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Florianópolis, 16 de Agosto de 2008

NATIMORTO - SOBRE O TRABALHO DE PATRÍCIA OSSES
Por: Fernando C. Boppré*

“O tempo é a substância da qual sou feito
O tempo é um rio que me carrega,
mas eu sou o rio”
(Jorge Luis Borges)

 

FRÁGIL!

Uma angústia acompanha o tempo de existência das ações de Patrícia Osses. Uma certeza do desastre. Da queda e derrocada do astro. A impossibilidade do continuar. O tempo passa e arrasta coisas consigo. “Mesa” (2001) é uma performance de objetos: quatro blocos de gelo sustentam uma placa de vidro. Frágil são os materiais utilizados para a construção desta “mesa”: os pés são de gelo, o tampo é de vidro. No entanto, o frágil no interior do duro. Afinal, gelo e vidro são sólidos. “Mesa” é a desconstrução do espaço pelo tempo. A idéia de mesa, seus elementos (gelo e vidro), é arrebatada pelo passar do tempo. Liquidifica-se. 

    
O tempo é um rio. Mas a artista é o rio. Após o gelo derreter, o vidro se despedaça no chão. O próximo passo é o abandono, o fim da partida, quando artista e público voltam para casa sem nada nas mãos. Se o ponto de chegada é a destruição, o abandono, afinal, por que o começo? Construir algo para, em pouco tempo, destruí-lo? Talvez seja esse o elemento angustiante de “Mesa”. Porém, não seria esse, justamente, o paradoxo intransponível do nascimento? Se nasce para morrer, como diz, muitas vezes, o dito popular? Algumas dezenas de anos (ou menos) separa o nascer do morrer. Dá para contar nas mãos. Tendo em vista a insignificância da duração da vida humana, em boa medida, pode-se dizer que somos natimortos. Essa estranha palavra. Nati-morto. Aquele que já nasceu morto.

Intimidade


Um dos principais interesses de Patrícia Osses é a intimidade. Nada menos íntimo, contudo, do que uma construção inacabada. E vazia. Algo que se iniciou e que não se terminou. Antes de estar pronto, já abandonado. A construção civil ergue imensas ruínas nos centros urbanos. Toda grande cidade coleciona inúmeros prédios abandonados que acabam por criar um ponto de inflexão: continuar e terminar a construção ou demoli-la e extingui-la da paisagem? Em “Habitáveis” (2004), Patricia Osses intervém nestes edifícios na cidade de São Paulo onde é instalada internamente uma única fonte de luz. De fora, vê-se uma janela iluminada, indício de que alguém ali se encontra, que ali reside alguma intimidade. Um falso indício, contudo. No interior do abandono, o sinal de uma presença. Mesmo com a luz é o abandono mesmo que persiste.

Passagem

Alterar, transformar e, por vezes, sabotar o espaço conhecido e que mantém a estabilidade da relação entre as pessoas e o mundo. Estes são verbos conjugados por Patrícia Osses em muitos de seus trabalhos. Em “Meca” (2006), instalação realizada no Paço das Artes, no Rio de Janeiro, sua ação única foi elevar o piso da sala de exposição, mantendo o mesmo padrão de revestimento. Com isso, ao adentrar a sala, o espectador apenas podia circundar o piso elevado. O mesmo procedimento ocorreu em “Apto. 54 – Antes e Depois” (2003). Um díptico fotográfico apresenta uma sala em que o piso foi elevado até a altura da janela. Antes, o espaço tal qual existia, no regime ordinário de disposição das coisas: uma poltrona, um piano, um sofá. Depois, o piso elevado sob a poltrona, que também se ergue. O que perturba nestas duas fotografias talvez seja exatamente o que não se encontra em nenhuma delas: a ação da artista, o trabalho dos pedreiros, enfim, a passagem do ordinário ao extraordinário, do pretérito para o presente. Ou então, a própria passagem do tempo. A diferença notável entre uma foto e outra, no entanto, parece ser apagada pelo silêncio que omite o trabalho envolvido. É como se nada tivesse ocorrido. Mas justo na passagem entre uma e outra, entre o antes e o depois, tudo se passou.

Um caminho para pensar o trabalho de Patricia Osses talvez seja o das passagens. Em diversos momentos, ela parece interessada em expor a passagem, um antes e um depois, incorporando a dimensão do tempo em sua obra. Por isso mesmo não vemos pinturas, nem uma fotografia no singular. São sempre fotografias, registros em vídeo, livros de artista, enfim, a possibilidade de uma sequência, de uma narrativa no tempo para dar conta de um espaço falido, daquilo que escapou do homem, que se desfez com seu gesto.

 

* Fernando C. Boppré (fernando.boppre@gmail.com)
é historiador e mantém o blog “Arte por Extenso” (http://arteporextenso.blogspot.com)

 

 

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