A idéia da associação surgiu-me ao ler o ensaio-depoimento de um poeta finlandês, Leevi Lehto, dado à revista Sibila nos.10 e 11/2006. Entre várias coisas interessantes ditas sobre a essência da poesia, uma delas é ( resumo) que a incompreensibilidade é uma de suas características intrínsecas -- a claridade em excesso afunda o poeta nas trevas -- dizia mestre Heidegger .
Será que isso se deve à conexão da poesia com o ideal? pergunta Lehto, ou será simplesmente que ela não pretende ser entendida – [ mas, nem ao menos, captada?—digo eu].
Depois disso, o fluxo de sua influência despeja-se sobre nós e nós, sendo poetas, enriquecidos, compomos.
A poesia é pensamento, só que é uma forma de pensamento em que, com freqüência, certas contradições internas podem ser levadas mais longe e .. reveladas [ se não propriamente reveladas, insisto eu, quem sabe, ao menos, captadas? Será um problema meu?]
O pensamento não é tomar consciência da proporção entre as coisas, mas, pelo contrário, é se expor à desproporção entre as coisas, ao ´ não entendimento’ ...
Isso me trouxe à lembrança as aulas do professor Cid. Há alguns anos senti necessidade de reciclar aqueles conhecimentos de colegial que haviam ficado para trás devido à minha natural orientação pelas Humanidades. Aí procurei um Cursinho dos mais conceituados (conforme reza o lugar-comum, um lugar onde não dá para fingir que se estuda, nem para fingir que se ensina e cujo único mal é o volume excessivo e por demais acelerado dos conhecimentos) e tive sorte. O professor Cid lecionava matemática. Ele tanto gostava do que fazia que, ao morrer, deixou o legado que suas cinzas fossem dispersas no pátio da escola. Era com um carinho tão grande que ele escrevia na pedra aquele a+b.raiz de menos um, que a gente não tinha coragem de perguntar que raíz de menos um era aquela. Depois, o macete da resolução, tão bem ensinado, acabava nos fazendo montar (compor?) o problema e chegar ao resultado desejado. Se alguém perguntava o porquê daquele proceder , dizia mestre Cid, com aquela sua bondade: “ meu filho, os números algébricos são trabalho da mente humana.Sua existência não é nem baseada, nem deduzida da existência de objetos físicos, nem de analogias com processos naturais. São uma construção mental. A álgebra é uma estrutura e os números algébricos são... são ...um ideal.”