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Florianópolis, 14 de Outubro de 2008 O PONTO DO ôNIBUS Por: Vera Albers Chamava-se “Constituição”. Talvez fosse o nome do bairro, mas estava na tabuleta da parada. Como em Londres, uma voz riu dentro de mim , mas só por um instante.Deixei o carro no descampado dessa periferia quilométrica, após inúmeras tentativas de ligá-lo e só tive o tempo de agarrar o plástico onde agora guardo o dinheiro – e os documentos, espero, depois da Linha de passe – visto que o ônibus que devia me levar a algum lugar já havia chegado e já estava saindo, por sinal. Se a moça que me vira às voltas com tanta manigância e a quem estava dando uma carona não tivesse gritado, ele teria partido sem mim. “ Constituição”, repeti mentalmente, não posso esquecer o nome. Demos tantas voltas que, realmente, se o esquecesse, jamais saberia como retornar. Finalmente chegamos às proximidades do aeroporto e resolvi descer. A moça continuou, por conta dela. É muito simples, dona – dissera-me um sujeito no ônibus. É só empurrar o carro até a beira da rampa e descer a toda, dando uns trancos com o acelerador .Ele pega sozinho. É mesmo, pensei. Por que será que o nosso cérebro fica bloqueado, justamente quando mais se precisa dele? Agora, com mais calma, resolvi tomar um táxi e voltar para lá. Iria pedir ao taxista que me desse um empurrãozinho e, pronto. No momento em que sentei esqueci do nome do ponto. “ Estado Novo”, falei. Não moço, “Tribunal de Contas”. Fica na zona leste, eu acho. O motorista olhou para mim. Nesse exato instante a porta foi escancarada com violência e um guarda empurrou uma jovem para dentro. Rápido, ao pronto socorro, disse o guarda, -- requisitado! E, da calçada, bateu a porta com violência. Ainda deu uma pancada na lataria. A jovem, ao meu lado, debatia-se, agarrada a meu braço. Choramingava. Pareceu-me entender que se chamava Suely e que, de alguma maneira incompreensível, teria sido violentada. Agora é que não vou lembrar o nome mesmo. Como é que eu vou encontrar o bendito carro? Se estivesse segura de mim, não teria acontecido nada disso.Uma tonta! Onde já se viu esquecer que o carro pega na descida? Presença de espírito, isso é que me falta. O motorista ia dirigindo a esmo, nem sei para qual pronto-socorro. Se fosse aquela madame Muricy ia mandá-lo para a Santa Casa direto lá ela tem toda uma equipe de voluntárias...que maçada, agora... Mas não seria melhor passar antes numa Delegacia? Tudo culpa da criação que eu tive, tivesse tido uma infância amparada... ou a fé do Protógenes, quem sabe?
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