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Florianópolis, 08 de Outubro de 2007

O GUESA, EMIL E SWEDENBORG NO INFERNO DE SOUSÂNDRADE
Por: Carlos Torres-Marchal*

. . . Pára o Guesa perlustrando.
Bebe á taberna ás sombras da muralha,
Malsolida talvez, de Jerichó,
Defeza contra o Indio—E s’escangalha
De Wall-Street ao ruir toda New-York :

      *                     *                     *
     
O Guesa, tendo atravessado as Antilhas, crê-se livre dos Xèques e penetra em
New-York-Stock-Exchange ;  a voz dos desertos :

—Orpheu, Dante, Æneas, ao inferno
Desceram  ; o Inca ha de subir . . .
—Ogni sp’ranza laciate,
  Se entrate . . .
—Swedenborg, ha mundo porvir ?
. . . .
do Canto VIII de Guesa Errante (1877) 


O fragmento mais famoso do corpus sousandradino é, sem dúvida, aquele batizado de Inferno de Wall Street pelos irmãos Campos na sua Revisão de Sousândrade (1964).   O nome leva a acreditar que o tema principal é uma crítica ao sistema financeiro dos Estados Unidos e, especificamente, à Bolsa de Valores de Nova Iorque.    Os parcos estudos dedicados ao trecho sequer questionam a validade desta hipótese, que, à força de ser repetida, transformou-se em truísmo.

A leitura da epígrafe que inclui a primeira estrofe do Inferno de Sousândrade indica claramente que o sistema financeiro não é o único assunto abordado pelo autor.   Uma leitura completa do trecho mostra que referências à Bolsa de Valores concentram-se nas cinco primeiras estrofes (de um total de 176 na edição definitiva).   Outros assuntos e personagens têm maior destaque: o índio americano, o papel da mulher na sociedade, a corrupção no meio político, o alcoolismo, o amor livre, o espiritismo, o imperador D. Pedro II, a tecnologia, etc.   Até a referência à Wall Street nos remete a outra realidade, como indica o próprio Sousândrade na estrofe antes do início do trecho em questão,  também reproduzida na epígrafe.   Wall Street significa Rua da Muralha, em inglês, local onde ficava a estacada construída pelos colonos holandeses da Nova Amsterdã como proteção contra ataques dos índios.   É muito sugestiva a referência à bíblica muralha de Jericó (malsólida talvez, no comentário faceto de Sousândrade), que ruiu ao som das trombetas e ao do clamor do povo de Israel: ... caíram de repente os muros: e cada um subiu pelo lugar, que lhe ficava defronte... (Jos. 6:20).   O guesa-inca, personificação do índio americano, também sobe, triunfante, pelas ruínas da muralha de Nova Iorque para entrar na Bolsa de Valores de Nova Iorque.    Lembramos que o prédio da Bolsa ficava, não em Wall Street, mas em Broad Street, alguns metros à frente.   Na última estrofe do trecho na edição nova-iorquina de 1877, a figura do índio e o fragor de Jericó são novamente lembrados, agora como pano de fundo aos holandeses, que compram a ilha de Manhattan dos índios Canarsie por 60 guilders.   A ironia do quadro fica por conta do fato que estes índios sequer moravam na ilha e venderam um lugar que só freqüentavam para caçadas e trocas com outras tribos.

Emil Schwerdtfeger

Presented to Emil Schwerdtfeger by
The Author
March 25th 1872.

Assim reza a singela dedicatória do autor na única cópia que conhecemos das Harpas Eólias de Sousândrade.   O exemplar foi localizado por Luiza Lobo na biblioteca da Universidade Cornell dos Estados Unidos na década de 1970.   O nome Emil faz lembrar o Emílio mencionado no Canto VIII de Guesa Errante (Nova Iorque, 1877 – Canto X da edição londrina, 1885[?]) e também o Emil citado em Harpa de Ouro.   Os trechos correspondentes encontram-se no quadro abaixo.

 

Emílio

Guesa Errante (Canto VIII)
(Nova Iorque, 1877)

Quando ao suicidio-louco arma-se o homem
contra seu proprio coração e o parte,
Vencedores os erros, que consomem,
Mais não poderam contra o interno Marte.

— Meu pobre Emilio (eu estou vendo a imagem
Como uma flor)!   Ainda a um anno, quanto
Sonhar de gloria !   E toda a aurea miragem
Desfez-se, e um tumulo . . .  eis o desincanto !

Das musas do futuro o tão querido
Joven discipulo — oh !  quão doloroso
Que é este testamento do suicido,
Que não se entenderá !   Drama doloso !

