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Florianópolis, 20 de Julho de 2007

IDEAL & DIGRESSÃO
Por: Vera Albers

Todas as pessoas devem ter um ideal – dizia em sua filosofia o saudoso Salvador Candia, que Deus o tenha. Desde chefiar um exército até ir pescar todo sábado. – Mas isso é mais um ritual, interrompia Salsinha, o sempre presente. -- Pois é, quem não tem ideal, caça com ritual.Mas alguma coisa deve haver que sustente  a vida das pessoas.

Senão a vida deixa de ter sentido e o que é pior, desmorona.

Essa verdade de aparência acaciana encerra, porém, uma inquirição básica: quem pode acalentar um ideal, por aqui,  quem um ritual e quem nem uma coisa nem outra?

Vou direto à última parte. Colocando-se como pressuposto que tanto o ideal quanto o ritual sejam edificantes ( no sentido de secundar o “ instinto de vida” e não o de destruição e morte -- conforme  intromissão  recomendada do analista “sempre eficaz” de Carlos Heitor Cony  -  Folha Ilustrada 20/07), nem todos os que querem conseguem.

Digressão e exemplo. (Cf. António Damásio, que começou tão  provocativamente ( filosoficamente) seu livro O Mistério da Consciência para logo incorrer em exemplos fisiológico-laboratoriais).

Uma caseira de uma casa do Guarujá ( litoral paulista) tinha um filho de 10 anos, no primário. O menino, muito vivo, era sabatinado pela dona da casa, toda vez que lá ia passar um fim de semana: velha professora aposentada, que de acordo  com seus valores antiquados considerava seu dever acompanhar os estudos do menino na escola pública local. A velha professora ficou logo entusiasmada. O menino era não só esperto, como inteligente! Quem sabe, inclusive com o estímulo dela pudesse chegar a alguma Faculdade! Só que logo depois descobriu que ele ia perdendo o interesse pelo estudo, e não sem razão. Parece que devido ao nível da classe e outras mazelas a pobre professora  primária teve que reduzir drasticamente o ritmo e a qualidade do ensino, para a manutenção dos quais nem o salário, nem a segurança, nem o reconhecimento contribuíam, muito pelo contrário. Dito e feito. Em lugar  dos livros, na pasta, encontrou-lhe a velha professora aposentada fotos de mulheres amplamente cabeludas. Será  precocidade litorânea? pensou ela. Na semana seguinte, encontrou-o suspenso. – O que foi? inquiriu ela. A mãe explicou. –É que os moleques lá da escola ( a escola é abastecida pelos moradores do “ Areião”, notório criadouro de bandidos e assaltantes locais) o atacaram e ele reagiu: mordeu-os.  De reação em reação ( quem poderia culpá-lo?) um dia, voltando inesperadamente de um passeio, a professora encontrou-o dentro do quarto dela, com a carteira dela na mão.

Tenho medo dele, agora, disse a professora, cada vez mais velha e aposentada. Deu o dinheiro à mãe para que comprasse uma casinha no morro ( outro Areião?) e esqueceu da família.
Até que um dia os jornais guarujenses  divulgaram  a morte de um turista que “ reagiu” e  a foto do assassino-menino.

Pergunta-se: cui prodest?  ( dispensam-se os gestos  efusivamente obscenos dos assessores-defensores do Planalto no caso Airbus-Congonhas , Marco Aurélio Garcia “que fez por três vezes o gesto em que se bate a palma da mão estendida contra a outra mão fechada” e &Bruno Gaspar, que “ esticou  os dois braços para a frente e depois trouxe os cotovelos em direção ao quadril”, cf. Jornal da Globo 19/07/07 às 20h17minutos, ambos ilustrados na Folha acima mencionada).

 

 

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