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ESTRUTURAS E FRONTEIRAS:O(PÓS-)ESTRUTURALISMO
Por: Sérgio Medeiros

Apresentar e discutir os fundamentos da análise morfológica ou estrutural de contos indígenas e populares pode parecer um exercício enfadonho de arqueologia, pois consistiria à primeira vista em expor propostas engavetadas há décadas. Aceitarei esse desafio, por estar convencido de que vale a pena reviver um instrutivo paradoxo teórico e situar a análise estrutural depois da análise pós-estrutural e não antes, como costumeiramente se fez.

Por que não considerar o texto e sua singularidade, sem se preocupar com categorias gerais e classificações definitivas? Basta embaralhar a cronologia e ver retrospectivamente o passado como presente, sem cair, porém, num conservadorismo teórico tacanho. Pode-se recorrer à inversão cronológica e ao paradoxo (admitido, aliás, por certos teóricos norte-americanos alinhados à “etnopoética”, ou pós-estruturalismo, escola que reivindica a primazia da voz e do texto) para reavaliar teorias e sua aplicação real e virtual.

Passo aos fatos históricos. Depois embaralharei a cronologia, ou trocarei algumas coisas de lugar, propondo um diálogo franco entre crítica e poética.

Quando Alan Dundes publicou em 1964, nos Estados Unidos, sua tese estruturalista Morfologia dos contos indígenas norte-americanos, a situação dos estudos de mitologia no seu país era esta, na avaliação dele: os especialistas se dedicavam a coletar mitos, mas davam pouca ênfase à classificação e análise desse material. Essa análise, defendida por Dundes, abrangeria o estudo da estrutura, da função e da origem dos mitos.

Nas décadas seguintes, passado o auge do estruturalismo, deu-se enfim maior importância, como sabemos, à contextualização histórica, a qual permeou os chamados estudos culturais, com ênfase no narrador, sua performance e suas ideologias.

Ao fazer o balanço da situação à época dos estudos estruturais, na década de 1960, Dundes mostrou que o progresso na área da classificação dos mitos havia avançado pouco desde Boas, por exemplo, e isso teria ocorrido justamente devido ao escasso interesse pela análise estrutural ou morfológica dos mitos, que, de acordo com a visão de Dundes, era um pré-requisito tanto para a elaboração de uma tipologia quanto para um estudo genético-histórico da tradição oral indígena.

Não é difícil perceber que Dundes se filia a uma linha de pesquisa iniciada pelo estudioso russo V.I. Propp, que em 1928 publicou o livro Morfologia do conto maravilhoso, no qual são expostas pela primeira vez as diretrizes básicas da análise estrutural dos contos populares.

Nas páginas iniciais do seu trabalho Propp já afirmava: “O estudo da estrutura de todos os aspectos do conto maravilhoso é a condição prévia absolutamente indispensável para seu estudo histórico. Os estudos das leis formais pressupõe o estudo das leis históricas.” É oportuno lembrar que Propp, em 1946, publicou em Leningrado (hoje S. Petersburgo) um estudo intitulado Raízes históricas do conto de magia, que se apresentava como um complemento ao trabalho anterior. Propp foi coerente, portanto, com seu projeto: primeiro, realizou a análise morfológica do conto maravilhoso, após o que, numa segunda etapa, traçou a sua gênese e evolução, inserindo as unidades formais da análise morfológica num contexto histórico abrangente.

Dundes levou adiante esse projeto quando, décadas depois, analisou outro material narrativo, os mitos indígenas, usando o mesmo procedimento de Propp. Mas o que é, para ambos, uma descrição morfológica? Em primeiro lugar, é necessário esclarecer que Propp faz a distinção, ao analisar dos contos russos de magia, entre elementos variáveis e elementos invariáveis. Ele classificou como variáveis, conforme se sabe, os atributos dos personagens, que se alteram de conto para conto. Contudo, se cada personagem é mutável na aparência, sua função se conserva a mesma em todos os relatos: por isso, o herói age sempre dentro de determinada esfera de ações que lhe é própria, enquanto o vilão, por seu lado, atua necessariamente apenas na esfera que lhe corresponde no cômputo geral das ações narrativas. É óbvio que essa oposição esquemática entre herói e vilão, aceitável num plano da análise, o dos princípios metodológicos, pode, em outro plano, o da aplicação prática, revelar-se bastante problemática, sobretudo quando se procede à análise de outra tradição literária. O herói e vilão não se distinguem como pólos opostos, em certas narrativas ameríndias. Contudo, Propp não trabalhou com essa tradição narrativa, que ele não chegou a estudar, coube então a Alan Dundes fazê-lo por iniciativa própria.

