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Florianópolis, 22 de Maio de 2008

O PESQUISADOR INCURIOSO E O OBJETO-ODRADEK
Por: Sérgio Medeiros*

A recente publicação no Brasil do romance Molloy (Editora Globo, São Paulo, 2007), de Samuel Beckett, na cuidadosa tradução de Ana Helena de Souza, levou-me a refletir sobre a atuação/a filosofia do “pesquisador incurioso”.  Diz ele: “Pois não saber nada, não é nada, não querer saber nada também não, mas não poder saber nada, saber não poder saber nada, é por aí que passa a paz, na alma do pesquisador incurioso” (pág. 95).

O pesquisador incurioso anda de muletas e imagina que nisso possa haver algo de exultante: “Porque é uma série de pequenos vôos, à flor da terra. Decola-se, aterrissa-se, em meio à multidão de lépidos, que não ousam levantar um pé do chão antes de cravar o outro nele” (p. 95). Então, sem meias palavras, ele conclui, fazendo o elogio do ato de andar de muletas: “E não tem andar mais bonito deles que seja mais aéreo que a minha claudicação” (pág. 95).
Essa paz, essa claudicação, essa ironia, esse humor negro definem o pesquisador incurioso. Com sua muleta-asa, com seu nada idílico, ninguém deveria sentir pena dele, nem mesmo tentar, num ato de compaixão, abrigá-lo num asilo ou quarto confortável. Ele está voando, ele está claudicando, ele está vazio e por isso destila ironia e tiradas humoradas no monólogo sem fim que constitui parte do livro.

Contudo, um pouco antes de fazer esse elogio do nada e da claudicação, o pesquisador incurioso descreveu longamente (amorosamente?) um objeto estranho, um objeto-odradek, que estimulou a reflexão que lemos sobre o nada e a paz. O termo “odradek” uso eu, remetendo à estranha criatura descrita por Kafka: ela fala e possui extraordinária mobilidade, embora seja apenas um carretel de linha achatado e em forma de estrela, com pedaços de linha, velhos e emaranhados – do centro da estrela sai uma haste pequena que se articula em outra, que funciona como uma perna e faz o todo mover-se, apoiado nos raios da estrela. Um objeto-odradek deverá ter estranheza igual, embora, por ser só um objeto (pequeno), possa não ser capaz de expressar-se verbalmente. Será de qualquer maneira enigmático, desconcertante, intrigante. Olha-se para ele muitas vezes, sem poder desvendá-lo.

Sabemos que existe uma afinidade entre Kafka e Beckett. A crítica já tratou disso. Mas voltemos ao objeto-odradek que o pesquisador incurioso tem nas mãos:
   
Tinha trazido da casa de Lousse um pouco de prataria, oh, não era grande coisa, colherinhas de café maciças a maioria, e mais outros objetos menores que não sabia para que serviam, mas que pareciam ter algum valor. Por entre estes últimos havia um que ainda me assombra, de tempos em tempos. Consistia em dois x reunidos, à altura da intersecção, por uma barra, e parecia um minúsculo cavalete de serrador, com uma diferença entretanto, que os x do cavalete de verdade não são x perfeitos, mas truncados no alto, enquanto os x do pequeno objeto do qual falo eram perfeitos, quer dizer, compostos cada um de dois v idênticos, o superior aberto no alto, como de resto todos os v, e o inferior aberto embaixo, ou, mais precisamente, de quatro v rigorosamente iguais, os dois que acabo de mencionar e depois mais dois, um à direita, outro à esquerda, tendo a abertura à direita e à esquerda, respectivamente. Mas talvez seja demais falar aqui de direita e de esquerda, de inferior e de superior. Pois esse pequeno objeto não parecia ter nenhuma base propriamente dita, mas se mantinha com igual estabilidade sobre não importa qual das suas quatro bases e sem nada mudar na aparência, o que não é o caso do cavalete de verdade (pág. 94).

Quando releio tal passagem, descubro uma afinidade muito grande entre esse “pequeno objeto” e o ser fantástico batizado de Odradek. Mais do que isso, na narrativa de Kafka, o Odradek parece usar muletas, parece voar e claudicar, ou voar rente ao chão porque claudica, e parece não ter nada a dizer, com o mesmo humor negro do próprio pesquisador incurioso. Odradek, neste caso, seria algo assim como um pequeno retrato do pesquisador incurioso e prefiguraria, igualmente, o objeto que este tem nas mãos.

Recapitulando, o pesquisador incurioso, ele próprio uma espécie ou irmão de Odradek, como vimos, possuiria também um objeto-odradek, espessando o diálogo entre tantos odradeks que o pequeno fragmento que estou comentando revela.

Na seqüência, o pesquisador incurioso (ele não classifica, não põe etiqueta no objeto, daí ser incurioso e preferir o nada e a ironia ao saber e à seriedade), afirma:
               
Esse estranho instrumento, ainda o tenho em alguma parte, acho, não tendo nunca me resolvido a trocá-lo por dinheiro, mesmo no extremo da necessidade, pois não chegava a compreender para que poderia servir, nem mesmo a esboçar uma hipótese a esse respeito. E de tempos em tempos o tirava do meu bolso e o observava, com um olhar atônito e não diria afetuoso, pois era incapaz de afeto. Mas durante certo tempo ele me inspirou uma espécie de veneração, acho, pois tinha certeza de que não era um objeto virtuoso, mas que tinha uma função das mais específicas e que ficaria para sempre escondida em mim. Logo, podia sondá-lo indefinidamente e sem qualquer perigo(págs. 94-95).

Assim, quando perguntamos a Odradek onde ele mora, ouvimos esta resposta, seguida de um riso: “Domicílio incerto”.

O pesquisador incurioso ouve continuamente, a vida toda, esse riso sem pulmões, esse sussurro de folhas secas que prenuncia o nada e a paz: ele não alça altos vôos sublimes nem tampouco desaba pesado no chão, numa queda abjeto, mas alça pequenos vôos extremamente velozes rente ao chão. Como todos os odradeks (seres e objetos) do mundo, o pesquisador incurioso também não se deixa apreender (venera sem afeto o objeto), vale dizer, não é místico, é o nada que diz nada, em paz consigo mesmo, sem prejuízo do humor, da ironia. Se é que podemos conceber isso. 

A perna de Odradek, as muletas do pesquisador incurioso – quem ousará negar a sua eficácia? São também instrumentos estranhos, para os quais olhamos atônitos, com veneração sem afeto. Pois não são virtuosos...


*Sérgio Medeiros  nasceu em Bela Vista (MS) e ensina literatura na UFSC, Florianópolis (SC). Traduziu o poema maia Popol Vuh, entre outros, e publicou três livros de poesia. É um dos editores do site de arte e cultura www.centopeia.net

 

 

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