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Florianópolis, 26 de Agosto de 2007

SANTIAGO
Por: Vera Albers

Curiosidade e impaciência levaram-me à sala do Unibanco3 para ver Santiago de João Moreira Salles. Leio na Gazeta Mercantil de 24/08 as boas reportagens de Christian Patermann sobre  ele e fico sabendo de sua filmografia anterior ( 1989 – série América; 1990 – série Blues;  1998 – Futebol; 1999 – Notícias de uma guerra particular; 2000- É tudo verdade; 2002 – Peões e Entreatos; 2005 – Nelson Freire; O Google me dá uma entrevista e dados biográficos familiares. Agora estou mais inteirada, pois conforme escrevi na semana passada, meu  interesse pela obra do cineata-roteirista-jornalista-poeta foi suscitado pela entrevista a FHC, cujas contradições soube captar sutilmente, coisa rara em nossa atualidade.

Bem. Não fosse a tirada final do surpreendente mordomo (explicando ao jornaleiro curioso pelo que estava acontecendo em seu quitinete que o estavam embalsamando ou empalhando) eu teria saído chorando. Sai entre o riso, o pranto e o encantamento. Pranto de comoção por tanta sensibilidade, delicadeza, entusiasmo. Riso, por certas incongruências muito engraçadas como as rezas em latim completamente estropiadas, o fato de ele tocar ao mesmo tempo castanholas e vestir um fraque para tocar Beethoven, os retakes de certas cenas ( conforme diz João pela voz do semi-irmão Fernando que é o narrador do filme, segundo o método do desnudamento do processo que Herzog  lhe ensinou) que Santiago re-executa docilmente, enriquecendo-as com cacos hilários. Encantamento por suas prodigiosas memórias de um mundo que ele mesmo construiu : a viagem de 1925 a “Gênoa” ( a linguagem oral e gestual de Santiago é um filme à parte) e o encontro com as grandes divas do Scala;  sua  admiração pela dama de companhia de uma marquesa, em Turim, que o iniciou em sua profissão de  valet-de-chambre da “ aristocracia” (aristocracia essa que ele estudou desde os primórdios da História, nas 20.000 páginas  por ele datilografadas às quais dedicou seu tempo de lazer e que todo dia leva a tomar ar no balcão do apto); os dez anos dourados da Buenos Aires do teatro Colón, onde ele serviu como mordomo junto a  uma família tão rica que a senhora deslizava toda noite pelo salão com uma roupa de cauda, de veludo; os vinte anos que ele serviu na Casa da Gávea onde a senhora ( mãe de três dos quatro irmãos Moreira Salles) gabava-lhe os arranjos florais diários que tinham nomes de peças musicais e – ponto alto - onde o senhor lembrou de seu aniversário, num brinde especial no final de um jantar de cerimônia.

São tantos os esquetes tomados no minúsculo apartamento em enquadramentos de miniatura japonesa ( outra influência, segundo João), mas , na verdade, gostaríamos que continuassem  indefinidamente com essa carga de autenticidade, de humanidade, de nonsense e, finalmente, de algo que  por aqui anda nos fazendo uma tremenda falta: civilização.

 

 

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