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Florianópolis, 18 de Julho de 2006

O GATO E O JUIZ
Por: Vera Albers

Há tempo aposentado, o juiz só tinha o gato que lhe sobrara da finada mulher.

Saía de manhã para comprar o leite e o gato ia com ele, na coleira, tão bem calculado, melhor que cachorro.

De tarde ia até o fórum, coisa de velho rábula, ler o diário oficial e a revista das revistas.

Na volta parava no clube e dava duzentas braçadas.

À noite lia, quase não via TV e quando ia dormir o gato vinha e dormia na sua almofada, sua cabeça encostada na cabeça do velho amigo.

Uma tarde, tudo isso acabou. Devido a um curto circuito o apto pegou fogo e o gato fugiu.

Tudo foi inútil. O velho juiz chegou a pôr anúncio no jornal, mas ninguém respondeu.

O seguro pagou, ele mudou de apto, tentou retomar sua rotina, mas não adiantava. A memória do gato surgia-lhe a todo instante e a vida ia perdendo rapidamente seu último encanto.

- Porque não experimenta a Internet? – sugeriu-lhe um colega . E contou-lhe de um terceiro, conhecido dos dois, que tinha conseguido, graças a uma maravilhosa rede, conectar-se com uma dona cheia de predicados. Era o que mais havia, na Internet.


A custo o juiz estudou os procedimentos e com a mão já trêmula , todas as noites, navegava entre Hi! Hullo! Oba!Êpa! até que seu faro experiente o fez parar na cartinha singela da Rosie. Não havia dúvida, o derradeiro amor estava no horizonte.

E como as coisas boas nunca vêm sozinhas, recebeu numa daquelas manhãs o telefonema de um arquiteto e de um veterinário juntos: dando as vacinas ao gato que o arquiteto X achara no jardim de sua casa, sita à rua tal , número tal, haviam encontrado um chip na orelha esquerda do felino com o telefone do antigo proprietário. Caso quisesse, o gato estava à sua disposição.

Numa tarde de sol, lá se foi o juiz visitar seu gato. Visitar , pensou o juiz, pois ele pode ter-se apegado às filhas do arquiteto, ou à gata dele, quem sabe,ou ao jardim, enfim. Iria ver isso, pessoalmente. Mal entrado na mansão, o gato foi chegando, de rabo em riste, sempre sem se apressar. O juiz escolheu para sentar-se um banco do jardim e o gato pulou no seu colo. Com aquela sua mão já dura o juiz o acariciava e com o rabo de seus olhos velhos já havia entrevisto a gata branca do nariz rosado e as meninas loiras da fita amarela.

- E então, Sedoso, seu malandro? A conversa foi longa. O velho magistrado expôs-lhe tudo. Desde o incêndio no apto, que não fora culpa dele, até a falta que sentia do amigo, dos passeios, das fantasias, de sua nova esperança, da pequena Rosie.

- E agora, Sedoso, o que faremos?

O gato ouviu tudo, abriu a profunda caverna cor de rosa cheia de dentinhos, apertou os olhinhos até sumirem nas duas fendas marrons e dirigiu-se com seus passos pausados até a pedra quente onde costumava dormir.

 

 

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