Lembro-me de uma série na TV, uns anos atrás, em que a Bruna Lombardi entrevistava atores. Uma dessas entrevistas foi com Dustin Hoffman e quando ele começou com um gracejo ela pareceu perplexa. – É que hoje, explicou o ator, se não houver uma boa dose de humor, ninguém mais agüenta.
Estou de acordo com ele. Entretanto, há muitos tipos de humor e o mais sutil e o mais raro é justamente o do estilo, que pode tornar “humorístico” qualquer tipo de expressão. Cultivada secularmente na Inglaterra , sua eclosão é o wit ; na França o mot d´esprit ( a lista é longa: na Espanha agudeza, na Itália e na Roma Antiga ingegno, na Grécia, idem, euphuia, na Alemanha Witz, na Rússia ostroumie...), mas o estilo, que pode espoucar aqui e acolá com uma tirada, é mais do que isso.
É algo contínuo, fluido, que vai capturando o leitor ( ou ouvinte) como fizeram Gadda, Sterne e Wilde , como fez Machado de Assis em seus grandes romances e como faz, por exemplo, Valaki Más, um escritor húngaro contemporâneo, ganhador de um prêmio Nobel, que uma conhecida minha está traduzindo para o português. O livro chama-se Alguém mais. Transcrevo:
“ Ser estigmatizado é minha doença, mas também o incentivo de minha vitalidade, seu estimulante; é daqui que tiro inspiração, no momento em que,de repente, com um berro frenético,como que atacado, inesperadamente passo da mera existência para a expressão. Ser estigmatizado é minha desgraça e meu capital e agora tenho medo que esteja se tornando indispensável, embora suportá-lo também fique cada vez mais difícil. Pergunto-me se ainda consigo levar uma vida normal. E desconfio que não vou encontrar uma resposta clara e inequívoca, pelo menos enquanto vivo, onde vivo e onde meu estado de estigmatização é eterno, porque provavelmente já se tornou minha natureza.”