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Florianópolis, 18 de Julho de 2008 DOIS JUDEUS VISTOS POR UMA GATA Por: Sérgio Medeiros* O romance "Ulisses" (1922), do escritor irlandês James Joyce, está dividido em três partes, assim denominadas: "Telemaquia", "Odisséia" e "Nostos". Abrirei o romance na segunda parte, mais precisamente no café da manhã do protagonista do livro, o senhor Leopold Bloom, um judeu errante. Esse senhor se move na cozinha sob o olhar de uma gata faminta. Cito a passagem, na tradução de Antônio Houaiss: - Minhau! - Oh, aí estás - disse o senhor Bloom, voltando-se do fogão. A gata miou em resposta e tornou a dar voltas em redor da perna da mesa, miando. Exatamente como desliza sobre minha escrivaninha. Prr. Coça a minha cabeça. Prr. O senhor Bloom olhava curiosamente, carinhosamente, a fléxil forma negra. Limpa de ver: o lustro do seu pêlo nédio, o tufo branco sob a raiz de seu rabo, os lampejantes olhos verdes. Ele inclinou-se para ela, suas mãos sobre os joelhos. - Leite para a bichaninha - disse ele. - Minhau! - gritou a gata. Chamam-lhes estúpidos. Eles entendem o que dizemos melhor do que nós os entendemos. Ela entende tudo o que quer. Vindicativa, também. Imagino como é que eu pareço a ela. Altura de uma torre? Não, ela pode saltar sobre mim." A gata mira o judeu Bloom com dois olhos que são duas pedras verdes. Bloom decididamente não é uma torre, a gata pode pular sobre ele. (Dessacralização do herói grego, que, como se sabe, em suas aventuras épicas era visto por um deusa ou uma deusa.) Essa é uma constatação que, ao longo do romance, adquirirá muitos significados, mostrando que o Ulisses moderno não possui uma dimensão épica, mas parece um homem comum, desses que as gatas pulam por cima sem muito esforço. Bloom é visto de baixo, abjetamente, como nos filmes de Ozu, onde a câmera se situa ao nível das vassouras... Vimos, na cena acima, as deambulações do nosso Ulisses pela cozinha, cena das mais prosaicas. É assim que o herói moderno nos é apresentado no romance de Joyce. Provavelmente, antes ele foi ao banheiro, e a gata o seguiu miando, pedindo-lhe um pires de leite. Joyce não narrou isso, mas o filósofo Jacques Derrida, grande leitor do romancista irlandês, o fez por ele, muitos anos depois, no seu ensaio "O Animal que Logo Sou", de 1999, lançado no Brasil numa tradução de Fábio Landa em 2002, pela Editora Unesp. O filósofo de origem judaica se pergunta "quem sou eu" ao se sentir examinado por uma gata, que o acompanhou até o banheiro. (Deleuze também disse que o escritor escreve porque olhou para o animal...) A gata, que em princípio deseja apenas um pires de leite, o vê nu, e isso desencadeia uma fascinante reflexão sobre a descontinuidade entre o homem e os animais, sobre o campo intersubjetivo humano-animal, tão central para a filosofia pós-heideggeriana e para a cosmologia ameríndia, por exemplo. Como na natureza não existe nudez, o vestuário seria o próprio do homem, um dos "próprios" do homem. A gata assim não está nua. E ela tem um ponto de vista, uma perspectiva. Quem será capaz de sondar a mentalidade da gata e recuperar-lhe, para nós, o seu pensamento? A fronteira ontológica da humanidade está sendo deslocada, como diria Descola, e agora abrangeria animais e plantas. O romance de Joyce é um tributo ao olhar de uma gata. Olhar singularíssimo, olhar desestabilizador. Revolução ontológica? Anarquismo ontológico? Relativismo ontológico? Núpcias do humano com o não-humano? Eis as questões da literatura de hoje, de ontem... "Pois o pensamento do animal, se pensamento houver, cabe à poesia, eis aí uma tese", declara Derrida no banheiro. Caberá a Joyce relatar a subjetividade, a intencionalidade do inumano, como vimos, e também ao próprio Derrida, poeta e não apenas filósofo. O poeta "se vê visto" pelo animal e o filósofo conclui: "Como todo olhar sem fundo, como os olhos do outro, esse olhar dito "animal" me dá a ver o limite abissal do humano". Na literatura, no mito, em Joyce e em Derrida, o animal não é apenas visto, ele também vê. (Questão crucial para autores como Deleuze e os índios brasileiros.) Essa não é certamente a menor das surpresas que o mito ameríndio e a literatura podem proporcionar. Pois, como afirma o filósofo, "o logocentrismo é, antes de mais nada, uma tese sobre o animal, sobre o animal privado de logos, privado do poder-ter o logos". Entretanto, na literatura, e essa é uma de suas especificidades, os animais, seja a gata de Joyce ou o boi de Drummond, cuja mentalidade é reproduzida num poema famoso, nos vêem com seus olhos, porém, não como torres inatingíveis, certamente. Nós e os animais somos todos perecíveis torres gêmeas. *Autor dos livros de poesia “Totem & Sacrifício” (Jakembó, Assunção, Paraguai, 2007), "Alongamento" (Ateliê, 2004) e “Mais ou menos do que dois” (Iluminuras, 2002), tradutor do poema maia “Popol Vuh” (Iluminuras, 2002), organizador da coletânea de mitos amazônicos "Makunaíma e Jurupari" (Perspectiva, 2002) e professor de literatura na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). É um dos editores do site de arte e cultura www.centopeia.net . Há seis anos organiza o Bloomsday de Florianópolis, ao lado de Dirce Waltrick do Amarante e Victor da Rosa.
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