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Florianópolis, 24 de Dezembro de 2006

GUIA PARA POESIA?
Por: Vera Albers

Estrofe I e Verso II ( Pessoa)
Versos III,IV - Hölderlin
Trechos em castelhano:Heidegger –“Hölderlin y la esencia de la poesia”

Realmente a poesia, embora a mais primordial das manifestações orais humanas depois do grito ( cf. Vico et caterva), deveria ser o gênero mais lido nessa nossa época tão acelerada ( inclusive, para o fim das épocas ). Por quais razões? Primeiro, por sua essencialidade. Da pilha de livrinhos que estão acima de minha cabeceira e que revisito constantemente – tantos há que até receio que uma noite a prateleira desabe sobre minha ignara cabeça – gosto de assinalar os versos que me inspiram: sempre há algum verso que se salve, mesmo nos poetas ainda não consumados.—É isso mesmo!, digo com o entusiasmo de quem descobre uma verdade até então não desvelada, ainda que o poeta não consumado não tenha sabido construir o jogo ( o poema) do qual a linha deveria fazer parte orgânica. Ma isso é privilégio dos grandes:

I
Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é já o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada

Aí, segundamente, com esse verso ou estrofe que me tocou, eu mesma tento criar meu jogo. Geralmente é uma viagem ligada à infância, diz a psicanálise, pois a infância é a mais primordial das épocas de cada um. Armo-o de modo inofensivo “ un juego de palavras sin lo serio de la acción”:

Acordo às seis e olho pela fresta:
O dia começa. Há um laivo alaranjado
Que me conhece e a palmeira o empresta.
As maritacas gritam seu recado
E a seiva freme.

Corro pelo jardim. Ao desperdício
Nada. Ouro há de ser mais este dia.
Vibra em meu ouvido o ar. Sem artifícios,
Cálido arde o sol do meio-dia
Atarefo-me.

Dansam as horas rápidas seu curso
E batem devagar em meu silêncio,
Pesam-me as pálpebras, já mais lento é o pulso,
O sono avança e exige seu compenso
Súbito, apago-me.

O poeminha é simples, mas me encontro nele.
É como se ( terceiramente) a linguagem seguisse seu caminho ( o dos deuses da palvra?), apesar de mim que a uso. O verso tem ritmo, rima, consonâncias e aliterações para que o dom da linguagem pulse nele:II Todo começo é involuntário. Não é a vontade: é a emoção que o move. E , além do mais, sei muito bem que “ los frutos deben primero hacer-se más cotidianos, más comunes, para que se hagan propios de los mortales. Os primeiros são frutos simples. E falta a transcendência. Bem sei. Mas serão frutos autênticos?

” El hombre aprendiz em todas las cosas. Pero éstas están en conflicto. La ´intimidad´las mantiene separadas, pero que igualmente las reúne, gracias a la criación de um mundo”.
A criação de um mundo ( quarta condição): que coisa maravilhosa! Até ali cheguei.

Por que será, porém, que a linguagem cria a possibilidade de um perigo?
“El peligro es la amenaza del ser por ele ente... El habla es dada para hacer patente, en la obra, el ente como tal y custodiarlo.”

A linguagem não é apenas um instrumento que o homem possui: é o primeiro que lhe garante estar entre os entes.
Só há mundo onde há linguagem: decisão e obra, ação e responsabilidade, mas também capricho e alvoroço. Queda e perdição. Logo, deveria haver a expressão desse conflito, no poeminha. Falhei na quinta instância...

Só onde há mundo há história.
Só onde há linguagem há mundo.
Logo...o ser do homem se funda na linguagem, e a linguagem é o meio de se chegar um ao outro. De onde, nós que temos linguagem, somos um diálogo. Mas quem capta no tempo corrente o que permanece e o detém em uma palavra? Aí é que está: o poeta.
A medida antepõe-se ao desmedido. “El ser debe poner-se a descubierto para que aparezca el ente”. A poesia é a instauração do ser na palavra.
Pero puesto que el ser y la esencia de las cosas no pueden ser ni calculados ni derivados de lo existente, debem ser libremente creados, puestos y donados. Esta libre donación es inastauración.
Porém, cuidado ( sexta instância):
III
Debe partir a tiempo
Aquel por el que habla el espiritu
IV
Solo a veces soporta el hombre la plenitud divina.

“Es preciso uno que interprete lo sagrado,
mas
La excesiva claridad lanza el poeta em las tinieblas...”

Falhei na última instância.

 

 

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