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Florianópolis, 08 de Abril de 2008 OU AINDA MENOS: NOITE Por: Victor da Rosa* – sobre Ronald Polito. Em um pequeno ensaio sobre a literatura de Maurice Blanchot, intitulado Silêncio e Literatura, Georges Bataille diz de uma escrita que é “feita efetivamente para decepcionar em todos os sentidos”, já que o leitor jamais alcançaria o lugar de onde o autor enuncia. Bataille sugere então a imagem de um último silêncio deixado por debaixo das palavras para dizer deste fundo falso, opaco – feito uma venda que, após ser retirada dos olhos, revela somente um vazio – construído pela narrativa. O que surpreende o personagem masculino da narrativa de Blanchot é justamente a capacidade da mulher desejada se converter infinitamente em um segredo – “imagem velada, sempre velada por um ar impessoal” – e intocável, portanto. Para além da angústia, através de sua incerteza, a literatura de Blanchot produziria uma cena inapreensível, vaga, talvez até mesmo invisível. Seu único objeto seria, afinal, o silêncio. Então a escrita luta contra a escrita – contra sua transparência e mesmo contra sua positividade de sentido. Lendo os poemas dos últimos livros de Ronald Polito – sobretudo o livro Terminal (7Letras, 2006) – tenho a impressão de ficar justamente com a memória de uma cena vaga: uma noite – ou passagem dos olhos. Pode ser interessante, de início, sugerir uma forma negativa – “Mas, entre elas, a [palavra] mais repetida será: / Não”. A escrita de Ronald aparece escura aos olhos de quem lê – acontece no meio de incertezas e hesitações. Não por acaso, a noite é imagem recorrente em alguns poemas. Ou escuridão, sombra. Toda a agressividade então consiste em não dizer, permanecer no silêncio, não ser capaz – “Ou o fardo de / tudo ser dito de / novo. E todas as palavras / virem comparecer aqui, / com sua fortaleza e (...)”. Há um esforço nisso. E haverá também gravidade. Antes, vale dizer que Terminal parece intensificar questões que já eram certas em sua produção – e penso que esta intensificação diz respeito a um traço bastante preciso: o modo como acontece o aparecimento de um corpo. Seria talvez exagero afirmar que a poesia de Ronald se torna mais subjetiva – pouquíssimas vezes, por exemplo, aparece uma escrita em primeira pessoa – e, ao mesmo tempo, pode-se dizer que o escritor se afastou de um formalismo mais abstrato ou conceitual de seus poemas visuais, por exemplo. De qualquer modo, estas categorias não trariam qualquer esclarecimento crítico. Trata-se de um limite difícil, em qualquer sentido que esta palavra possa suscitar. Quando o assunto é uma poética de caráter indecidível, estas categorias se mostram ainda menos eficazes. O que me parece certo e também complexo – um dos traços mais marcantes e recorrentes deste último livro, na minha leitura – é o modo como aparece este corpo. * * * Este corpo, no entanto, também desaparece. Não se trata de um corpo com localização imediata, tampouco estável. Talvez porque esteja perdido, perto do fim, ou vazio, é difícil saber. De início, o titilo do último livro parece nos dizer justamente de um estado terminal de algo. Já no primeiro poema de Terminal, então, aparece este corpo – muito pouco é dito sobre ele – que empurra o vento porque, por algum motivo, é hora de partir: “(...) Hora de partir. Pura / fantasia. Um corpo / que empurra o vento, / que ilumina a luz, / amarrota o mar, coberto de / pó. Que / possa dobrar, / passo a passo, / risco do caminho”. Quase não há uma intenção, um sujeito atrás. O artigo indefinido “um” generaliza e faz pensar que pouco se sabe deste corpo, de sua história. Parece haver pouca força, também, ou cansaço. Mas o corpo continua a se movimentar, apesar do “peso de tudo”. O poema seguinte do livro, intitulado “Vivência”, abre com uma incômoda descrição de algo que somente parece um corpo: máquina com nervos em direção a qualquer lugar – “A. Testando articulações e peças, / ligames, a máquina com nervos, / pele e ossos retesados no elevador / abaixo, agora, rumo aos exercícios // de manutenção, conseguindo (...)”