Lembro-me que quando menina, na terra de minha avó existia um hábito deveras
interessante para nós crianças: qualquer convidado, ao almoço ou ao jantar, chegava com um livro elegantemente embrulhado debaixo do braço. Os editores já o sabiam e, para incentivarem o hábito publicavam contos de todas as partes do mundo, com ilustrações coloridas que faziam parte do nosso imaginário maravilhoso. Pois bem, de uma delas ainda lembro com uma pungente tristeza. Era a ilustração de um homem de longas barbas e pernas poderosas que andava na praia, carregando um cofrinho
com todo o cuidado, enquanto o mar atrás dele urrava e se revolvia. Fiquei depois sabendo que o homem era um pescador muito famoso no Japão que tinha salvado uma tartaruga mágica; seu nome era Urashima tarô.
A história, comum a muitos países, era inexorável. Ele havia conseguido da princesa do mar ( a tartaruga), com a qual se casara, a eterna juventude. Quando, passados muitos anos, ele não mais resistiu à saudade de sua terra, e pediu à princesa que lhe ensinasse o caminho. -- Quando quiseres voltar, bate três vezes as mãos diante desse furinho, dissera-lhe a princesa entregando-lhe o escrínio, mas não o abra nunca, por nenhuma razão. Promete-me. Nas vicissitudes da terra, onde já haviam passado centenas de anos,Urashima tarô esqueceu da promessa e um dia, sem querer ou por curiosidade, abriu o cofrinho. Uma leve fumaça esvaiu-se da caixa e ele de repente sentiu seu corpo secar como o invólucro de uma borboleta.
A sensação de si que ele deve ter tido – imagino eu -- é a mesma que se tem diante de certos sonhos abruptamente desfeitos. Eles jazem feito pequenas múmias, uma ao lado da outra , enfaixadas em sua imemória e quando você tenta desfazê-las e descobrir o que tem nelas, sai uma poeira preta, fina , inconsistindo em nada, como um presente etéreo que se perdeu.