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Florianópolis, 17 de Novembro de 2007

OS “ANIMAIS DE AUTOBIOGRAFIA” DO VISCONDE DE TAUNAY
Por: Sérgio Medeiros*

Neste ensaio sobre o Visconde de Taunay, que foi escritor e etnógrafo, além de militar e político, gostaria de enfatizar que o que hoje me atrai nos seus textos é constatar neles a representação e ao mesmo tempo a diluição de fronteiras geográficas (Brasil/Paraguai), étnicas (neo-brasileiro/indígena) e ontológicas (humano/não-humano), entre outras. 

Ao considerar essa última fronteira, a ontológica, gostaria de citar desde já pelo menos dois “animais de autobiografia” (aproprio-me aqui de uma locução usada por Derrida noutro contexto), animais subjetivos, o burro e a larva, a partir dos quais esse escritor brasileiro elaborou: 1) com a ajuda do burro, o fio narrativo que o levou de São Paulo até à fronteira com o Paraguai, em meados do século XIX, e 2) com o auxílio da larva, o exemplo daquilo que poderia ser o agir do soldado num campo de batalha, no contexto de uma guerra já declarada.

Afirmei em outras ocasiões que considero as Memórias do Visconde de Taunay um texto que alia caracteristicamente descrição a devaneio, testemunho a fantasia, e visa falar, principalmente, de uma guerra, ou melhor, de uma grande guerra. Na reedição das Memórias que preparei para a editora Iluminuras em 2005, escrevi que essa obra póstuma do escritor do século XIX, lançada originalmente em 1948, quase meio século após sua morte, portanto, fala de maneira destacada da Guerra do Paraguai (1864-1870), de seus preparativos, seu desenrolar e suas conseqüências na vida de quem a redigiu.

Taunay fala com orgulho, nas páginas das Memórias, da sua formação e conta como recebera na Corte esmerada educação, o que o distinguiria dos demais parceiros de armas. Fato relevante a se considerar, aqui, é a educação artística que recebera do pai, Félix Emílio Taunay, diretor da “Academia das Belas Artes”. Essa educação teria feito dele um militar sui generis, que se extasiava diante “dos esplendores da natureza brasileira”. Assim, nas Memórias, o escritor declara que, em suas andanças pelo país, nunca dirigiu os olhos para a paisagem brasileira com o desinteresse ou a frieza de um soldado em serviço, mas sim com a alma do artista e a curiosidade do cientista, para usar aqui expressões que lhe eram caras e que aparecem em sua autobiografia. Aliás, logo no início das Memórias, o escritor lamenta a devastação das belezas naturais do Rio de Janeiro e elogia o pai por haver lutado pela preservação das matas dos arredores da cidade.

Antes do primeiro enfrentamento real com o inimigo, o que só sucedeu quando a coluna brasileira já se encontrava em território paraguaio, a figura do soldado era uma realidade vaga para o jovem engenheiro militar Taunay (“muito bisonhos e matutos”, opina a respeito de um contingente recém-chegado do Norte), e, para complicar as coisas, sequer o primeiro comandante da coluna, incumbida de invadir o Paraguai pelo norte, parecia preparado para esse cargo, como o autor opina abertamente, depois de traçar desse militar um retrato dessacralizador, apresentando-o como costureiro amador que se comprazia em cortar vestidos para senhoras da sociedade, na cidade de Campinas, São Paulo. A coluna teve dois outros comandantes, um deles muito velho e que morreria em seguida, de causa natural, e um outro, atormentado pela acusação de que havia uma vez fugido do inimigo, ao abandonar um forte brasileiro aos soldados paraguaios.