Precisa-se abençoar alguem no mundo,
O coração sem bençam não resiste —
Um ninho onde haja um cantico jucundo,
Um amigo, uma mãe.   Mas ai do triste

Que abençoar não poder !   Não é bastante
E sciencia, e pão, e toda a natureza,
Nem do infinito este anhelar constante :
De terra-amor e internos céus-pureza,

O homem carece, ao crer, quando lhe estua
Fogo sagrado, que, se se acabaram
Mundos, em Deus s" eleva a fronte sua
E os elementos ahi não se arruinaram !

Fascinação de Chatterton !—as rosas
Como, ao vulcão, desfolham-se da esp’rança !
Como de um genio ás chammas luminosas
O cerebro dos fracos s’embalança !

Hecatombe infeliz de anjos brilhantes,
Corações matutinos, que á luz pura
Sacrificam-se ao que houve tenebrantes
Céus e sorte — e luctara até loucura,

Quando a razão cedeu ! — Emtanto, á falta
De patria gratidão e o lar materno,
Tambem espurios morrem.   E se exalta
Da Industria mais quem perde mais do Eterno.

 

Emíl

Harpa de Ouro
(edição póstuma)


Ouço . . .   até o irmão teu suicida
Jovem gênio s’ergue por ti :
D’Emil lendo os cantos de vida,
Qual dele longo eco te ouvi :
Oh !   da pátria, musa querida —
Lookinglass ? . . .   Vinganças de mim.

E condutor do cego Omhero [*]
Foi o discípulo amigo meu :
Mais o choro e mais desespero
Do quanto áurea Amarca perdeu :
E todos partimos, antero — [**]
Ora és tu, o condutor meu.


[*] Omhero [sic]: Originalmente Homero.   Grafia corrigida por Sousândrade no manuscrito original.

[**]  antero: retribuo o amor; amo reciprocamente.   Em grego no manuscrito. [Williams, F. G.; Moraes J., Poesia e prosa reunidas de Sousândrade.  São Luís, AML 2003. p. 362]
 

Destes textos, coligimos ser Emil / Emílio um jovem poeta, estudioso de Homero, órfão de mãe, que cometeu suicídio poucos meses antes da publicação de Guesa Errante (1877).   Seriam a mesma pessoa Emil / Emílio de Guesa Errante e Harpa de Ouro e Emil Schwerdtfeger, a quem foi oferecido o exemplar das Harpas Eólias?    A primeira confirmação foi achada em páginas de acesso gratuito na internet, particularmente em catálogos de bibliotecas, livros digitalizados, índices e reportagens de jornais do S. XIX, etc.

Emil Schwerdtfeger foi estudante da Universidade Cornell, autor do livro: A Dissertation on the History and Development of the English Verb (Nova Iorque, Holt, 1874).   Suicidou-se em 1877, aos 19 anos.   Poucos meses antes de morrer ganhou um concurso inter-universitário de latim e publicou um ensaio sobre Dante na revista literária de universidade.   Andrew Dickson White, primeiro presidente de Cornell (1866–1885), escreveu que dois gênios passaram pela universidade durante sua presidência: Emil Schwerdtfeger foi um deles.

Confirma-se a figura de um excepcional e precoce lingüista, estudioso das literaturas clássicas, admirador do Dante, e que tirou a própria vida muito jovem.   Estas coincidências levantam a possibilidade que sua morte tenha inspirado a primeira estrofe do Inferno em Guesa Errante (1877), reproduzida na epígrafe deste artigo, que pode ser interpretada como uma reflexão sobre a vida após a morte como vista na Antigüidade clássica e por Dante, com quem Emil estava muito familiarizado.   Só a aparição de Swedenborg, místico sueco do S. XVIII, parece destoar desta visão.

A pesquisa foi então aprofundada em serviços por assinatura na internet e consulta a fontes primárias.   Uma reportagem do New York Times, que reproduz matéria do Journal de Ithaca, cidade onde fica a Universidade Cornell, traz o seguinte cabeçalho: Suicídio em Cornell – um jovem estudante de futuro promissor põe fim à própria vida com uma pistola – sua última carta.  
 