. Na representação do poema, não há relação apaziguada entre corpo e mundo, em nenhum momento. A matéria aparece sempre em estado de tensão, retesada. Junto dela, também a escrita – quase sempre caótica: cortada – acompanha esta respiração. Não há descanso possível – como nestes versos de outro poema: “rotinas para retinas / já tão fatigadas (...)”. Muitas vezes também, este corpo surge a partir de alguma metonímia, inacabado – no poema “Devassa, devastação”, palavras como dentes, pele, sangue, carne, supercílio e cabelos aparecem no meio de outras palavras de campos simbólicos completamente distintos: “Poeira preta empastelando / a pele. Cabelos. Gosma / que sobe e desce de / novo. A noite num perfil com / sangue, corpos cortando / corpos (...)”. A escrita se fragmenta e o corpo é também fragmentado até o limite de sua anulação. Inserido todo tempo dentro de uma experiência excessiva e, sobretudo, negativa, este corpo inevitavelmente perde sua integridade. No entanto, por qualquer motivo, permanece, é preciso. Acredito que esta seja uma característica muito forte dos poemas de Ronald: um corpo se confundindo com as coisas, desaparecendo nelas, e resistindo. Aliás, a maneira como acontecem os cortes nos versos também traz uma velocidade mais ou menos caótica para a leitura – “(...) ou menos: cacos. / Ou nacos de carne.” O poema é o próprio caos onde o corpo se faz experiência. E o caos, por sua vez, gera incerteza. E um corpo cansado. Algo foi destruído: resta a ruína. Resta um corpo na ruína. O uso constante de estruturas condicionais multiplica as incertezas. A sintaxe destes poemas, ou de grande parte, por sua vez, é toda repartida justamente em pontos em que o ritmo se quebra, e qualquer sentido estável da leitura se perde também nisso. Cito os três primeiros versos do poema “Centro de um feixe qualquer” – “Por um instante a fumaça do / cigarro parece que se / detém no ar. E os quadros, / (...)”. Além dos cortes, aparece também este ponto final exatamente no meio do verso, que constrói uma nova pausa pouco confortável para quem lê. Nenhuma permanência é possível. * * * Para além do movimento, no entanto, é possível também pensar – na forma de um paradoxo – que há uma incômoda imobilidade. Afinal, tudo parece se movimentar no vácuo. Se há um corpo em constante movimento, não há uma direção certa. Tudo gira e, de algum modo, permanece. Talvez seja interessante imaginar uma ilusão de movimento. Ao mesmo tempo, a esperança consiste em não deixar de se mover. Este corpo, de resto, parece saber pouco de si. É verdade também que a imobilidade geralmente aparece mais presa ao entorno, como se pesasse sobre o movimento. A continuação do poema citado acima marca justamente esta completa imobilidade das coisas: “(...) a mesa, ficam ainda mais / fixos. A moldura da / janela figura um / retângulo azul fora do / tempo. E nenhum / vento vem violar / o fugaz antedesejo de / cada coisa, pedra ou planta / permanecer em seu / lugar. (...)”. Ou ainda em uma frase do poema em prosa “O cosmo e mais”: “Mesmo o sol não pode se mover ainda muito”. * * * O livro Terminal é dividido em sete partes – Encruzilhada, City Lights, Gabinete, Respitações Artificiais, Minizôo, No desterro e, finalmente, Muralha – sendo que primeira e última são compostas por apenas um poema. É difícil estabelecer fronteiras rígidas entre estas partes, porém é possível traçar algumas anotações. Na seção “Gabinete”, por exemplo, onde os poemas de Ronald foram inspirados por um livro do poeta francês Jacques Roubaud, aparece uma temática mais ligada à cosmogonia. Não por acaso, em praticamente todos os poemas desta parte aparece a palavra “mundo” – e, curiosamente, não há qualquer menção ao corpo. O mundo é percebido, aqui, enquanto um espaço absolutamente negativo, de falta: “Um atrativo zero absoluto”, “Mundo sem oco, sombra, surpresa”, “Um mundo. Sem