Quando o jovem Taunay, depois de viajar milhares de quilômetros em lombo de burro pelos sertões desconhecidos, finalmente se aproximou da fronteira com o Paraguai, ele ainda não dispunha de um símbolo do guerreiro, de um ideal do soldado na batalha. Seus comandantes eram figuras contraditórias ou folclóricas. Mas logo ele encontra o símbolo, aparentemente, na observação da natureza – uma larva, chamada formiga-leão. Creio ser pertinente lembrar aqui uma passagem da obra poética de Francis Ponge, autor de um importante bestiário de guerra, que elegeu a vespa, que morre ao deixar seu ferrão na sua vítima, a qual poderá morrer ou não, como uma imagem para a guerra sem recompensas. No caso de Taunay, a guerra tem suas recompensas. As ações dessa larva, a formiga-leão, que se desenvolverá depois numa libélula, são minuciosamente descritas nas páginas das Memórias: somos informados que ele cava na areia fofa, para apanhar suas vítimas, um funilzinho de beiradas lisas, com muita “arte e jeito”, como o escritor enfatiza:

“A máquina está montada; só faltam as vítimas!

 “Venham, então, formigas e outros insetozinhos caminhando despreocupados e alheios ao perigo que os espreita, e impreterivelmente se despenham pelos inopinados e pérfidos declives, sendo incontinente apreendidos com verdadeira ferocidade, e trucidados sem demora pelo astuto vencedor, que lhes suga a linfa vital.

“Terminado o triunfal festim, o formica leo, segurando o mísero cadáver com as mandíbulas, o sacode fora, ou, quando pesado demais, o arrasta para longe, subindo e descendo a recuanços e procedendo sem detença à reparação dos estragos produzidos pelas peripécias da queda e da luta.”

Se o animal é “pobre de mundo” e a pedra, por ser insensível, sem mundo, enquanto o homem, por ser racional, é formador de mundo, como afirmou Heidegger em seu seminário de 1929-1930, sob o título Os Conceitos Fundamentais da Metafísica – Mundo. Finitude. Solidão, então a formiga-leão, larva esbranquiçada, muito parecida com o cupim, segundo Taunay, pesadona de corpo e com um abdômen grosso e estufado, surge nas páginas das Memórias no mínimo como um oxímoro vivo, pois o escritor brasileiro aplica a esse inseto termos que contradizem sua condição de ser “pobre de mundo”. O oxímoro, segundo a lição de Phillipe Lacoue- Labarthe, é uma das imagens informes ou contraditórias de manifestação do sublime.

Será que já não estaríamos, neste caso específico, no universo das fábulas ou no mundo fantástico dos bestiários? Conforme lemos nas Memórias, a formiga-leão é metódica, tem arte e destreza, é ávida, possui boa pontaria, sobretudo constrói armadilhas engenhosas e bem-sucedidas, embora ela mesma seja quase incapaz de locomover-se. Sua arma de guerra, para repetir as palavras do escritor, possui feição científica e é construída com grande “rigorismo geométrico”. Em suma, a larva semi-paralisada poderia ser, aos olhos atentos e fascinados de Taunay, um dos paradigmas do engenheiro e do estrategista militar. Talvez o paradigma por excelência do soldado guerreiro. A formiga-leão lhe parece, quero crer, um soldado destemido e quase imbatível.

Na batalha dos insetos, a armadilha da formiga-leão talvez seja uma das mais bem-sucedidas, não apenas porque é sempre feita com sabedoria e rigor, mas também porque é desleal e destruidora, como Taunay enfatiza. Ao examinar detidamente as ações dessa larva, o jovem e inexperiente Taunay depara com cenas terríveis de morte e destruição, no âmbito da vida dos insetos. Nas suas palavras:

“Sem exageração posso afirmar que passei, acocorado ou sentado no chão, largos trechos do dia, acompanhando com viva atenção todas aquelas cenas de perfídia e morticínio, e esperando, com pachorra igual à do interessado, que alguma incauta criaturinha viesse figurar nesse incidente dramático, ainda que minúsculo, da natureza.”

Lendo essa passagem não podemos supor, naturalmente, que tenha havido algo de místico nessa observação prolongada e apaixonada do inseto. Ao contrário de um escritor moderno, como, por exemplo, Henri Michaux, autor de um texto famoso denominado “Magie”, Taunay jamais teria dito, ao contemplar uma fruta ou outro objeto qualquer: “Eu ponho uma maçã na mesa. Depois eu entro na maçã. Quanta tranqüilidade!”

