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Florianópolis, 15 de Outubro de 2006

O PALACETE
Por: Vera Albers

As moças vieram de uma faculdade do interior para estudar na capital.
Encontramo-nos no café do grêmio e eu, que também fui transplantada, fui dando as dicas de como se ambientar: secretário, créditos, cursos, professores. Faltou a residência.
-- Bem, disse Luiz, sempre providencial, sei de um palacete na Barra que o dono aluga para estudantes. Ele ficou viúvo e mora numa parte dele.
Disse-me o nome da rua e que ficava à direita, em frente ao Belvedere. Fácil de encontrar.
Resolvi acompanhá-las até lá.

Bem dizem que santo de casa não faz milagres.
Enquanto íamos andando à procura de um táxi, ia mostrando as belezas da cidade. Agora reparei: são tantas, a cada passo. Não exatamente como em Veneza, mas um tijolo aqui, um gato acolá, uma pedra enegrecida, um ramo de giesta, fora o enorme espetáculo do mar.
-- Apocalíptico, disse uma delas, e eu tive que concordar. Aquela enorme concha azul, nunca a havia visto assim.

O motorista disse que havia duas Barato, de modo que optamos por aquela que vai subindo o morro, na direção da Barra.
-- É aqui, é aqui, gritei e pedi que as duas e o táxi me esperassem no Belvedere, enquanto ia ver se no palacete havia vaga.

Não sou muito amiga de Repúblicas, depois da experiência triste que tive em minha vida egressa, mas, quem sabe aqui o pessoal seja mais civilizado...
Ao subir os degraus vi um senhor de idade em pé junto a uma mesa iluminada por aquelas lâmpadas verdes de que os ingleses gostam tanto.
-- Vai ver que é o dono, um médico, parece, e que é inglês...
Entrei pela porta semi-aberta e dei logo, na cozinha, com uma senhora também de idade, que era a cara de Judith Bench. Sem nada me perguntar levou-me à saleta do primeiro andar e começou a contar-me uma história sem fim.
Ouvi a buzina do táxi e cai em mim.
-- A senhora me desculpe um momento, eu volto logo, e desci correndo a escadaria.
De fato, eram as meninas que vinham me dizer que eu havia errado de casa: a pensão era logo ali adiante e elas já haviam encontrado dois lugares.
-- Que bom, pensei, elas já estão alojadas e eu vou voltar para saber a história da Judith. Com o destino, nunca se sabe.

 

 

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