No texto completo lemos sobre o suicídio, na cidade de Ítaca, de Emil Schwerdtfeger, aluno do último ano da universidade Cornell, na noite de quatro de março de 1877.   O artigo registra que o estudante era protegido de J[osé] C[arlos] Rodrigues, proprietário de O Novo Mundo, (jornal de Nova Iorque do qual era colaborador Sousândrade).   Foi Rodrigues quem reconheceu as excepcionais habilidades de Schwerdtfeger e custeou seus estudos em Cornell, onde o pobre e desconhecido jovem de Jersey City transformou-se em aluno estrela.   De especial interesse na reportagem é a transcrição da carta-testamento: nela Emil lega seus livros em línguas neo-latinas a “Joaquim de Souza Andrade de Nova Iorque”, assim como a sua edição da Ilíada de Homero editada por [Cornelius Conway] Felton:

Outros livros em latim e grego ele legou à biblioteca da universidade.   Seus livros em alemão deixou para seu pai; aqueles em inglês, para seu irmão.   Ele atribui a sua trágica decisão a uma “doença persistente” para a qual acreditava não existir cura.   A reportagem indica que “o único lar” que Emil conheceu em vida foi o do Professor Morris, com quem morava ao falecer, deixando entender  que Emil ficara órfão de mãe ainda criança.  A reportagem lembra o livro The English Verb, publicado quando Emil era calouro em Cornell e o primeiro prêmio no concurso inter-universitário de latim em janeiro de 1877.    A matéria conclui afirmando que os professores da Universidade Cornell o consideravam o estudante mais brilhante já produzido pela universidade.

O prefácio do livro The English Verb registra que a publicação foi financiada pelo Dr. J. C. Rodrigues, de O Novo Mundo.    Na lista de referências consultadas há sete livros em alemão e três em dinamarquês, reforçando a suposição que o autor fosse nascido na Alemanha ou, pelo menos, de ascendência alemã.   Um artigo jornalístico comentando o suicídio parece confirmar esta hipótese.

Algumas contribuições literárias de Emil Schwerdtfeger foram acolhidas por revistas estudantis da Universidade Cornell: The Cornell Era publicou uma tradução sua de um poema de Schiller, em dois de março de 1877, dois dias antes do suicídio.   The Cornell Review, revista literária da universidade, na edição de março do mesmo ano, contém uma tradução do episódio do Conde Ugolino, do Inferno de Dante.   Um mês antes, a revista tinha publicado um ensaio de Schwerdtfeger sobre o Dante, que o autor conclui afirmando que só na Divina Comédia encontramos o verdadeiro Dante e só em italiano podemos capturar seu verdadeiro espírito:

 

O Inferno de Sousândrade – primeira estrofe

A primeira estrofe do Inferno de Sousândrade, reproduzida na epígrafe:

—Orpheu, Dante, Æneas, ao inferno
Desceram  ; o Inca ha de subir . . .
 —Ogni sp’ranza laciate,
  Se entrate . . .
—Swedenborg, ha mundo porvir ?

em nada lembra a Bolsa de Valores: trata-se de uma sombria reflexão sobre a vida após a morte.   Conclui com uma pergunta angustiada, feita ao místico Swedenborg, sobre o mundo após a morte.   Nada aqui que possamos ligar ao mundo financeiro.   Como o trecho inicia com o guesa entrando no New York Stock Exchange, procuremos achar um elo entre estes dois cenários: a bolsa e o mundo após a morte.

É geralmente aceito que a comparação da Bolsa de Valores de Nova Iorque (New York Stock Exchange) com o Inferno de Dante é um achado sousandradino.   Muito provavelmente esta identificação foi tirada do livro Men and Mysteries of Wall Street, de James K Medberry (Nova Iorque, 1877).   O autor descreve a escadaria (o inca há de subir?) na entrada do prédio da bolsa, o salão de sessões (Long Room), arranjado como um anfiteatro de círculos concêntricos descendentes, e um curioso comentário sobre o aparente caos e estrondo durante as sessões: Se Dante contemplasse esta loucura acrescentaria mais um livro ao Inferno.  É interessante notar que Medberry não faz um juízo moral: o inferno da bolsa é visto como lugar de desordem e de confusão, a comparação com o inferno de Dante ficando por conta da disposição física.

O elo entre as personagens do primeiro verso:

—Orpheu, Dante, Æneas, ao inferno / Desceram ; . . .

é o poeta latino Virgílio, que serviu de guia a Dante no Inferno da Divina Comédia, e descreveu as visitas de Orfeu e Enéias ao mundo dos mortos, no quarto livro das Geórgicas e no sexto canto da Eneida, respectivamente.   Lembremos ainda que Virgílio e Dante eram autores prediletos de Emil Schwerdtfeger, latinista e tradutor do Inferno de Dante.

Orfeu é o primeiro visitante do inferno.   É também o único dos três a aventurar-se no mundo das trevas confiando somente na proteção de sua lira, visão sem duvida cara a Sousândrade.  Os outros personagens contaram com o auxílio de um guia: Enéias foi acompanhado pela Sibila de Cumas e Dante, por Virgílio.   Em Harpa de Ouro, como vimos acima, Sousândrade escreve, referindo-se a Emil Schwerdtfeger e aparentemente invocando sua guia:

E todos partimos . . . Ora és tu, o condutor meu.

