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O CIDADÃO OSCAR WILDE REVISTO POR JAMES JOYCE
Por: Dirce Waltrick do Amarante*

Comemoraram-se, no último dia 16 de outubro, os 150 anos de nascimento do escritor, dramaturgo e poeta irlandês Oscar Wilde, autor de obras-primas como O retrato de Dorian Gray e Salomé .

Para lembrar a data, oferecemos ao leitor do DC Cultura um ensaio sobre Wilde, escrito por James Joyce, seu compatriota, em Trieste (Itália), onde residiu por muitos anos. Nele, Joyce reflete, a partir da sorte de Wilde, sobre o espírito irlandês em face da dominação inglesa.

“Oscar Wilde:O Poeta de Salomé "” é ainda inédito no Brasil e integrará uma antologia de ensaios críticos de Joyce sobre estética e política, que estamos preparando e traduzindo para a Editora Iluminuras, de São Paulo. (Dirce Waltrick do Amarante)



OSCAR WILDE: O POETA DE “SALOMÉ”

1909

Oscar Fingal O`Flahertie Wills Wilde. Esses foram os títulos altissonantes que, com exagerado orgulho juvenil, ele gravou na página de rosto de sua primeira coleção de poemas, e, nesse gesto vaidoso, através do qual tentou alcançar notabilidade, estão os sinais de sua vaidosa ambição e da sorte que já o esperava. Seu nome o simboliza: Oscar, sobrinho de rei Fingal e filho único de Ossian, na amórfica Odisséia céltica, foi morto traiçoeiramente pela mão de seu anfitrião, quando se sentou à mesa. O`Flahertie, uma selvagem tribo irlandesa cujo destino era investir contra os portões das cidades medievais; um nome que incita terror em homens pacíficos, que ainda recitam, entre pragas, o ódio a Deus e ao espírito de fornicação, uma antiga ladainha dos santos: “dos selvagens O`Flaherties, libera nos Domine”. Como aquele Oscar, encontrou sua morte pública na flor da sua idade, quando se sentou à mesa, coroado com falsas folhas de videira e discutindo Platão. Como aquela tribo selvagem, estava para quebrar a lança de seus paradoxos naturais contra as convenções sociais e ouvir, como um exilado desonrado, o coro de virtuosos recitar seu nome junto àqueles imorais.

Wilde nasceu na sonolenta capital irlandesa, cinqüenta e cinco anos atrás. Seu pai era um eminente cientista, que tem sido chamado o pai da moderna otologia. Sua mãe, que participou do movimento revolucionário literário de 48, escrevia para o jornal nacionalista sob o pseudônimo de “Speranza”, e incitou o povo, nos seus poemas e artigos, a apoderar-se do castelo de Dublin. Existiram acontecimentos relacionados à gravidez da senhora Wilde e à infância de seu filho que, na opinião de alguns, explicam em parte a mania infeliz (se pode se chamar assim) que mais tarde o arrastou para a ruína; e, ao menos, é certo que a criança cresceu numa atmosfera de insegurança e prodigalidade.

A vida pública de Oscar Wilde começou na Universidade de Oxford, onde, na ocasião de sua matrícula, um pomposo professor chamado Ruskin estava orientando uma multidão de adolescentes anglo-saxões para a terra prometida da futura sociedade – atrás de um carrinho de mão. O temperamento suscetível de sua mãe reviveu no jovem homem, e, começando com ele mesmo, resolveu pôr em prática uma teoria de beleza que era em parte original e em parte derivada dos livros de Pater e Ruskin. Ele provocou as zombarias do público, proclamando e fazendo uma reforma no vestuário e na aparência da casa. Fez viagens de conferências nos Estados Unidos e nas províncias inglesas e tornou-se o porta-voz da escola estética, enquanto em torno dele estava se formando a fantástica lenda do Apóstolo da Beleza. Seu nome evocava na opinião pública uma vaga idéia de pastéis delicados e vida ornamentada de flores. O culto ao girassol, sua flor favorita, difundiu-se entre a classe desocupada, e as pessoas humildes ouviram falar da sua famosa bengala de marfim, cravejado de pedras turquesas, e do seu penteado neroniano.

