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Florianópolis, 15 de Dezembro de 2007 ENTRE O EXCESSO E A FALTA Por: Ana Carolina Cernicchiaro e Flávia Memória Num gesto de silêncio e fratura, a obra do artista argentino Jorge Macchi propõe um outro olhar sobre a vida e a morte Charco de sangue. Corpo sem vida. Nessas expressões, dezenas de notas criminais retiradas de tablóides do tipo que “escorreriam sangue quando retorcidos” se encontram. São vidas, ou melhor dizendo, mortes, que se tocam no charco de sangue, na poça vermelha, no corpo sem vida estendido. Charco de sangue e Corpo sem vida são dois dos 70 trabalhos do argentino Jorge Macchi apresentados no Santander Cultural, em Porto Alegre, por ocasião da 6ª Bienal do Mercosul. Neles, a repetição, o excesso, se apresenta como um toque de afeto, um corpo com vida, um ego cum, para utilizar uma expressão de Jean-Luc Nancy. Na parede, o momento em que aquelas vidas infames revelam sua singularidade plural, não mais o particular do evento ou o universal da banalização da violência, mas a singularidade e a pluralidade de cada uma dessas mortes, desses rastros de violência, desses corpos - “no poema e na morte, o homem encontra a única forma justa e conhecida de uma comunidade que respeita o singular e o anônimo”, nos informa Silviano Santiago. Os trabalhos de Macchi são esses poemas, essas mortes. Neles, notícias sangrentas de tablóides populares se tornam escritura (pensando no sentido barthesiano do termo), música. Assim é Música Incidental. Ali, não apenas o excesso, mas a falta, o branco mallarmaico da folha levado às últimas conseqüências. No espaço entre as reportagens expostas em linha reta como partitura, se dá a música, calma, tranqüila, acidental, em contraste aos relatos chocantes de assassinatos, uma espécie de monstro, híbrido, informe, um sublime, cuja paixão, nos diz Edmund Burke em sua análise sobre o sublime, é o espanto (“aquele estado de alma no qual todos os movimentos ficam suspensos, com um certo grau de horror”). Entre a imagem-escritura e a composição musical, Macchi instaura um campo em que os dois termos reverberam, distanciando-se e complicando-se de modo a causar um desconcerto, deslocamento ou mesmo uma total incompreensão. Jean-François Lyotard considera - e aqui nos referimos à análise que Alberto Gualandi faz da obra do pensador francês - que é justamente este o desafio da arte: perturbar os princípios que regem a estética do belo “com o propósito de aproximar a presença do que não poderá jamais ser representado, mas que nos é indicado por aquilo que precede toda forma: a sensação, o tempo, o Ser, a Idéia”. Nesse sentido, vale lembrar que, para Glyn Daly, na introdução de Arriscar o Impossível – Conversas com Žižek, mesmo que o Real não possa ser diretamente representado, “é possível aludir a ele em certas encarnações figuradas do horror-excesso”. Portanto, para se aproximar dessa presença que interrompe o caos da história é preciso, segundo Lyotard, “suspender a síntese das formas e o encadeamento das frases por um contraste, um sobressalto, uma cesura, um vazio, uma catatonia, uma congestão, um derramamento”; dessa maneira, a arte se compreende uma “atividade ascética de contemplação das singularidades e das diferenças inefáveis”. Música Incidental é essa cesura, esse vazio, um estranhamento, diria o próprio Macchi, para quem a música é “como un lenguaje absolutamente formal, una abstracción pura, y en este sentido cuando es originada por la figuración de la imagen, o la brutalidad de una crónica policial, produce un extrañamiento, una especie de realentamiento, que cambia para siempre el carácter del material original”. Nesses movimentos mínimos de deslocamento da realidade cotidiana, nesses rastros, a música, a arte, a escritura, provocam uma nova percepção da realidade. São silêncios, inteligibilidades, invisibilidades, um gesto extraterreno do artista, nos diria Susan Sontag. Dessa forma, quando o aparato sensorial humano se encontra em permanente estado de dormência, quando a própria mente torna-se refém dos signos, representações e códigos, as obras de Jorge Macchi parecem provocar, através de uma experimentação lenta, de uma observação cuidadosa, a ocorrência de outras relações afetivas, o surgimento de outras referências, outras associações sentimentais. Como o compositor experimentalista e escritor norte-americano John Cage nos faz perceber: “Wherever we are, what we hear is mostly noise. When we ignore it, it disturbs us. When we listen to it, we find it fascinating”. É esse gesto que o trabalho de Macchi nos leva a experimentar: o de uma escuta atenta, de uma leitura cuidadosa, de um deixar-se penetrar pelo que a nudez da imagem remete - silêncios, fraturas. Em seu Libro de citas, deparamo-nos com a fixidez precária de um recorte jornalístico vazado, no qual as aspas, que teriam a função de referir-se a algo, uma idéia, delimitam apenas uma dimensão vazia do dito. Uma tal dimensão vazia nos faz pensar não só a verborragia cotidiana, mas também a vida humana em seu processo de esvanecimento, de redução a índices estatísticos, a códigos numéricos, a modorra a que a razão sucumbe quando já não sente. Em História de amor, uma nota de sentir que ressoa solitária de um cantinho miúdo da página nos comove; em Monoblock (Tower Block), páginas de obituários de jornais se sobrepõem, expondo tão somente a moldura e o signo ora da cruz ora da estrela de Davi, meros indicadores de mais uma morte/vida. E aqui poderíamos pensar sobre estes termos, morte e vida. Se há neles uma dicotomia ou se, ao incorporarmos um vazio destrutivo na vida cotidiana (vazio proporcionado pelo universo desespiritualizado e utilitarista do capitalismo), não estaríamos experimentando a morte em uma vida onde tudo não passa de espetáculo espectral, de um isolamento no interior de nossa própria propaganda. Macchi pede um retorno, pede que o corpo sinta, que o sentido se descubra outro. Em seu trabalho Vítima serial, a rápida utilização de fragmentos de anúncios e propagandas compõe uma mensagem de alerta, repetida à exaustão: “no se van a olvidar de mi rabia jamás.” O que resta obliterado nos anúncios que nos bombardeiam dia após dia? Como é possível recombinar as peças, as letras dos slogans publicitários, das idéias já prontas, pagas à vista? Quem é a vítima? Quem, o algoz? O trabalho de Jorge Macchi é feito de rachaduras, de pedaços de realidades. Não elabora respostas, mas nos deixa entrever que embora não possamos confiar no que vemos, e que, certamente, isso não seja tudo o que possuímos, este pode ser também um outro lugar para se começar. *Ana Carolina Cernicchiaro é mestranda em Teoria da Literatura, UFSC. Desenvolve pesquisa a partir do trabalho de Sousândrade. *Flávia Memória é bacharel em Direito e aluna da graduação em Letras/Inglês da UFSC. Desenvolve pesquisa a partir do trabalho de Wilson Bueno.
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