Comentava-se, a boca pequena, que a Teresinha ia cair fora. Cair fora como? Pois o cargo não é efetivo?
Em suma, era uma maquinação na qual andava metido o ex-catedrático, prestes a se aposentar, que não queria deixar o cargo para o marido da Teresa e, para atingi-lo, começava atacando a mulher. Tática estalinista.
Portadora do segredo, procurei informar-me.
Ela não era tão ruim assim, e senti pena por ela. Principalmente ao rever em minha mente um escorço do qual fui espectadora en passant: ela se dirigia à classe ( que provavelmente não tinha culpa em capítulo) muito sentida : “ Eu não entendo vocês. Tenho trabalhado incansavelmente, de manhã à noite, sem medir esforços...”
Senti ganas de alertar a própria, mas, felizmente, me contive. Só aglutinaria os acontecimentos e exacerbaria algo que podia dar em nada, e depois, como dizem, onde há fumaça há fogo ( o marido, quero dizer).
Assim, apenas promenei-me com ela pelo corredor, sob o olhar inquieto de quem me revelara a intenção.
O corredor desemboca no pátio por uma escada e, embaixo dela, os alunos fazem agora o que está na moda: instalações de poesia.
Chegamos bem na hora.
“Asgemeas” chamava-se a instalação.
Uma moça, aliás duas, vestidas com aquelas roupas indianas de volants castanhos, completamente mimetizadas com o chão, se arrastavam sobre o mesmo com os movimentos de duas lagartixas. O vão da escada é tão baixo naquele ponto que no começo pensei que fosse algum animal. Eram elas mesmas, tentando hipnotizar uma mosca vestida de prateado, no meio das duas, e depois engoli-la com suas línguas vermelhas, fulminantes.
A coisa era tão fascinante como o são os obscuros arquétipos da besta que nos ronda a cada instante. Desmemoriei-me.
Quando voltei, a pobre Teresa tinha tido um ataque de asma e boquejava, sentada na cadeira, enquanto alguém tentava reanimá-la agitando em seu rosto as folhas do último Jornal do Campus.