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DUCHAMP SOUBE VIVER: BISPO MORRER
Por: Fernando C. Boppré

Duchamp soube viver: Bispo morrer

É possível compará-los?

Fernando C. Boppré, em texto exclusivo, compara Arthur Bispo do Rosário e Marcel Duchamp. Para ele, este conhecia as regras do jogo, aquele a eternidade; um soube morrer, o outro viver. Uma provocação para a seção "Pimenta".

Fernando C. Boppré

 

É possível compará-los? Pela operação: leitura da biografia de Marcel Duchamp (1887-1968), de Calvin Thomkin, mais o vídeo sobre Arthur Bispo do Rosário (1911-1989), realizado por Fernando Gabeira, resultou este exercício anacrônico comparativo. Realmente não seria possível relacioná-los se se mantiver em funcionamento a lógica da história da arte, da crítica ou mesmo das curadorias: ações intelectuais que procedem dentro de uma hermenêutica capaz de apontar coerências em determinados eixos tais como históricos, estilísticos, poéticos, regionais etc.

Aparentemente, nada que ligue Duchamp a Bispo. No entanto, nem que seja pelo acaso, sim, é possível pensá-los.

Duchamp, sobretudo, irônico. Lançou mão do bom humor, do sarcasmo para desconstruir as artes plásticas. Não é possível pensar Duchamp sem considerá-lo um grande erudito, alguém que conhecia, como poucos, a história da arte e as regras do jogo que operavam no circuito artístico. Ele nunca declarou isso, nem poderia fazê-lo, no entanto, absoluta certeza de que o longo período em que trabalhou em bibliotecas foi ocupado com inúmeras leituras sobre arte. Operação duchampiana: erudição + ironia + iconoclastia = combinação explosiva.

Bispo, o sério. O egípcio, como diz o escritor e professor Sérgio Medeiros. Ao ser convidado para uma festa de São João, esbravejou que se tratava de coisa de pagão. Era preciso ver uma cruz que dizia ter nas costas, ao contrário, sequer se dirigiria à pessoa. Acreditava tanto em um céu cristão, com anjos e o Senhor o aguardando, que reordenou o mundo a seu modo em mantos, estandartes - objetos sagrados e militares. Desconhecia a história e o circuito artístico. Não se refletia neles. Seu espelho era outro: o céu. Multiplicação rosariana: insanidade X memória do mundo = algo que não podemos entender.

Memória, para Duchamp, é coisa pouca, fonte de infindáveis jogos de humor (o bigode da Mona Lisa). Para Bispo, é sagrada, deve ser trabalhada para ser apresentada ao Nosso Senhor Jesus Cristo da melhor maneira possível (o estandarte com a memória total do mundo).

Duchamp iconoclasta. Conhecia tanto as regras do jogo, que pôde subvertê-lo. Bispo conservador. Acreditava tanto em um paraíso cristão, que se trancou em um quarto por sete anos para trabalhar e, assim, atingi-lo.

Sem Duchamp, talvez não conhecêssemos a obra de Bispo. Foi aquele quem escancarou as portas por onde entrou a obra de Bispo. Na verdade, Duchamp escancarou as portas do campo estético. Isso refletiu nas artes e não na vida (por mais que a arte contemporânea queira o contrário). Continua um movimento interno, para poucos (mais ainda).

Bispo tão conservador, em sua louca fé cristã, que acabou por subverter - mesmo dentro de uma normatividade estrita - o campo artístico. Bispo não se vê no espelho do circuito artístico. Não precisa disso, mesmo porque não quer subverter. Seu verbo é transcender (palavra expulsa do vocabulário artístico desde os românticos?). Pela ação estética Bispo ganhou o céu. Acharam-no, como um anjo caído, no circuito das artes visuais.

A verdade: interessa-me, em arte, um certo estado febril, estreitamente ligado à memória que retoma a experiência de vida para algo - nem que seja à morte ou a insanidade. É diante da morte que o assombro vislumbra. Bispo tinha a morte ao seu lado. Duchamp não tinha nada disso. Era um jogador de xadrez, pronto para uma próxima partida, que sabia exatamente qual o próximo movimento até arrecadar o xeque-mate. A ironia de Duchamp é de soberba. É preciso lembrar do poeta e crítico Charles Baudelaire (1821-1867), que dizia que o riso é um movimento de superioridade, de arrogância em relação àquilo de que se ri. Sentia-se tão superior àquilo que acontecia no circuito artístico que pôde se divertir as custas disso. Duchamp soube viver. Bispo soube morrer.



Fernando C. Boppré
22/02/2007

 

 

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