Ao término de sua análise Propp apresentou a conhecida seqüência de 31 funções, as quais são desempenhadas nos relatos estudados por ele por sete personagens. Essa seqüência padrão foi denominada então de modelo narrativo dos contos maravilhosos ou de magia. A definição morfológica do que é conto consistiu, portanto, em estabelecer um modelo ou arquétipo, construído a partir da exaustiva comparação dos contos entre si. A análise, em suma, permitiu o levantamento e a classificação das unidades invariáveis (as que importam), ou seja, levou á decifração das funções dos personagens, finalmente reunidas numa única seqüência canônica.

No ensaio “From Etic to Emic Units in the Structural Study of Folktales”, publicado em 1962, Alan Dundes considerou a definição de função narrativa, proposta pelo estudioso russo, a contribuição mais importante e revolucionária surgida até aquele momento no âmbito dos estudos dedicados à literatura oral. Conforme já mencionei, Propp havia trabalhado com um corpus constituído por contos indo-europeus, enquanto que Dundes se voltou para o estudo dos mitos indígenas norte-americanos. Mas, se por um lado, Dundes adotou em sua análise desse material o mesmo procedimento do precursor russo, mantendo-se sempre na trilha aberta por ele, por outro lado, declarou que não esperava chegar ao mesmo arquétipo narrativo de 31 funções, como fundamento estrutural dos contos indígenas.

O conto indígena possui certas peculiaridades estruturais que não podem ser desconsideradas. Aqui passamos para o nível da singularidade dos relatos, para as suas diferenças específicas, abandonando por um momento a busca das leis gerais, dos arquétipos universais. Nesse momento em que o etnocentrismo vacila e as narrativas do mundo se diversificam, revelando-se irredutíveis umas às outras em certos aspectos, pelo menos no nível empírico, parece que o pós-estruturalismo surge como uma alternativa teórica válida. Inclusive, neste caso, ele precederia necessariamente o estruturalismo, na medida em que é sua função apontar as diferenças, por meio da consideração do texto em si. A estrutura seria buscada dentro da diferença, ou sempre em nome das diferenças. Adentra-se cada vez mais no campo da análise literária, aparentemente.

Dundes menciona, por exemplo, a inexistência de uma dicotomia entre herói e vilão, a qual, no entanto, é típica dos contos indo-europeus. Segundo suas palavras: “A análise de Propp, evidentemente, tomava como objeto os contos de fadas russos, os quais, como a maioria dos contos indo-europeus, contêm elementos do tradicional dualismo entre bem e mal, entre herói e vilão. Tal dualismo não aparece nos contos indígenas, como uma regra.” E acrescenta: “Muitos estudantes do folclore ameríndio sentem-se perturbados ante o fato de que o caráter dos personagens não é nem bom nem mau, mas uma curiosa mistura desses valores morais” (DUNDES 1964 p.72).

Cabe-nos concluir que o método de Propp foi desconstruído quase naturalmente e expôs o seu cerne eurocêntrico. Diante disso, como pôde Dundes ainda insistir em usar o arquétipo proppiano para ler e classificar os relatos ameríndios? Cegueira ideológica e estética? Ou haveria ainda uma justificativa metodológica convincente para tentar adaptar o modelo russo, visando sua aplicação à leitura e classificação de outras narrativas? Não seria aceitável, porém, simplificar o modelo russo, porque isso implicitamente significaria afirmar que os relatos do Novo Mundo são mais singelos ou pobres, demandando um modelo estrutural “destituído de complexidade”. O pós-estruturalismo sempre caminhou no sentido oposto, em sua tentativa de mostrar ou revelar a disseminação infinita dos sentidos como decorrente da complexidade e da imprevisibilidade da forma. Se não há línguas primitivas, também não há relatos primitivos e, por conta disso, não precisamos de modelos estruturais simplificados. As estruturas são sempre de grande complexidade. Precisamos talvez de modelos diferenciados, que permitam focalizar os textos de diferentes perspectivas e, assim, recuperar sua riqueza intrínseca. Por isso, simplificar um modelo europeu, visando usá-lo para ler narrativas remotas, parece no mínimo acintoso, hoje. Daí o seguinte paradoxo: para aplicarmos bem o estruturalismo, precisamos agir sempre como pós-estruturalistas. O pós-estruturalismo vem necessariamente antes do estruturalismo.

