Levei as crianças para receberem o passaporte, legado dos avós estrangeiros. Depois do seqüestro simulado de que foram vítimas, querem deixar o país. Chamo-as crianças por hábito, apesar de já maiores de idade, mas também porque fazem cada brincadeira comigo, só vendo.
Julieta resolveu me espirrar com uma bexiga de água durante o trajeto, coisa que me irritou sobremaneira e eu, para dizê-lo em tradução literal, sobrerreagi. Xinguei, imprequei, depois me arrependi. Mas elas já tinham entrado na repartição e para me esfriar resolvi dar uma volta a pé.
Deixei recado no vidro do carro e subi a rua Tobias, por onde não passava há anos. Parece que em véspera de Natal as autoridades policiais permitem a visita às instalações prisionais, pois meus passos me levaram automaticamente a uma enorme galeria, que tomei pela antiga estação, mas que na verdade, tão logo entrei, pareceu-me uma espécie de “depósito” de pessoas, ou melhor, uma caverna, iluminada apenas pela luz das duas entradas e cheia de vespertílios voadores.. Famílias inteiras acampadas, uma ao lado da outra, agachadas sobre sacos de estopa, encostadas a enormes pedras, mofadas, amareladas. Eu passava e elas nada diziam. É o fim do homem histórico, pensei, até linguagem desapareceu, é o pithecanthropus alalus.
Esta é uma visão do fim do mundo, senti dentro de mim. É um prenúncio do que nos espera, e ninguém fala nada, ninguém.