Francis Ponge, contemporâneo de Michaux e igualmente dado à contemplação do mundo exterior, não visava o mergulho no outro, e por isso se parece mais com Taunay do que com Michaux. Em sua poesia que fala de pedras, plantas e insetos, essa imersão nos seres e nas coisas é evitada, numa tentativa de se chegar a uma visão mais objetiva do chamado mundo exterior, sem, porém, desconsiderar o fato óbvio que o exterior já é uma construção de palavras, já é um mundo subjetivo e moralizado, portanto. Numa conferência já clássica, “Tentativa oral”, Ponde descreve uma conversa que teve com George Bataille, e diz que este lhe indagou se, ao contemplar um inseto, “não tinha medo de ficar louco”. Ponge então respondeu que “tinha vários insetos em preparação, virados para a parede, como os pintores têm quadros que eles começam, depois encostam, depois desencostam etc..., e que bastava passar, no derradeiro instante, da vespa para a aranha por exemplo, para ter a certeza de não me perder.” Como comentou Marcel Spada, Bataille temia (ou desejava) que o sujeito encontrasse a loucura na fascinante contemplação do outro, mas, para Ponge, era a variedade das coisas e dos seres que assegurava nossa salvação. Em lugar de olhar um só inseto, poderia acrescentar, devemos olhar para vários deles, assim evitaremos a loucura, ou o Aleph borgiano. Parece-me que o Visconde de Taunay se alinha entre aqueles escritores que apostam na variedade do mundo, num tipo de “contemplação ativa” que afirma ao mesmo tempo o objeto e o sujeito. Num outro texto, “A prática da literatura”, Ponge afirmou: “Quando digo que temos de utilizar esse mundo das palavras para exprimir nossa sensibilidade ao mundo exterior, eu penso, não sei se estou errado, e  é por isso, eu acho, que não sou místico, que, bem, em todo caso, eu penso que esses dois mundos são estanques, quer dizer, sem passagem de um para o outro. Não podemos passar. Há o mundo dos objetos e o dos homens, que em sua maioria, eles também, são mudos.” E, mais à frente, repensando a fórmula de Michaux que já citei, Ponge afirmará: “Trata-se de fazer um texto que se pareça com uma maçã, quer dizer, que tenha tanta realidade quanto uma maçã, Mas no seu gênero. É um texto feito de palavras.”

Dito isso, retorno agora ao inseto feito de palavras do Visconde de Taunay, o seu animal de autobiografia. Algo de espantoso, na armadilha de guerra da formiga-leão, é, segundo Taunay, o destino dos cadáveres. Dentre todos os insetos descritos pelo escritor brasileiro, e talvez dentre todos os animais dos “fundos sertões”, é a formiga-leão, esse “astuto vencedor”, quem realiza aquilo que poderíamos denominar de o crime perfeito, o que não deixa traços. A obra da larva é “desleal e destruidora”, conforme lemos nas Memórias, porque sua aparência externa é enganadora, o que atesta toda a astúcia e o gênio militar da formiga-leão. Cito mais uma vez as palavras eloqüentes do Visconde de Taunay:

“Findo esse cone invertido e hiante, trata de alisar zelosamente as beiras, destruindo as mais ligeiras asperezas, e, com o entulho saído da abertura, forma vistoso e bem socado terrapleno, como que a convidar despreocupados e amenos passeios; agacha-se embaixo e, pacientemente, espera a presa, que o acaso puser à sua disposição.”

A certo momento dessa minuciosa descrição da guerra entre a formiga-leão e suas presas, Taunay solidariza-se com as vítimas do inseto. Parece ser moralmente errado, nas Memórias pelo menos, manifestar admiração inconteste pelas proezas do inseto. Assim, o escritor fará questão de afirmar:

“(...) jamais concorri para a obra desleal e destruidora dos formica leo, encaminhando, só pelo prazer do entretenimento, pobres bichinhos à perdição. Contemplava até um tanto emocionado os valentes esforços que faziam em tão dolorosas e terríveis contingências, e não raramente auxiliava inesperadas salvações.”

