Na famosa carta de 27 de maio de 1867, ao seu amigo Eugène Lefébure , Mallarmé afirmou que a sua obra estava sendo escrita por eliminação. A negação estética era a novidade poética do período e teve, como se sabe, grande impacto na arte da primeira metade do século XX. Ou melhor, na arte de todo o século XX. Mallarmé, o Dante da Era Moderna, declarou na referida carta: “A Destruição foi a minha Beatriz.”
Sou leitor de Mallarmé, poeta que releio continuamente, mas, comprometido que estou com a perspectiva histórica, ouso reformular a frase dele, adequando-a à realidade no nosso tempo: “A Multiplicação é a minha Beatriz.”
Acredito que, se devesse definir o meu tempo, o nosso tempo, diria que é o tempo da multiplicação paródica e alucinada, às vezes mecânica e inútil, multiplicação vazia Não estamos mais sob o domínio da poética da subtração, da eliminação. Por pensar assim, escrevi o livro “Multiplicação”, ainda inédito, onde reflito poeticamente sobre essa questão, atribuindo a Camões, por exemplo, a autoria do nouveau roman , essa multiplicação exaustiva da descrição.
A impossibilidade de representar um sublime irrepresentável acabou levando Mallarmé também ao infinito, à multiplicação. No final do seu famoso poema “L" Azur ”, o poeta reconhece que é impossível dizer o indizível: “ Je suis hanté . L" azur ! l" Azur ! l" Azur ! l" Azur !”
Na tradução desse poema sobre o sublime moderno e inumano, Augusto de Campos escreveu simplesmente, assumindo a multiplicação pós-moderna: “O Azul! O Azul! O Azul! O Azul! O Azul! O Azul!”
Isso daí não é Mallarmé, isso daí somos nós, que multiplicamos o mundo e a linguagem, apelando ao seis, ao sete etc. Para Mallarmé, o infinito estava no quatro, bastava o seu poema repetir uma palavra quatro vezes para tudo cair no desespero, no deserto moderno (cf. Pierre Zima ). O poeta impotente e mudo, ou quase mudo, ia assim além do três, o número sagrado, a contagem bíblica.
O pós-moderno, para mim, está resumido nesse verso de Mallarmé, infinito, que Augusto de Campos, nosso irmão mais velho, mais exagerado e dionisíaco do que todos nós juntos, transformou num infinito paródico , mecânico, algo tonto, risível, uma série explícita: azul, azul, azul, azul, azul, azul...
Mallarmé não poderia dizer isso, nós podemos e ficamos balbuciando essas sílabas...
*Sérgio Medeiros é poeta, tradutor e professor de literatura na UFSC