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Florianópolis, 06 de Abril de 2006

CLARICE LISPECTOR
Por: Vera Albers

Moça delicada, um pouco míope, sempre se aproximava demais das coisas, para vê-las.

Curiosamente, conta o pai com quem morava, fora assim que os avós se conheceram, no fog da Londres de então: quase esbarrando um no outro, por não se verem ( parece que a que veio a ser sua avó carregava uma vela, na mão, a vela caiu e a surpresa fez o resto.) O pai veio ao Brasil para trabalhar em Paranapiacaba, como engenheiro da Royal Railway, e trouxe a mulher e a filha, que, em fato de neblina, não estranharam tanto.

Os anos passaram e a jovem Laila ( nome de uma antiga antepassada, e a mãe fizera questão) começou a lecionar na escola local, no colegial, como se dizia: Inglês. Havia alunos mais velhos do que ela e a um deles Laila entregou seu coração. Rapaz garboso, cabeludo, um pouco violento é verdade, mas como não amá-lo se fora numa dessas rixas com colegas ( para protegê-la, com certeza!) que ela se apaixonara por sua força, por seu ímpeto, por sua coragem?

O casamento foi marcado e as núpcias se consumaram em êxtase completo.O rapaz foi admitido no “ cérebro”da estrada de ferro, e chegou a ser enviado à matriz, em Londres, para cursos de atualização..

A mãe fizera outra vez questão que o viveiro de passarinhos fosse transferido para a casa da filha, no alto do morro ( dos ventos uivantes, brincava o pai), bem em frente à grande sala de jantar de assoalho de carnaúba, e lá eles cantavam alegremente quando algum atrevido raio de sol conseguia penetrar na atmosfera translúcida e alcança-los.

O pai instalou nele uma pequena fonte perene, e os animaizinhos se agrupavam em volta do tanque redondo, imóveis, extáticos, também.

O tempo ia passando. Entre uma viagem e outra do marido, o carinho crescia e ela se bastava. Quase alheia aos acontecimentos da cidadezinha, bastava-se também com a casa, com a escola ( agora só lecionava no ginásio), com os passarinhos...

Uma manhã as coisas não correram como de hábito.

Começou com a empregada que chegou alvoroçada dizendo que Joyce, um engenheiro da ferrovia, chegado fazia alguns meses e que se pensava estivesse em Londres, fora encontrado enterrado embaixo de uns dormentes, nos trilhos mortos, onde estava há tempo encostada a locomotiva branca.

Depois, uma coisa extremamente insólita acontecera com ela própria; no momento mágico em que ia observar os pássaros bebendo ( isso acontecia todos os dias, depois do toque do pêndulo na sala) o que ela vira? Que o viveiro fora visitado por outros bichos – ou , pardon , os bichos tinham nome :uma rã e uma lagartixa, ela as vira e não acreditara a seus próprios olhos – estavam postadas juntos com os passarinhos, imóveis, em círculo, os olhos imantados pela água que jorrava da pequena fonte.

Ficou tão impressionada que perdeu a hora combinada de telefonar ao marido em Londres, telefonou bem mais tarde, quando ele já tinha se comunicado com os pais e, gaguejando pela emoção, lhe relatou o acontecido.

Você e seus bichinhos, sua cretina!Você fica me sonegando as coisas importantes, com os seus bichinhos...E quer saber de uma coisa? Esqueça que eu existo. Não precisa mais esperar pela minha volta!

 

 

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