora , veiculado por Bourdieau  na França e no Brasil por Sérgio Miceli, e  – parece - como uma das teses de Gonzalo Aguilar, o argentino que nos legou A Poesia Concreta Brasileira, mas, contudo,  velho quanto o mundo, o conceito de “campo” – no caso – literário. Sinônimo: jogo de poder. Não é apenas igrejinha: é um grupo que manda por ligações/articulações de seus membros com os detentores do poder: financiamentos, exposição na mídia, toma-lá-dá-cá etc. Membros nem sempre detentores de qualidade literária. Disso os concretos estiveram fora:  de tanto não se articularem com o poder deram até início a  uma seqüência/sequela de poetas iracundos. Daí, (entendo eu) melhor reificá-los.

 Isso não se repete na poesia contemporânea em que cada um vai por si: (não sei não. Há blocos que empurram, com membros igualmente mutilados).

 

Bem, aí entra o Roberto Schwartz com a seguinte tese: a partir dos anos 80 é a crítica que passa a coordenar a poesia. Veja-se a coordenação dele mesmo de algo (que me escapa )de Francisco Alvim e sua  participação – acredito, crítica - , em A Cidade de Deus.

Até Paulo Henrique Brito entra na roda: em seu último livro ele faz uso de “ op. cit” e outros expedientes, que o ligam ao vezo crítico.

Mas: apesar de os concretos não se articularem com o poder (venal), eles criaram sim seu campo literário: em 56 era feita a I exposição da Poesia Concreta e em 57 saía a Formação de Antonio Candido.Tá aí:  campos de poder. Concretismo e Tradição Modernista , com problemas formais e formação compósita e mal ajambrada.

 No Modernismo: o choque entre o verso livre e o decassílabo, visível na 8ª versão, publicada pela Ateliê, (acredito que de Mário de :Andrade).

No Concretismo : 1)a metalinguagem a respeito da qual Merquior (em eras já priscas) pontificava: “ Quando você fala sobre forma, transforma forma em conteúdo”;

                              2) O Isomorfismo: entre palavra e imagem cria-se uma homogeneidade pouco crítica.

 

Vamos então ler a Poesia Concreta (doravante PC) a contrapelo dela mesma.

Pergunta: Qual é o papel da escrita na cultura brasileira?

Ou seja: que tensão se estabelece entre fala e escrita no Brasil?

 

Aí entre o Cornejo Polar com a frase de sobejo:” a escrita é prova de autoridade” e uma historinha dos índios que comeram melões, igual à que conta Umberto Eco em Os limites da Interpretação, só que lá comiam figos.Os índios iam levando dez melões e uma carta para um destinatário. No caminho comeram dois melões. Quando o destinatário leu a carta e os acusou de terem comido os dois melões eles ficaram abismados: “A carta fala! A carta  viu!” e outras surpresas do gênero.Com isso, a importância da escrita e a poesia brasileira voltada ao bacharelismo, à oratória.

Ora muito bem.

A PC lembrou a todos que poesia é coisa escrita, que circula por meio do impresso. Só que agora seus componentes introduziram a idéia de tecnologia: uma nova maneira de se ler o livro. A idéia do verbivovovisual não tem volta para a oralidade.Conforme( o must há algum tempo), Walter Ong :”tudo o que se produz em termos de fala é impactado pela escrita”.

Senão vejamos:

Augusto de Campos ( doravante A. de C.): “ os melhores momentos dão-se quando se acirra a tensão  entre fala e escrita”.

Paul Valery ( honni soit): “O que se mantém ( o que se deve manter) é a hesitação entre som, sentido, imagem”.

Henry Meschonik: isso implica a teoria do ritmo ( entre dois pólos?) e um conceito de oralidade diferente da de Zumthor  ( vocalidade). É uma viagem de volta ao Cours de Saussure: “Não se conhece uma língua que não tenha passado de uma geração a outra”, ou seja, a língua é radicalmente histórica, ou seja, há um ritmo verbal e figural, ou seja, há uma tensão constante entre fala e escrita.

 

Vamos ver agora “Para Amar” de A. de C., que ele publicou em seus Estelegramas ou seja: visão com inscrição, inscrição rupestre, posição escultórica, epigramas, inscrições tumulares,escrita com enigma, para citar o (sempiterno) Arrigucci.

O primeiro nível da análise sugere o “ trompe l´oeil”, dentro da perspectiva da anamorfose, da desconstrução.

É, na verdade, um jogo com o letraset, com diferentes tipos gráficos: a chave está na leitura pelos tipos, pelas colunas, pelas quadrículas, pelo jogo estrutural em que emergem dois centros, o não e o sim,. No fim se formula o campo semântico, todo pautado em contra-sensos.

A estrutura psíquica acompanha as restrições, tal como ocorria com o movimento do Oulipo.

A estrutura sonora de acentos e contra-acentos prefigura  a tensão, desconfigura o ritmo que é quase jazzístico. De acordo com a (sempre sábia) Flora Sussekind , é performativo: faz o que diz. Você acentua o tempo fraco onde tem o tempo forte. Bandeira fez isso. E Drummond?

O poema é como o desejo: não pára de não se escrever.

A chave ( outra!) do poema: é no jogo com a escrita que ele configura a escrita como memória. A escrita se redobra pela força da visualidade. A memória –estertor reproduz os ruídos dos que estão morrendo. Retoma o jogo amoroso da I fase do Augusto, em que o Amor fica fora. No momento em que escrevo, mato a memória, mato a especificidade deste instante. A beleza dessa memória assassina configura a leitura sonora-visual. O amor de A. de C. é a nostalgia , a perda melancólica do futuro. Escrever é portar-se como um morto. É dar ao outro a última palavra. A aporia está aqui: é preciso ler além da página. Ele pede ao leitor uma memória orgânica.

Conclusão: A encenação da recusa do processo enunciativo em A. de C. propõe a subjetividade como um resto: o que sobra.

A gente escreve para ser outra coisa, porque cada um de nós está sujeitado a ser si próprio.

A recusa de dizer é a derrogação perpétua de não mais escrever.

( continua)

 

 

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