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Florianópolis, 31 de Outubro de 2008 OS VALORES E SUA REALIZAÇÃO Por: Aurora Bernardini* Baseado no “Le Monde des Valeurs” de Raymond Ruyer. Pouco a pouco, penosamente, descobre que suas realizações se agrupam num sistema do qual não pode afastar-se ou obedecem a uma ordem da qual não pode fugir. Vamos valer-nos aqui de um esquema onde o autor aponta três regiões. Na região I, da finalidade física, a realização (cristalização) é impecável. A espécie química se define pelo sistema no qual se enquadra. Na região II, da finalidade biológica, a espécie viva faz parte de um sistema não tão rigorosamente delimitado como o anterior, mas alcança sua finalidade quase que infalivelmente. A região III é o da finalidade humana. X é indivíduo, o realizador consciente, autônomo, isolado numa liberdade polarizada pela atração longínqua de valores. O que ele alcança nessa sua realização não é um “valor” em geral, mas uma série de alvos e de uma forma não direta nem imediata, mas tortuosamente progressiva. Vejamos um exemplo que nos esclareça: Um pintor está diante de um bosque. Ele tem a intuição de uma espécie de significação ou expressão desse domínio vegetal que parece transparecer através de objetos em sua consciência: uma paisagem, é o que ela é, antes de ser um quadro sobre uma tela, ou seja, uma obra de arte, tendo sua coerência e sua forma própria, diferente, pela natureza de sua ordem, do pedaço de bosque que provocou a percepção do pintor. A apreensão dessa espécie de significação ou expressão por parte do pintor já é, por si só, inicio de realização. O fato de ele dar-lhe ou não uma forma dependerá de uma ‘não complicação’ ou ‘complicação’ da natureza humana. Todo ato de consciência, em princípio, é um ato imediatamente eficaz. Como disse Hegel: “a forma é a atividade passada a seu produto”. Examinando-se diretamente as coisas, não se pode deixar de notar o acúmulo de características favoráveis, seja na ordem natural, seja no Cosmos físico. As individualidades físico-químicas preparam os indivíduos biofísicos e esses, por sua vez, os humanos. Há, portanto uma inter-relação entre as diversas regiões de realização. Veja-se como exemplo a lista de valores principais. Percebe-se que todos são favoráveis ou prefigurados em sua realização por alguma característica do mundo físico: o Valor Econômico - pela lei de menor esforço e pelas propriedades dos corpos simples e compostos; os Valores Estéticos - pelas leis de equilíbrio, de continuidade, de ressonância ou de interadaptação; os valores Afetivos - pela existência de individualidades não fechadas; o valor do Poder - pela energia física e pela possibilidade de colonização hierática das individualidades; os valores Morais e Religiosos - também são preparados pela estrutura do mundo biofísico: a causalidade prepara a ação pessoal, a responsabilidade. a) Valores sensíveis (agradáveis e desagradáveis) b) Valores econômico-utilitários c) Valores vitais (orgânicos): saúde, juventude, sexualidade, força física etc. d) Valores do poder (sociais, políticos) e) Valores espirituais (teóricos, estéticos, jurídicos) f) Valores morais e religiosos. O homem que for deficiente duma dessas ordens, mesmo que ele possua todas as outras será notadamente imperfeito. A falta de um valor pode corromper todos os outros, ao mesmo tempo que, como diz Le Senne, todo valor alcança sua perfeição pelo concurso de todos os outros. É por isso que, quando se tenta definir uma ordem de valores depois de outra, se é forçado a constatar que cada ordem só pode ser definida pelo concurso das outras. A lei geral decorrente torna-se portanto: TODOS OS VALORES PUROS SÃO VAZIOS. Vejamos alguns exemplos: 1) o Poder não vale senão como possibilidade de impor aos outros suas próprias evaluações; 2) a Arte é a expressão de outros valores; 3) a Economia é o meio geral de produzi-los; 4) o Amor é o pressentimento dos valores de outrem e o calor que lhes favorece a eclosão; 5) a Moralidade é a vontade de realizar valores; 6) o Ato Religioso é a tomada de consciência da fonte comum dos valores; 7) o Espírito Pedagógico é o zelo para colocar os jovens diante dos valores; 8) o Direito é o ato de respeitar conjuntamente os valores e seus portadores; 9) a Vida é a realização espontânea e consciente dos valores. Viver, Ser, Existir é se possuir a si mesmo e, numa certa medida, compreender-se a si próprio. Ser Sujeito é ser um pouco seu próprio Logos, é ser por sua própria conta sua Natura naturante. A existência é susceptível de graus; sendo assim cada homem poderá escolher dentre os inúmeros que lhe são oferecidos, os para os quais se sentir atraído, em relação aos quais tiver um ‘albedo’ considerável. A importância atribuída aos valores é relativa e por sua vez susceptível dos mais variados critérios. O homem, diz Scheler, não aprecia senão o que pode obter a mais que os outros. Spranger afirma que o valor de alguém ou alguma coisa só é valor enquanto está ligado a um ‘relativo-constante’. O autor define o valor de uma pessoa como sendo o valor que repousa sobre uma certa estrutura psico-orgânica que ela própria, em parte, se deu, e pela qual se tornou permeável ou transparente a valores que em seguida passa a irradiar. O que se pode dizer de um modo geral, é que o homem visa valores variados, cuja conquista pressupõe por parte dele um certo ‘envolvimento’ (enveloppement). MAS ATENÇÃO: A humanidade não pode se desenvolver a não ser que disponha de uma força, e essa força não pode existir sem uma pressão interna. . O homem só conquista o prazer relativamente duradouro em certos casos limite. A saúde, a riqueza, a felicidade doméstica, a ascensão social, a criação de uma obra, a paz da consciência só se obtêm pelo preço de coerências que demandam mais desprendimento e compressão do que a satisfação sôfrega da fome ou da libido. Os princípios que regem o desenvolvimento espiritual, ou seja a realização humana, seriam, em última análise, reduzidos a dois: um princípios de CORAGEM ENVOLVENTE e um princípio de PRAZER SINCERO, prazer esse que serve de critério de autenticidade dos valores, na vida moral. . *Aurora Bernardini é escritora, tradutora e professora de russo na USP.
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