Dundes estava ciente de que a seqüência de ações ou funções descrita por Propp pressupõe um tipo particular de herói, o qual não pode ser simplesmente eleito modelo universal. Resumidamente, nas próprias palavras do autor russo, a seqüência original começa “com uma diminuição ou dano causado a alguém (rapto, expulsão do lar etc.), ou então com o desejo de possuir algo (o rei ordena ao filho que traga o pássaro de fogo), e evolui através da partida do protagonista do lar paterno, que vai ao encontro do doador e este lhe oferece um instrumento encantado ou um ajudante por meio do qual obterá o objeto de sua busca. Mais adiante, o conto apresenta um duelo com o adversário (a forma principal é o duelo com a serpente), o regresso e a perseguição. Com freqüência, este entrecho apresenta determinadas complicações. Ao regressar ao lar, o protagonista á atirado num precipício por seus próprios irmãos. Mais adiante reaparece, se submete a uma prova realizando atos difíceis, sobe ao trono e contrai matrimônio, no seu próprio reino ou no reino do seu sogro” (PROPP s/d p. 17)..

São evidentes os valores ideológicos que se abrigam por detrás dessa “biografia” do herói: este deve ser moço, corajoso, bem-apessoado, porque, do contrário, não estaria apto para salvar a princesa nem seria considerado digno de merecer a sua mão e de governar um reino. Dificilmente depararemos com esse tipo de herói nas cosmogonias indígenas.

Tomemos, à guisa de exemplo, o corpus mitológico brasileiro. Na mitologia jê, que engloba a tradição oral dos xavantes, caiapós, timbiras etc., o herói das narrativas pode ser um personagem completamente destituído de grandes valores morais ou atributos físicos excepcionais – é bastante comum, por exemplo, que o papel de protagonista seja assumido por crianças perdidas na mata ou por velhos alquebrados, que não podem enfrentar um inimigo ou oponente, a não ser fugir deles. Analisei esse paradigma no meu livro O dono dos sonhos, de 1991, no qual me debrucei sobre os mitos xavantes, índios que vivem no Centro-Oeste. Ao que tudo indica, para os povos jês o herói poderia ser definido como um personagem que, ao se afastar da aldeia, descobre causalmente um determinado bem/valor cultural e vive uma importante experiência mística, que redundará num enriquecimento íntimo. É aqui que reside parte da complexidade estrutural dos relatos indígenas.

Entramos agora, como afirmam certos estudiosos da cosmogonia amazônica (não-jê, portanto), no universo da “subjetividade não-humana”, que pressupõe uma fronteira porosa entre o humano e o não-humano. Há, no encontro do herói ameríndio com o outro (espírito, animal, divindade), um estranho embaralhamento das perspectivas. Nada é inteiramente nítido ou inequívoco nesse mundo dos encontros sobrenaturais, onde onça é gente, ou os animais são gente, e a dicotomia natureza/cultura estremece, se fragiliza ou se descontrói por si mesma. Os relatos indígenas oferecem “o ponto de vista” do animal, o “ponto de vista” dos vegetais etc. Será que o modelo de narrativa que comentamos acima é capaz de dar conta dessa complexa visão de mundo que toca no coração do nosso logocentrismo, o qual aceita a cesura ontológica ou a fronteira rígida e contínua entre o humano e o não-humano? Essas questões são não apenas literárias, mas também filosóficas, e não podem ser deixadas de lado. Não é naturalmente simplificando o modelo de Propp que se vai conseguir um instrumento analítico adequado para descrever essas trocas e mesclas de perspectivas, que a experiência heróica indígena expressa na forma de metamorfoses e condensações inusitadas.

Um dos esforços do pós-estruturalismo tem sido justamente levantar essas mesclas, essas mudanças de perspectiva ou de visões de mundo, a fim de dar conta do complexo papel da subjetividade nesses relatos. Poder-se-á, talvez, tomando como referência o pós-estruturalismo, fazer uma análise estrutural mais proveitosa, mais ambiciosa e também mais realista, que não insista no princípio de que existem relatos simples ou singelos, e que esses são justamente os relatos do outro, os relatos remotos ou indígenas.

