Deram-me a incumbência de entrevistar famílias que tiveram essa figura estranha: o preceptor.
Sei de casos famosos. Na Rússia, a preceptora dos filhos de Tiútchev, poeta e diplomata, definhou e morreu, de amores. Para ela Tiútchev compôs Silentium!( 1830), com a famosa frase: o pensamento expresso é mentira.
Trinta anos antes, invertendo os papéis, era o poeta-preceptor-Hofmeister Friedrich Hölderlin – apaixonado pela nobre mãe do educando, Diotima que haveria de morrer em breve – o morto-vivo que escrevia e enloquecia ( a segunda metade da vida, passou-a louco):
Hälfte des Lebens
Mit gelben Birnen hänget
Und voll mit wilden Rosen
Das Land in den See,
Ihr holden Schwäne,
Und trunken von Küssen
Tunkt ihr das Haupt
Ins heilignüchterne Wasser.
Weh mir, wo nehm ich, wenn
Es Winter ist, die Blumen, und wo
Den Sonnenschein,
Und Schatten der Erde?
Die Mauern stehn
Sprachlos und kalt, im Winde
Klirren die Fahnen.
Metade da Vida
Com Peras de ouro pende
E cheia de bravas Rosas
A Terra, no Lago,
Vós, queridos Cisnes,
E ébrios de Beijos
Mergulhai a cabeça
Na santacasta Água.
Ai de mim, onde eu pego, quando
É Inverno, as Flores, e onde
O Brilhodosol,
E Sombra da Terra?
Erguem-se os Muros
Frias e mudas, ao Vento
Retinem as Bandeiras.
Varejada por tamanha herança, vou eu à procura de casas ilustres. Entro pela via superada, ainda de bondes e de uma única mão. Até os nomes das ruas são estropiados. Meios escritos no original, enquanto os canários cantam.
Depois de voltas e desbandas, entrevejo a casa.
Abandonada no alto da colina,
num arvoredo e carros em volta, estacionados.
São dos netos.
Deles não cuido, vou direto à avó.
- Senhora – digo -- soube que outrora aqui serviu de preceptor-músico
certo Antonino Cincotta, estarei certa?
A avó estremece.
Os netos deixam-me só, à ponta da mesa.
A avó está sentada na poltrona e mal consegue mover dedos da mão.
Seus lábios esboçam sons, que não se emitem.
Sim, ela quer dizer, Sim. Olhos retinem.
Parcos laivos.
Tarde, cheguei.