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Florianópolis, 25 de Março de 2007

PASCAL
Por: Vera Albers

Não lembro se foi você que fez questão que visitasse seu ateliê recém-reformado, num de seus momentos de entusiasmo, ou se fui eu, sempre ansiosa por qualquer novidade.

O fato é que subimos, os dois, a rampa. Uma rampa tão íngreme, depois da erosão da estrada, que tive medo de cair de costas. Olhar de baixo é sempre mais assustador. Lembro-me que depois de esforço hercúleo consegui me içar e lhe estendi a mão para ajudá-lo. Entramos no estúdio, tal como o imaginava. Um cômodo só, ocupando todo o interior da casa, com armários pesados de madeira antiga, cheios de gavetas. Uma passagem em arco e uma varanda coberta, ainda não terminada, você me disse, apontando com o pé para certos pontos do chão que pareciam pequenas bocas de vulcão que, se você as pisasse, afundariam.Estranho, pensei, por que será?

Provavelmente vinda de uma dessas bocas, uma cobra cilíndrica, mas de corpo curto, aplastrou-se ao chão, com cuja cor se confundia, e começou a mexer-se. Não senti medo nem mesmo quando se transfigurou numa cabeça loira de mulher, de olhos negros e lábios vermelho-laranja, que começaram a dizer coisas, ininterruptamente. Coisas tão importantes que pensei: vou anotá-las. Mas, tal como os números que muitas vezes me aparecem nitidamente, e nunca dão, assim as palavras perderam seu som, sua forma, sua significação.

 

 

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