O herói jê volta para casa, após uma estada longa ou breve na casa do outro. Essa casa poderá estar na terra ou no céu. O herói volta, dizia, reencontra seus antigos companheiros e lhes revela sua aventura solitária. Os guerreiros então se reúnem, fazem uma excursão planejada ao território do outro e tomam posse de um bem cultural (por exemplo, o fogo), descoberto ali pelo herói. Para a literatura ameríndia que estou discutindo, como se percebe, o herói forte ou excepcional, conquistador, é a coletividade, o grupo, enquanto que o personagem isolado é, quando muito, um mensageiro, um elo, mas não aquele que realiza, sozinho, um grande feito épico de conquista. Contudo, esse mesmo mensageiro é capaz de ver o mundo com os olhos do outro e de penetrar no seu universo, realizando o grande feito de mudar de perspectiva. Assim, temos aqui aparentemente dois tipos de herói, que atuam em níveis distintos e colaboram um com o outro – o solitário, que age no mundo sobrenatural; e o coletivo, que age no mundo cotidiano. O feito heróico de ambos é distinto, mas um complementa o outro e, no final, uma conquista é realizada pela coletividade como um todo.

Do arquétipo narrativo proppiano, resumido anteriormente, Dundes retoma as duas funções mais importantes, ou seja, a carência ou dano e a reparação da carência, empregando, porém, outra terminologia. O estudioso norte-americano afirma que constatou, por exemplo, no relato mais simples do seu corpus, a passagem de um estado de desequilíbrio para um estado de equilíbrio. A partir dessas duas funções nucleares, ele passou a elaborar alguns modelos narrativos, mas, garante Dundes, nenhum deles é tão complexo quanto a seqüência de 31 funções de Propp.

Essa conclusão de Dundes é difícil de demonstrar, acredito. Parece, antes, um credo etnocêntrico, que vê a narrativa remota como obrigatoriamente simples, singela. Contra isso se insurge toda a pesquisa pós-estruturalista, como já comentei aqui. Para corrigir tal falha, ou evitar que se caia mais uma vez nesses preconceitos, a saída parece óbvia: conviver longamente com as narrativas indígenas, a fim de detectar intuitivamente suas características mais marcantes, no plano literário, filosófico e ideológico; apenas numa segunda etapa proceder-se-ia à descrição de possíveis modelos formais. Ou seja, a abordagem pós-estruturalista deve necessariamente preceder a abordagem estruturalista. É preciso ler as narrativas com o corpo e, só depois, com o intelecto, ou, de preferência, com os dois. Diria, seguindo Barthes, que talvez falte a experiência do prazer e do gozo na nossa apreensão da literatura indígena. O sentimento de dever não basta mais.

É célebre a leitura que Claude Lévi-Strauss fez do modelo analítico de Propp, na qual ele procura mostrar, entre outras coisas, que a meta anunciada pelo estudioso russo de elaborar um arquétipo narrativo abstrato, trabalhando com unidades formais com exclusão dos valores semânticos, não teria logrado impedir que a seqüência de 31 funções reabsorvesse todo um conteúdo que supostamente não deveria estar ali. Nas palavras do etnólogo francês, era inevitável que isso acontecesse, pois, “a não ser que reintegre sub-repticiamente o conteúdo na forma, esta é condenada a permanecer em tal nível de abstração que perde todo o significado, e, além disso, não tem valor heurístico” (LÉVI-STRAUSS 1984 p . 195).

Creio que Lévi-Strauss apontou para uma questão crucial, a qual tentei acima mostrar. É preciso voltar ao objeto, à textura, à ideologia, é preciso, em suma, recontextualizar a estrutura. Então, neste caso, a análise estrutural teria sido feita cedo demais. Sobretudo se considerarmos a proposta de Dundes, que é, como vimos, a de usar o modelo morfológico para ler e classificar as narrativas indígenas, consideradas mais simples que as narrativas populares indo-européias.

Minuciosa e iluminadora, não sei até que ponto a leitura de Lévi-Strauss faz justiça ao trabalho de Propp – contudo, o seu reparo, resumido acima, é pertinente, sobretudo porque não podemos fechar os olhos para a natureza (substância e forma) do herói russo, desdenhando sua especificidade estética e histórica. Certos valores ideológicos e formais, como apontou Lévi-Strauss, incorporaram-se na seqüência de 31 funções. A separação entre unidades formais (as funções) e as unidades semânticas (motivações e atributos) é, pois, uma questão a ser reconsiderada, se possível de uma perspectiva pós-estrutural.