Na última estrofe do Inferno na edição londrina de O Guesa aparece um misterioso “odisseu fantasma”.   Seria este moderno homônimo do rei de Ítaca o espírito de Emil Schwerdtfeger, condutor do cego Omhero, (nas palavras de Sousândrade em Harpa de Ouro) falecido na cidade de Ítaca, no estado de Nova Iorque em março de 1877, poucos meses antes da publicação de Guesa Errante?

Orfeu é também o único dos três visitantes que apresenta uma visão do inferno como morada das almas, moralmente neutra, não por isso menos aterradora.   Na Eneida encontramos um inferno com recompensas e castigos, (Elíseo, Tártaro) com seções para suicidas, mortos em combate, etc., onde, tendo expiado os seus pecados, as almas reencarnariam após mil anos.   Finalmente Dante representa a concepção cristã de um lugar destinado ao suplício dos condenados às penas eternas.   O inferno, nos três casos, ficava abaixo da superfície da terra: Orfeu desceu por uma gruta situada ao lado do promontório do Tenaro; Enéias, pelas gargantas do Averno; o inferno de Dante ficava abaixo de Jerusalém.  

. . . o Inca ha de subir . . .

Duas justificativas para a subida do inca ao inferno já foram aqui delineadas: o inca subiu pelas ruínas da muralha localizada em Wall Street, que separava o índio do local da bolsa, onde se inicia a ação, ou, chegando lá, subiu triunfante pela grande escadaria de acesso.  

 —Ogni sp’ranza laciate,
  Se entrate . . .

A advertência que Dante coloca na porta do inferno: Abandonai toda a esperança, ó vós que entrais, reforça a irreversibilidade da morte.   A grafia original é:

Lasciate ogni speranza voi ch’entrate

O fato de ter sido grafada (com erros) em italiano por Sousândrade pode ser entendida como homenagem ao amigo Emil Schwerdtfeger, quem escreveu, pouco antes de morrer, que só na Divina Comédia encontramos o verdadeiro Dante e é só em italiano que podemos capturar seu verdadeiro espírito.  

Forçando as coincidências podemos estabelecer uma curiosa seqüência de erros nas primeiras estrofes do Inferno de Sousândrade, não corrigidos nas folhas de errata:


Original          Corrigido    Diferença       Ed.

Laciate           Lasciate           S           1877
se entrate    che entrate        CH          1877
Steuart            Stewart           W          1885?

 

Swedenborg

No último verso da primeira estrofe do Inferno de Sousândrade:

—Swedenborg, ha mundo porvir ?

chama a atenção a referência a Emanuel Swedenborg (1688 – 1772), místico sueco, cujas doutrinas influenciaram escritores e pensadores como Thoreau, Poe, Balzac, Coleridge e Emerson.   Este último dedicou um ensaio a Swedenborg em Personalidades Representativas.   Swedenborg postulou uma continuidade de vida após a morte, e foi o primeiro a identificar os espíritos com as almas de homens e mulheres mortos, um dos princípios do espiritualismo.   Lembramos ainda que o mundo dos espíritos é outro tema recorrente no Inferno de Sousândrade.

Na pergunta feita por Sousândrade (a voz dos desertos) a Swedenborg: há mundo porvir, a expressão mundo porvir é tradução do inglês future world.   Esta frase liga Emil Schwerdtfeger a Swedenborg.

Em 1877, na rua 35 de Manhattan, entre as avenidas Park e Lexington, ficava a igreja swedenborgiana da Nova Jerusalém.   É possível que Sousândrade freqüentasse esta igreja, já que menciona um de seus ministros (talvez Chauncey Giles) no parágrafo mais famoso da Memorabília de Guesa Errante (Nova Iorque, 1877):

Ouvi dizer já por duas vezes, que ‘o Guesa Errante será lido cincoenta annos depois’; entristeci— decepção de quem escreve cincoenta annos antes.  Porém se — Life, not form; work, not ritual, was what the Lord demanded—diz um swedenborgiano prégador, falando da Religião : não poderiamos dizer o mesmo da Poesia ?

No dia da morte de Emil Schwerdtfeger (quatro de março de 1877), assim como no domingo anterior, o tema do sermão na igreja da Nova Jerusalém em Manhattan, foi a visão swedenborgiana do mundo porvir.   O cabeçalho da matéria sobre o sermão no New York Times foi:

THE  FUTURE  WORLD.
ITS  EXISTENCE  AND  NATURE — THE  SWEDEN-
BORGIAN  FAITH  FURTHER  EXPLAINED
BY  REV.  CHAUNCEY  GILES.

 

*O autor é o maior especialista em Sousândrade da atualidade. Peruano de nascimento, reside e trabalha na Bahia há muitos anos.

 

 

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