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Florianópolis, 13 de Setembro de 2007

ATRAVÉS DO MAPA BRANCO (ANOTAÇÕES DE LEITURAS)
Por: Victor da Rosa*

Em uma conversa sobre Maurice Blanchot e sobre os desastres – de-astro: de algum lugar exterior e desconhecido – Sérgio Medeiros disse: “Quero fazer uma viagem cujo mapa é branco”. Não lembro onde nem quando. Ou talvez Sérgio nem tenha dito isto, de fato. Só depois fui saber que Sérgio citava um trecho de Alice, de Lewis Carroll. E nem fui checar para saber se era verdade mesmo. Não lembro onde nem quando. De qualquer modo, agora, só consigo imaginar os poemas de Sérgio dessa maneira, através deste desejo: uma viagem pela superfície deste mapa branco – onde tudo é vazio e desconhecido, onde tudo é esquecimento, e onde cada verso traz um lirismo cortante e luminoso (feito uma faca de luz).

* * *

Nas primeiras partes do livro – as várias versões do alongamento: antes, depois, etc. – Sérgio constrói fragmentos de uma geografia non-sense. A paisagem, uma de suas maiores obsessões, além de parecer que está sempre viva – o movimento das ilhas, a ação das águas e o desejo das luzes – permanece sempre em estado de alucinação, como nestas palavras que abrem o livro: “a costa: edredom embolado”. Tudo parece deserto: feito paisagens depois de um desastre.

* * *

Alongamento é literatura de linguagem contaminada. Seu teatro, por exemplo: é sem enredo – “Gostavas da vida espedaçada, a que rompe de seu insuportável enredo”, é a epígrafe do livro, segundo Eugenio Montale. Seu cinema, então, é feito somente de uma imagem que se constrói ausente: que nasce da imaginação. A música, por sua vez, aparece do som da página e das palavras que se chocam uma na outra, feito ruído de música contemporânea. Depois, existe um balé, um diálogo inapreensível entre a voz e o eco e, ainda, outro diálogo absurdo e anacrônico entre Sócrates e uma mulher.

* * *

A literatura de Sérgio Medeiros me faz pensar sobre a luz.

(texto abandonado em 1 de maio de 2007)


Na capa do livro existe um desenho do próprio Sérgio, feito no escuro. Representa uma figura que desliza e cai, desconhece algo e escorrega e tropeça, portanto – fracassa. Ou que se arrisca e salta no vazio. Juntando os fragmentos, todas as palavras espalhadas (os cacos, as folhas) destruídas, alguns sentidos (provisórios) se formam – de que desastres nós somos capazes?

* * *

Alongamento diz uma meteorologia sem controle. Da constelação, da tempestade, da luz que cega a escuridão e do vento que destrói e arrasta – “o vento sul / se contorce / como mangueira / jorrando certo / e inesperado”. A natureza, de todos os seus desejos, permanece em desordem. A escrita é afetada, então, pela disseminação desta desordem – palavras aparecem fora do lugar, esvaziadas de seu fim; acentos e parênteses aparecem como pequenas figurações. A escrita de Sérgio se comporta como se não fosse mais escrita. Escrever, então, passa a se constituir enquanto movimento de forças, impulsões. Escrever, enfim, passa a se constituir como um apagamento do próprio rosto.

* * *

Das paisagens, nenhuma existe. Das cidades por onde Sérgio passa, de suas viagens, de suas visões, somente escreve o que não vê – fico com a impressão de que fecha os olhos para enxergar melhor.

Nota 1: Em um e-mail, o próprio Sérgio comenta: “(...) o brilho cega, fecham-se os olhos. Era isso que inquietava Levinas – a arte perde o outro, sempre.”


* * *

A verdade é que nunca consegui ler Alongamento até a última palavra. Sempre leio pouco, muito pouco, e sempre parto de um lugar diferente – sempre abandono em um lugar diferente. Leio uma página, duas e desisto. É como se, da experiência fragmentada de ler seu texto, Sérgio sugerisse, com alguma ironia: “fragmente ainda mais, leia somente pela metade, abandone o livro aqui e não termine nunca”. É feito dormir no cinema e sonhar. Fico com a sensação de não chegar a lugar nenhum, de girar e cair (como na imagem da capa) – com a sensação de que me perco pela superfície deslizante de um mapa de palavras. Feito o mapa branco de Alice. Então abandono e esqueço, sempre.

* * *

Existe também um diálogo entre luz e sombra, mas este não aparece nomeado.

* * *

Na parte “Kindergarten – um município no interior do Brasil” (procurei todos os municípios do interior do Brasil no mapa que tenho em casa, mas não achei nenhum com este nome) existe um garoto abandonado e umas mulheres no meio das luzes, dos galhos secos e de um rio imóvel.

Nota 2: Kindergarten, em alemão, significa jardim de infância.

(texto abandonado em 6 de maio de 2007)


Imagino Alongamento como uma linha que se estica no infinito: e se tensiona, alcança o seu limite, quase se desprende – ou se desprende? Como uma viagem que não termina nunca porque todo fim é falso e todo começo encantador. Como um a-l-o-n-g-a-m-e-n-t-o – como um traço: um risco.

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É quando tudo acontece na superfície das coisas.

(texto abandonado em 8 de maio de 2007)


* Ensaísta e autor das narrativas de piano e flauta – fragmentos de um romance (Lumme, 2007). Outros de seus textos podem ser lidos em www.literaturamenor.blogger.com.br

 

 

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