O sujeito desse quadro brilhante era mais miserável do que pensavam os burgueses. De tempos em tempos suas medalhas, troféus de sua juventude acadêmica iam para a casa de penhores, e às vezes a jovem esposa do epigramatista tinha que emprestar de um vizinho dinheiro para pagar um par de sapatos. Wilde foi obrigado a aceitar uma posição como editor de um jornal bastante insignificante, e somente com a apresentação de suas brilhantes comédias ele entrou para a última curta fase de sua vida – luxo e prosperidade. Lady Windermere`s Fan (O Leque de Lady Windermere) tomou Londres de assalto. Com as características principais dos escritores irlandeses de comédia, dos dias de Sheridan e Goldsmith até Bernard Shaw, Wilde tornou-se, como eles, o bobo da corte dos ingleses. Ele se tornou o modelo de elegância na metrópole, e a renda anual de seus escritos chegava a meio milhão de francos. Ele dissipou sua riqueza com uma série de amigos desprezíveis. Toda manhã comprava duas flores caras, uma para si mesmo e outra para seu cocheiro; e, até o dia de seu sensacional julgamento, ele foi conduzido à sala do tribunal por uma carruagem puxada por dois cavalos, com seu cocheiro brilhantemente vestido e um pajem empoado.

Sua queda foi saudada com um grito de alegria puritana. Com a notícia de sua condenação, a multidão reunida do lado de fora da sala do tribunal começou a dançar uma pavana na rua enlameada. Repórteres de jornal eram admitidos na prisão e, através da janela de sua cela, eram alimentados com o espetáculo de sua vergonha. Faixas brancas encobriam seu nome nos cartazes dos teatros. Seus amigos o abandonaram. Seus manuscritos foram roubados, enquanto ele próprio narrava na prisão o sofrimento que lhe havia sido infligido durante os dois anos de trabalhos forçados. Sua mãe morreu na obscuridade. Sua mulher morreu. Foi declarada a sua falência e seus bens foram vendidos em hasta pública. Foi despojado de seus filhos. Quando saiu da prisão, assassinos incitados pelo Marquês de Queensbury esperavam de tocaia por ele. Foi perseguido de casa em casa, como cachorros perseguem um coelho. Um após o outro lhe fechavam a porta, recusando-lhe comida e abrigo, e, ao anoitecer, ele finalmente acabou debaixo das janelas de seu irmão, chorando e balbuciando como uma criança.

O epílogo chegou rapidamente a seu fim e não vale a pena o esforço de seguir o homem infeliz, dos bairros pobres de Nápoles até seus pobres alojamentos no Quarteirão Latino, onde morreu de meningite no último mês do último ano do século dezenove. Não vale a pena o esforço de segui-lo, como espiões franceses. Ele morreu Católico Romano, acrescentando outra faceta a sua vida pública, pelo repúdio a sua doutrina selvagem. Depois de ter zombado dos ídolos do mercado, dobrou seus joelhos, triste e arrependido de ter sido certa vez cantor da divindade do prazer, e fechou o livro da sua rebelião de espírito com um ato de dedicação espiritual.

* * * *
Aqui não é o lugar para examinar o estranho problema da vida de Oscar Wilde, nem para determinar até que ponto a hereditariedade e a tendência à epilepsia do seu sistema nervoso podem escusá-lo daquilo que tem sido imputado a ele. Se era inocente ou culpado das acusações aduzidas a ele, foi indubitavelmente um bode expiatório. Seu maior crime foi o de ter causado um escândalo na Inglaterra, e é bem sabido que as autoridades inglesas fizeram todo o possível para persuadi-lo a fugir antes de emissão da ordem da sua prisão. Um empregado do Ministério das Relações Interiores declarou durante o julgamento que, somente em Londres, havia mais de 20.000 pessoas sob vigilância policial, mas permaneciam livres até provocar um escândalo. As cartas de Wilde para seus amigos foram lidas no tribunal e seu autor foi declarado um degenerado, obcecado por perversões exóticas: “O tempo luta contra você; tem ciúmes de seus lírios e suas rosas”, “Gosto de ver você vagando através dos vales de faixas violetas, com seu cabelo cor de mel cintilando”. Mas a verdade é que Wilde, longe de ser um monstro perverso que emergiu de algum modo inexplicável da civilização da moderna Inglaterra, é o produto lógico e inevitável da academia anglo-saxônica e do sistema universitário, com seus segredos e restrições.
 