nem uma dúvida”, “mundos sem fundo”, etc. Mais do que isso, ou ainda menos, este mundo é também inalcançável, como parece indicar o último poema da seção: “E então cobri-lo de nuvens / mais incompreensíveis ainda”. A ausência de qualquer menção ao corpo, nesta parte do livro, não deixa de ser significativa dentro da leitura sugerida – “nada mais subjetivo / do que não falar de mim”, são dois versos de um livro anterior de Ronald, intitulado Vaga (1997). Pode ser coerente afirmar justamente que, através de sua completa ausência, o corpo alcança nestes poemas um limite extremo de negatividade. Como se fosse anulado completamente pela impossibilidade de uma relação com o cosmo, ou com o outro, o corpo mais uma vez desaparece. No entanto, ainda é possível percebê-lo por trás da escrita. Em um poema como “Depois da interpretação” – “Olhar de novo o céu / tantas e tantas vezes / incompreensível” – só existe a incerteza porque há um corpo implicado no olhar, alguma subjetividade. Ou na pergunta que fecha o poema “Nenhum outro” – “Só / se pode / habita-lo?” – em que há um embate entre o mundo e, de algum modo, este corpo que o habita. Isto nos faz pensar, ainda, que a incerteza das coisas só pode ser gerada por um corpo, mesmo perdido. Ainda, o vago poema “Talvez evidência” nos dá uma possível pista neste verso: “de um ausente (não apenas) textual”. Que ausência, afinal, seria esta? * * * Há duas paisagens recorrentes no livro de Ronald: o deserto e a noite – a falta de luz. E sabe-se que são imagens recorrentes não apenas neste livro, mas em grande parte de sua obra. O livro De passagem se encerra com os versos “e mesmo se esquecer / os olhos fechados”, em um poema intitulado justamente “Quando chega a noite”. Mas esta imagem se encontra espalhada por todo o livro: “O mundo como você esta noite”, “Em outro poema estava a noite”, “algo que some / e algo de sombra” e também se repete muitas vezes e de diferentes maneiras no livro Terminal. Basta lembrar que uma das partes deste último livro se intitula “No desterro”. Todas estas imagens e repetições sugerem um afeto e, ainda, uma metáfora. A princípio, aceitando uma dicotomia e recuperando o ensaio de Bataille, poderia imaginar que estas imagens representam qualquer angústia, tristeza ou pessimismo. No entanto, ao contrário, penso que pode ser mais interessante imaginar o fechar dos olhos ou a escuridão enquanto uma resistência a certa realidade que nos cerca. Uma construção vaga e incerta da linguagem é também uma recusa a certo regime de representação e, portanto, a certo modo de estar no mundo. Blanchot, mais uma vez, abre seu ensaio O espaço literário fazendo um elogio da solidão, da negatividade. A noite seria então o silêncio dos olhos. Afinal, nela enxergamos menos. Ou diminuímos: desaparecemos. Daí também a imagem do deserto: o nada – “(...) nos confins entre / o nada e o indiferençável (...)”. Não por acaso, já no primeiro livro de Ronald, Solo (1996), aparece esta metáfora, eu diria, esclarecedora: a do “corpo deserto”. Há algo que insiste, no entanto, em permanecer firme. Afinal, toda dificuldade é esta. A poesia de Ronald parece descrever um fim – ao mesmo tempo em que suporta este peso. Talvez permaneça no limite, no fim da noite, infinita luta. Este corpo que padece – a ele, não há descanso possível. Nem há tempo para respiro. De fato, o corpo parece muito frágil, afásico, sujo. E é um esforço dizer tudo isto. Falta um nome, o ar – seria desastroso tentar mais uma vez. Já é difícil saber. * Victor da Rosa, ensaísta, é mestrando em Literatura pela UFSC. Escreve sobre literatura e artes visuais desde 2004, e publica com regularidade no Caderno de Cultura do Diário Catarinense e nos periódicos eletrônicos: Revista Zunái e Centopéia. Em 2007, também publicou as narrativas de “piano e flauta – fragmentos de um romance” (Lumme Editor). Outros de seus textos podem ser lidos em www.literaturamenor.blogger.com.br
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