O inseto descrito por Taunay é um curioso bricolage de habilidades (benéficas e maléficas, dependendo da perspectiva assumida do narrador, bastante variável, neste caso) que chamaríamos de humanas. O inseto elabora no chão uma armadilha engenhosíssima, de feição científica, pois extremamente eficaz em sua forma e finalidade. Arte e ciência, mas também, e sobretudo, perfídia. O inseto faz obra admirável, mas essa obra é desleal e destruidora, como julgará o escritor. As estratégias e os recursos de um inseto, ou larva, são, na verdade, infinitos e não poderiam estar cabalmente descritos nas Memórias, ou seja,  não acabariam nunca de ser classificados e elencados... Se Giorgio Agamben afirmou em Infância e história que os “animais não entram na língua: já estão sempre nela”, Taunay poderia, por sua vez, dizer: os animais não entram na guerra – já estão sempre nela. A prova mais incisiva é a arte e o engenho de uma simples larva, que nasce já guerreira e equipada com todos os recursos de que precisa para subjugar suas presas, que são outros insetos adultos. Como é possível que seja justamente uma larva o melhor soldado, eis uma indagação que não podemos deixar de fazer, durante a leitura da autobiografia do Visconde de Taunay.

Nas Memórias de Taunay há várias outras situações semelhantes à descrita acima, na  qual um animal, um inseto, graças à sua simples presença nesse relato que deseja testemunhar a guerra entre os homens, desestabiliza a narração, oferecendo-se, no texto histórico, como um corpo estranho e inusitado, gerador de cenas cruéis, inimagináveis, ou, ao contrário, hilárias, absurdamente cômicas. Em suma, os animais de autobiografia seriam, potencialmente, elementos desestabilizadores da trama das Memórias. Poderia citar, a esse respeito, mais uma vez o burro vagabundo que leva o jovem Taunay aos “fundos sertões” e que sobrevive aos cavalos do Exército, apropriando-se do que encontra ao alcance da boca, como “panos de cozinha e até grandes pedaços de jornal roto”.

Não posso elencar aqui todos os espécimes do “bestiário de guerra” do Visconde de Taunay, mas gostaria de dar minha opinião sobre a importância dos animais, grandes e pequenos, burros e larvas, nas suas Memórias. Creio que esses animais nos ajudam, hoje, leitores que somos, entre outros, de Bataille, Michaux, Ponge, Derrida, Agamben etc., a repensar as rupturas e heterogeneidades entre o humano e o infra-humano, evitando recair sempre num único limite oposicional, linear e indivisível, numa oposição binária, em suma. Por isso, “o ponto de vista do animal”, que o Visconde de Taunay resgata nas suas Memórias, parece-me tão fundamental hoje. Quero acreditar que não exista atualmente melhor aposta autobiográfica do que esta – falar do humano, conferindo subjetividade e intencionalidade ao inumano, como nos ensina o perspectivismo ameríndio, estudado por Viveiros de Castro.  


*Sérgio Medeiros publicou três livros de poesia, entre eles Totem & Sacrifício, Jakembó Editores, Assunção, Paraguai, 2007. Traduziu na íntegra o poema maia Popol Vuh (Iluminuras, São Paulo, 2007), em colaboração com Gordon Brotherston. Ensina literatura na UFSC.

 

BIBLIOGRAFIA

AGAMBEN, Giorgio.Infância e História, Belo Horizonte, Editora UFMG, 2005
DERRIDA, Jacques. L’Animal que donc Je Suis, Paris, Galilée, 2006
HEIDEGGER, Martin. Os Conceitos Fundamentais da Metafísica, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2003
LACOUE-LABARTHE, Phillippe. A Imitação dos Modernos, São Paulo, paz e Terra, 2000
MICHAUX, Henri. Plume, Paris, Gallimard, 1963
PONGE, Francis. Métodos, Rio de Janeiro, Imago, 1997
SOLLERS, Philippe. Francis Ponge, Seghers, Paris, 2001
SPADA, Marcel. Francis Ponge, Paris, Seghers, 1979
TAUNAY, Visconde de. Memórias, São Paulo, Iluminuras, 2005
-----------------------------. A Retirada da Laguna, São Paulo, Cia. das Letras, 1977
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A Inconstância da Alma Selvagem, São Paulo, Cosacnaify, 2002

 

 

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