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Florianópolis, 16 de Julho de 2007

UM CRÍTICO INTELIGENTE
Por: Vera Albers

O César Lattes – contava-me Sérgio Medeiros que foi entrevistá-lo em sua casa em Campinas – olhou para ele com suas pálpebras semi-cerradas e comentou : “ Como é que você pode ficar aí rindo e estudando uma coisa que não existe?”

Achei graça na observação do físico que se referia ao estudo da “ Teoria Literária”, mas menos graça quando ela me foi repetida por  outros adeptos das ciências puras ou aplicadas no decorrer de muitos anos. Respondi como pude, apelando para filósofos vários e até para físicos – lembro-me de uma frase do  Niels Bohr que dizia que tudo o que é branco ou preto é simplório, a verdade tendendo mais para o opaco etc., que é o que ensina a literatura. Enfim.Agora, lendo o livro que Terry Eagleton  já havia escrito em 1983 ( eu é que li atrasada), Teoria da Literatura: uma introdução( Martins Fontes) vejo que ele dá a resposta mais competente.Merece aplauso não apenas por isso,mas o resto já é outra história. Consistente e habilidoso, situa sua introdução a partir do final do século XVIII, começando com um capítulo sobre a ascensão ( e queda) das letras inglesas ( presume-se que ele seja inglês – conferi: ele é professor festejado da Universidade de Manchester) que lembra o espírito cáustico e opinioso de um Bernard Shaw, logo, extremamente bem-vindo. Mas reconhece a teoria literária propriamente dita a partir do abandono das considerações impressionistas  rechaçadas pelo Formalismo Russo, e assim vai: crítica inglesa, new-criticism, fenomenologia e hermenêutica, teoria da recepção, estruturalismo e semiótica, psicanálise, feminismo, marxismo. Sua tese é a seguinte: o gosto da gente, as formas do que dizemos ou acreditamos não são só subjetivos: dependem de certos grupos sociais e de como eles conservam seu poder sobre outros. Todos os nossos critérios subjacentes, inclusive inconscientes – não só os arraigados -- são ideológicos. A teoria literária desvenda ( entre outras coisas) nas obras literárias a ideologia que é como se conecta a estrutura do poder   (as relações de poder) na sociedade em que vivemos. Assim ficamos sabendo como se coloca a redução fenomenológica ( Tolstói) frente à abstração eidética ( Husserl); o texto como encarnação da consciência do autor ( Starobínski) frente à forma tal como ela se percebe ( F.Russo); o reconhecimento que o significado é histórico e que o ser abarca sujeito e objeto ( Heidegger) e a abolição de contradições intoleráveis ( Fascismo); as características individuais em função de um contexto ( Hermenêutica) e o papel do leitor ( Recepção); a obra como todo orgânico ( Imgarden) e o prazer do texto ( Barthes);a história literária como substituta da História (N. Frye) e a obra no horizonte histórico ( Jauss); a deslocação do signo do seu objeto ( Jakobson) e o que determina o significado em poesia (Lotman); a consciência e a linguagem dentro e fora do indivíduo ( Bakhtin) e o prazer da forma artística como gozo de seus próprios processos inconscientes ( Freud); a separação do signo do referente ( Estruturalismo) e a separação do significante do significado ( Pós-estruturalismo); a linguagem como metafísica ( De Man) e a obsessão pela indecisão ( Derrida). Bem, paro por aqui, mas vale a dica.

 

 

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