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Florianópolis, 10 de Maio de 2008 A DESPEDIDA Por: Vera Albers Ainda vou descobrir o nome daquele ator que trabalhou no filme irlandês em que a namorada era homem. Só reparei que ele me olhava com discreta insistência. Sempre impecável no traje, terno cinza, camisa branca, nariz afilado, rosto pálido que acentuava o azul intenso do olhar. Ao me olhar, sorria. Talvez sorrisse por hábito. Aquele sorriso meio irônico, meio interessado dava-lhe um encanto todo especial. Talvez eu tenha sorrido de volta, nada mais. Estava voltando da casa do Homero com Ju, que queria dar uma volta de barco no rio com ele, antigo amigo de sua infância não remota. Vamos, eu disse. E assim fomos. Homero ficou radiante com isso. Mais, era como se estivesse esperando um gesto de afeto que o livrasse do rancor passado. Para minha grande surpresa, colocou sua caixa de papelão no barco, junto com a nossa, bem maior. Com isso entendi que a guerra que ele travara com Arlete, estava no fim. Que eu era a mediadora, a enviada, dessa paz inglória que tantos anos havia consumido de sua energia, por esse ódio adormecido no fundo obscuro da alma humana. Assim fomos remando pelo rio e as margens eram verdes e o dia se punha num crepúsculo dourado. Deus é isso, pensei, se existe. Embalada por essa lembrança feliz, só reparei que o ator sentara-se junto à janela, na parte da frente da van que nos levava ao hotel. Claro, pensei, estamos todos de passagem. Mas quando um passageiro desceu, ele mudou de lugar e sentou-se a meu lado, atrás. Você dansa, ele perguntou. Há uma festa no palácio dos Waldorf esta noite. Se você gosta de dansar. Gosto de música, respondi. Então, vamos. E estava tão radiante seu sorriso, como se há tempo soubesse que o tipo dele era o meu tipo. Ao chegarmos ao hotel um homem o esperava. Começaram a falar os dois, com gestos concitados, ele cada vez mais pálido e eu entendi que a coisa era grave, uma insurreição talvez, uma derrocada. E que nós não iríamos naquela noite, que nós não mais nos veríamos. E um filete gélido me percorreu até o âmago, passando pelo coração. Deus é isso, pensei, se existe.
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