O cachorro latiu. Não chegou propriamente a ganir.
Deu quatro latidos, cada um em um ponto diferente do pátio, e calou. Ele cumpre sua missão, pensei, corre, de noite.
Depois, um barulho como se estivessem despejando lençóis de água do telhado. Chuva, pensei, mas estranho chover assim do lado de cá da casa.Bem debaixo da janela do quarto.
O sono se foi.
Aproveitei para abrir a persiana e olhar embaixo. Lá estava o gato, molhado, olhando para cima. Queres entrar, perguntei. Sobe, sobe.
Mas gato não dá pulo para cima, que eu saiba, pensei.
Que eu saiba, mas tudo é possível.
Há algum tempo coisas vêm acontecendo, que não consigo explicar.
Deve ser a regressão à natureza, da cultura, quero dizer.
Minha consciência ainda se opõe fundamentalmente a qualquer outra consciência? Ou tenta cooptar-se, como aqueles machos gorilas que ofereciam o sexo, veja você.
Abro a porta do quarto e exploro devagarinho o resto da casa. Tudo, tudo foi mexido, durante a noite. Chego até a porta de entrada e lá está: a fechadura foi violentada, com pregos, madeira incrustada, sei lá o que usaram.
Não sinto pânico. Apenas a depressão profunda da impotência.
Minha bolsa continua pendurada no mancebo. Pergunto: o que será que eles procuravam?