A condenação de Wilde pelo povo inglês provém de muitas causas complexas, mas não foi uma simples reação de uma consciência pura. Qualquer um que examine os grafites, os desenhos livres, os gestos lascivos dessas pessoas hesitarão em julgá-los puros de coração. Qualquer um que siga de perto a vida e a linguagem dos homens, quer em quartéis de soldados ou em grandes casas de comércio, hesitarão em acreditar que todos aqueles que jogaram pedras em Wilde eram, eles mesmos, imaculados. De fato, todos se sentem inconfortáveis ao falar sobre esse assunto, com medo que seu ouvinte possa saber mais sobre isso do que ele. A defesa do próprio Oscar Wilde no Scout Observer deve permanecer válida na opinião de uma crítica objetiva. Todos, escreveu, vêem seu próprio pecado em Dorian Gray (o herói do romance mais conhecido de Wilde). Qual foi o pecado de Dorian Gray, ninguém diz e ninguém sabe. Qualquer um que o reconheça o terá cometido.
Aqui tocamos no pulso da arte de Wilde – pecado. Enganou a si mesmo acreditando que era o portador da boa nova de um neopaganismo para um povo escravizado. Suas próprias qualidades distintivas, as qualidades, talvez, da sua raça – perspicácia, generosidade e um intelecto assexuado –, ele as colocou a serviço de uma teoria de beleza, que, de acordo com ele, reviveria a Idade do Ouro e a alegria do mundo juvenil. Mas, se alguma verdade apóia suas interpretações subjetivas de Aristóteles, seu pensamento indócil que procede por sofismas em vez de silogismos, suas assimilações de naturezas tão estranhas a sua própria, quanto o delinqüente o é para o humilde, exatamente nesta base está a verdade inerente à alma do catolicismo: que o homem não pode alcançar o coração divino exceto através desse sentimento de separação e liberdade chamado pecado.
 
* * * *
No seu último livro, De Profundis , ele se ajoelha diante de um Cristo gnóstico, ressuscitado das páginas apócrifas de The House of Pomegranates , e, então, sua verdadeira alma, trêmula, tímida e entristecida, brilha através do manto de Heliogábalo. Sua fantástica lenda, sua ópera - uma variação polifônica sobre a harmonia da arte e da natureza, mas ao mesmo tempo uma revelação de sua própria psique –, seus livros brilhantes, cintilando com epigramas (que o fizeram, na opinião de algumas pessoas, o orador mais perspicaz do século passado), estes são agora a pilhagem dividida.
Um versículo do livro de Jó está gravado na sua lápide, no empobrecido cemitério em Bagneux . Ele louva sua simplicidade, “eloquium suum”, - o grande manto legendário que agora é uma pilhagem compartida. Talvez o futuro também grave lá outro versículo, menos soberbo, porém mais piedoso:
Partiti sunt sibi vestimenta mea et super
Vestem meam miserunt sortis.
James Joyce
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* Dirce Waltrick do Amarante é tradutora e doutoranda na UFSC, onde desenvolve uma pesquisa sobre o nonsense de Edward Lear.
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Publicado originalmente sob o título “Oscar Wilde: Il Poeta di “Salome”, no Il Piccolo della Sera , Trieste, 24 de março de 1909. O artigo foi escrito por ocasião da performance de Salomé , de Strauss, em Trieste.
A senhora Wilde queria tanto que seu segundo filho fosse uma menina que conversava com a futura criança como se se tratasse de uma menina e se preparou para ter uma filha. Quando Oscar Wilde nasceu, ela ficou amargamente desapontada.
Ruskin punha seus pupilos a construir estradas com o objetivo de melhorar o país.
Pai do Lorde Alfred Douglas.
Salomé .
Wilde hoje está enterrado num famoso cemitério parisiense: “Père Lachaise”. (N. do T.)
“Repartirão entre si os mesmos vestidos, e lançarão sorte sobre a minha túnica” (Salmo 21:19).

 

 

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