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Florianópolis, 20 de Junho de 2008 SINCRONIA E DIACRONIA Por: Vera Albers A história começou no Departamento de Ictiologia. A nova chefe, lisa e redonda, de nome Dilma, que fungia também como orientadora, estava folheando um relatório que ela mesma fizera, com abundantes fotos do litoral, da flora e da fauna, e queria que nós o estudássemos para elaborar os nossos em sintonia com o dela. A fila era longa, o relatório um só. Foi aí que pensei em dar uma volta pelas redondezas, até o rio, feito o canal de Bertioga, que nos divide do campus universitário de um lado e da especulação imobiliária do outro: não é por nada que em frente à mata, na sua margem direita deram de surgir pequenos hotéis, agora, como se fosse uma riviera. Lá fui eu, pensando em voltar à tardinha e me introduzir na sala, onde, sozinha, juntaria idéias e as experiências da minha investigação. Atravessei o rio no pontal da Universidade e o restante do caminho fi-lo num pequeno barco que estava atracado lá, com alguns moleques. Chegada à margem oposta, ainda em estado primitivo – por um lado é bom pois a natureza ainda se encontra como Deus a fez, ou seja cheia de rochas e de pequenas cavernas – não é que encontro a Cecília? Vagueando na encosta, como quem esta profundamente imerso em algum problema que, ao me ver, prontamente me expôs. Tiraram todas as minhas aulas - disse - alegando que há excesso de corpo docente. Só me deixaram uma classe , às oito da manhã, a mim que sou noturna e eles sabem disso de sobra. Só pode ter sido a Osíris, tenho certeza, ela me odeia. Há tempo venho insistindo com a Cecília para que ela faça o concurso e se estabilize. Enquanto isso fica sujeita a todas essas variáveis pessoais. – É uma pena – respondi , e fomos adiante falando um pouco mais no assunto, eu com maiores escandecências do que ela, nos confrontos da Osíris. De repente, de uma das fendas da rocha começam a sair uns moleques, diferentes dos que vinham comigo no barco, mas tão diferentes a ponto de parecerem anormais. Corpo atarracado, como de velhos e cabeça desproporcional: olhos e lábios imensos, de dar medo. O que será isso aí, pensei, mas não disse nada. Cecília logo se despediu, visivelmente perturbada, com a desculpa de que estavam à sua espera para o jantar. Eu resolvi voltar de onde viera só que, dessa vez, pelo caminho normal. Os meninos-monstros me seguiam. Talvez queiram esmola, pensei. Mexi na bolsa à cata de alguns trocados.Um deles começou a me falar numa fala engrolada, o mais velho deles, que se eu quisesse, daria um jeito na Osíris. Então fiquei mais do que preocupada. Vai ver, pensei, que são amigos da Cecília.Como eles sabem o nome da infeliz? Cecília tem verdadeira pulsão por se meter com anormais .Só faltava essa agora. E esses milicos que deram um jeito nos três jovens , para sancionar o exemplo. Respondi baixinho qualquer coisa incompreensível, como se falasse outra língua e saltei na balsa que retornava ao pier. Respirei. Eles não me acompanharam. Num cantozinho do convés a tripulação se regalava com um braseiro onde assavam uns peixinhos redondos típicos da zona. É o peixinho da Dilma, reconheci, não sem ironia. Prove um pedaço, disse o tripulante mais poliglota, pois agora, com o advento de turistas estrangeiros, estavam se adaptando às pressas. Provei ( tinha gosto de gasolina). Não quis cuspir na frente dele e como a balsa já tinha atracado e a vontade era urgente, saltei pela amurada até as rochas já esmiuçadas da margem e cambaleando um pouco, me aprumei e fiz sinal de despedida com a mão. No píer uma van ia recolhendo os turistas dos hoteizinhos.Quis me valer dela mas achei melhor não entrar. Perguntei primeiro a um garotinho francês aonde eles iam, mas não soube me responder. Resolvi então voltar a pé para o Instituto e fazer meu relatório. Ainda havia um solzinho, mas já fazia frio . Essas frentes polares não dão descanso. Ainda bem que os turistas estão acostumados com o gelo da Europa. Pra eles isso aqui é pleno verão. Assim conjeturando só reparei na multidão que havia se juntado em frente à porta de entrada do edifício praticamente quando cheguei lá e soube que um corpo fora encontrado ao largo do estreito, boiando a poucos metros da bóia que marca o ponto em que o rio desemboca e o mar o engole.
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