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Florianópolis, 22 de Outubro de 2006
VERGONHA
Por: Vera Albers
Começou que fomos almoçar no fatídico apartamento da russa. Comemos o pouco que tinha, por insistência dela, insuportável, e no fim veio o que era de se esperar : não tem dinheiro para o gás, não tem dinheiro para o condomínio, não tem dinheiro para o filho, sim , digo, super-condoída, pensando em como ajudar...
--Mas e o trabalho? Ela não quis o trabalho, informa-me Esar. Achou pouco, o salário. – Mas você não explicou que é assim que começa? E por acaso adianta?
Depois, embarquei na de meu irmão. Ele havia recebido, em tempos remotos, uma fivela de ouro que pertencera ao titio, como parte do espólio. Estava agora em dificuldades monetárias “transitórias”, disse-nos. – Vende a fivela, disse eu, um antiquário paga uma boa quantia por ela e você resolve o seu problema, ou então põe no penhor. –Não dá, explica o mano, eu perdi o encaixe e, de fato, tira do bolso a fivela pela metade. Separamo-nos, mas ficou implícito o pedido e a má consciência de quem não ajudasse.
Por um acaso qualquer, ao trocar os sacos de plástico para as roupas de inverno que estão há tempo no guarda roupa, topo com a jaqueta das calças do mano. Mecanicamente apalpo os bolsos e lá está, embrulhadinha em papel de seda, a outra metade da fivela. Sinto uma onda de calor subir-me ao rosto e tenho certeza de que fiquei vermelha, senti-me envergonhada, como se eu fosse ele.
Como pôr um fim a isso?
Chega a hora de eu ir trabalhar. A classe está cheia, começo a chamada oral ( hoje é dia) pelas fileiras da frente, horizontalmente. Toca o intervalo e quando voltamos à sala vejo que metade da classe foi embora, exatamente a metade que tinha sido argüida. Aquela mesma onda de calor invade-me o rosto. Como foram embora, se ainda tem metade da aula? Ah, mas dessa vez não vai ficar assim , penso ou digo, brandindo a lista de chamada: assinem aqui. Quem não assinar, vai ficar com falta. Pior, quem saiu, vai ficar com um ponto a menos! – Dessa vez vai, ouço pelas carteiras.
Na manhã seguinte, eu sou chamada. -- A senhora está pecando por excesso de zelo, diz-me o diretor com aquela voz pausada, cheia de autoridade gutural. – O aluno boceja, vai pra fora. O aluno vai pra fora, baixa a nota. O ano passado não tive nenhuma reclamação, o que foi que houve? Sinto a onda de calor, minha face é vermelha e ...sinto-me envergonhada como se eu fosse eu.
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