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O LEGADO HUMORADO E SARCÁSTICO DE LIGETI
Por: Sérgio Medeiros*

O cultuado compositor morreu em Viena no dia 12 de junho

Quando soube da morte recente, aos 83 anos de idade, do compositor Györgi Ligeti, nascido na Hungria e naturalizado austríaco (durante a Segunda Guerra sua família foi enviada a um campo de concentração, em razão de sua ascendência judaica), pensei imediatamente em duas obras suas, que quis reouvir porque elas poderiam oferecer, se fruídas em seqüência, uma síntese possível da obra desse compositor que sempre admirei e que muitas vezes usou o absurdo e o bizarro em suas numerosas composições vocais e instrumentais, a fim de retratar o mundo em que vivemos.

A primeira dessas obras que me veio à lembrança foi sua ópera em quatro cenas, Le Grand Macabre (1978), a qual, quando ouvi pela primeira vez, me pareceu comparável, pela agilidade da linguagem, à maior de todas as óperas do século XX, a cinematográfica (refiro-me aqui à alternância eletrizante de cenas, que é sua inovação estilística) Wozzeck, de Alban Berg. Mas, em vez da dilacerante tragédia moderna retratada nesta, Ligeti nos oferece, em sua ópera (rememoro ainda a minha primeira impressão), uma colagem musical deliciosa e inclassificável, grotesca às vezes, outras vezes jocosa, que se propõe a retratar um reino à beira do apocalipse, misturando diálogos e árias, fala e canto (alguns trechos falados foram posteriormente retirados do libreto pelo próprio compositor, insatisfeito com os “vazios” musicais da obra). A ópera, ou antiópera, que estreou em Estocolmo causando perplexidade, foi depois montada em outros grandes palcos europeus, adquirindo, em cada uma dessas ocasiões, características estéticas particulares, como se fosse difícil um acordo entre os diferentes diretores sobre a melhor maneira de encená-la. O próprio Ligeti preferia a montagem de Bolonha, que estreou em língua italiana em 1979 e que optou por uma encenação “galhofeiramente pornográfica” (há na obra, por exemplo, um casal de hermafroditas que procura um lugar para fazer amor e que acaba optando sintomaticamente por um túmulo).

O prelúdio de Le Grand Macrabe foi composto para 12 buzinas de automóvel, mas essa não é a maior das surpresas que essa ópera nervosa e heteróclita revela a quem se disponha a ouvi-la (ela está felizmente disponível em CD: tenho, por exemplo, uma gravação feita ao vivo em fevereiro de 1998, no Théâtre du Châtelet, Paris, que me parece excelente). Há duetos impagáveis, cenas sado-masoquistas explícitas, uma aranha horripilante, tilintar de campainhas elétricas, um cavalo de pau onde um príncipe debilóide se exercita, uma manifestação política que ameaça a ordem pública, uma autoridade policial disfarçada em polvo, um cometa e, logo depois, um apocalipse à meia-noite, ao qual surpreendentemente o príncipe, que está sempre faminto e por isso só pensa em comida, sobrevive. No Kobbé: O Livro Completo da Òpera, editado no Brasil por Jorge Zahar Editor, lemos que “Le Grand Macabre (que talvez pudesse ser traduzido como O Grande Cavaleiro do Apocalipse) é, como tem sido observado, uma ópera para uma época sem respostas, uma ópera sobre o sexo e a morte, na qual a única vítima do holocausto é aquele que traz a morte”. Nas mãos de Ligeti, como já se disse, a ópera contemporânea sobreviveu ao apocalipse, tal como o príncipe do cavalo de pau, mencionado acima. Segundo o Dicionário Grove de Música (Jorge Zahar Editor), trata-se de uma obra surrealista, acima de tudo.

Como Ligeti é um compositor do pós-guerra, poderia falar agora de sua filiação estética, mencionando pontilhismo, estilo instrumental fragmentado, textura no formato de mosaico, em suma, poderia me deter aqui nas técnicas musicais que floresceram justamente na segunda metade do século XX, as quais foram também adotadas por Ligeti e deram bons frutos nas suas mãos, assim como deram bons resultados nas mãos de seus companheiros de geração, como Boulez e Stockhausen, todos eles discípulos, por assim dizer, de Anton Webern e representantes do chamado novo serialismo. No entanto, como disse que me limitaria a discutir, nesta nota, apenas duas obras do consagrado compositor (sua produção diversificada, que já foi usada como trilha sonora – em, por exemplo, 2001 – Uma Odisséia no Espaço --, inclui música para órgão, música coral, música de câmara etc.), prefiro me remeter diretamente, sem preâmbulos, a outra peça radical e humorística, peça de sonoridade inconfundivelmente mecânica, Poème Symphonique (1962), para 100 metrônomos dispostos no chão em semi-círculos. Uma música-performance para ver e ouvir, que foi composta quando Ligeti fazia parte do movimento Fluxus. O fundador desse movimento de arte experimental, George Maciunas, se serviu de um argumento eloqüente para arregimentar o compositor: “Ligeti, I want you.” Assim, o peça sinfônica descrita acima é uma obra Fluxus e, portanto, um autêntico happening da década de 1960, implicando uma cerimônia, um ritual que envolve vários executantes. Mas a apresentação também pode ser feita de forma simplificada, e sem perder a eficácia, por um só performer. O quinto volume das obras completas de Ligeti, lançado pela Sony, contém uma boa execução da peça, Françoise Terrioux operando os metrônomos. Numa sala de concerto, os metrônomos devem ser acionados antes de a audiência entrar no recinto, pois, como desejava o compositor, só assim os metrônomos e os ouvintes se confrontarão diretamente, sem a mediação de um ser humano. Eis uma música extraordinária que evolui como uma máquina, uma das músicas do século XXI.

* Autor do livro de poesia Alongamento (Ateliê, 2004) e professor de literatura na UFSC

 

 

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