Ao adotar uma terminologia diferente da empregada por Propp, Dundes visava realizar justamente esse diálogo entre as unidades estruturais e semânticas. Faltou a ele, porém, uma visão pós-estrutural, uma visão mais literária e aberta da literatura indígena. Dundes é excessivamente estruturalista, não deixando espaço para um pós-estruturalismo avant la lettre que pudesse, ainda que incipiente, matizar sua análise mais energicamente estrutural.

Gostaria de retomar a afirmação de Dundes de que, até o final de década de 1950, os especialistas dedicavam pouca ênfase à classificação e à análise do corpus mitológico indígena. A partir de 1964, tomando como ponto de partida um mito bororo, Lévi-Strauss começou a publicar as famosas Mitológicas, um estudo monumental em quatro alentados volumes. Mais recentemente, em 1991, ele publicou Histoire de lynx, no qual se debruça sobre seus trabalhos anteriores e reafirma os seus postulados e as suas conclusões. Lendo-se esse trabalho mais recente, é fácil constatar que Lévi-Strauss bebeu em fontes russas, e não só em Propp: ele deve também muito ao lingüista Roman Jakobson. Freud é outro nome que marcou bastante o pensamento de Lévi-Strauss.

Ao estudar os mitos indígenas de uma perspectiva estrutural que engloba tanto Freud como Jakobson, Lévi-Strauss deixa transparecer que não está interessado em elaborar um arquétipo narrativo de tipo proppiano, mas em desvendar certos padrões pré-conscientes do pensamento indígena. Ou seja, o ponto crucial da sua análise não é a estrutura narrativa (uma seqüência de funções), mas aquilo que está por trás dela e a organiza, isto é, um modelo lógico. Esse modelo lógico não é o modelo da ciência européia, pois trabalha com termos concretos e não com conceitos abstratos. Lévi-Strauss procura, assim, definir uma especificidade, uma maneira própria de pensar, sem, no entanto, concluir que esse pensamento se situa num nível lógico infantil nem que seja ineficaz, se comparado ao ocidental.

O mérito de Alan Dundes, conforme mostrei, foi o de tentar adaptar a análise morfológica russa, a fim de torná-la também um instrumento para analisar relatos ameríndios. Desconfiamos, porém, da concepção de narrativa simples de Dundes. Ela parece insustentável, à luz de uma posição pós-estrutural.

A relação invertida entre estruturalismo e pós-estruturalismo, resumida neste ensaio, é decisiva. Um jogo teórico de ricas implicações. Concluo com Dell Hymes que, realmente, a primeira preocupação da análise estrutural das narrativas indígenas deveria ser preservar a integridade do objeto, assim como Lévi-Strauss, parece-me, preocupou-se em preservar a mentalidade indígena, estudando aquilo que ela tem de mais específico em relação ao pensamento ocidental.

No entanto, o que é a integridade do objeto? Onde começa e termina o texto? Há narrativas longas e há narrativas breves, todas íntegras e complexas dentro do seu contexto. Há narrativas plenas e há narrativas vazias. Talvez aqui o fracasso da análise estrutural em capturar uma estrutura fixa e fundadora deva ser justamente o princípio da análise pós-estrutural. O estruturalismo, neste caso, deve necessariamente preceder o pós-estruturalismo, assim como, noutro nível, o pós-estruturalismo obrigatoriamente deve vir antes do estruturalismo, dialogando com ele ou se opondo a ele infinitamente.


BIBLIOGRAFIA


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DERRIDA, Jacques. 1972. La dissemination, Éditions du Seuil, Paris

DUNDES, Alan.1964. The morphology of North American Indian folktales, FF Communications, No. 195, Helsink. (Edição brasileira: Morfologia e estrutura no conto folclórico, Editora Perspectiva, São Paulo, 1996)

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LÉVI-STRAUSS, Claude. 1991. Histoire de lynx, Plon, Paris

-------------------------------. 1984. “A estrutura e a forma”, in Propp, V. Morfologia do conto maravilhoso

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PROPP, Vladimir. 1984. Morfologia do conto maravilhoso, Editora Forense Universitária, Rio de Janeiro

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