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Florianópolis, 29 de Setembro de 2007

A IMPORTÂNCIA DA LITERATURA. POR QUE DISCUTÍMOS O ÓBVIO?
Por: Dirce Waltrick do Amarante*

Recentemente, lendo Balaio: livros e leituras, de Ana Maria Machado, que a editora Nova Fronteira acaba de lançar no mercado, um tema me chamou a atenção, o da “importância da leitura”, que, embora seja um tópico recorrente nos ensaios que compõem o livro, é tratado, em alguns de seus textos, com certa impaciência pela autora. Em “Hospital da Alma”, por exemplo, texto desenvolvido ao longo de palestras proferidas em diferentes estados do Brasil no ano de 2006, Ana Maria diz que ficava perplexa sempre que era indagada sobre a importância da literatura, perplexidade essa que “deu lugar a uma certa irritação”: “No fundo, ligada à hipótese torta do elitismo da literatura, o que existe é a constatação prévia, óbvia e inescapável: a de que os perguntadores não sabem do que estão falando. Não têm intimidade com livros”. Ana Maria Machado prossegue: “sem esse contato íntimo com a leitura mais refinada e a literatura, recai-se então na situação que comentávamos. Voltamos a tal constatação prévia, óbvia e inescapável: a de que os perguntadores sobre a importância da literatura não sabem do que estão falando.”

A escritora acredita, portanto, que, “em vez de perdemos tempo discutindo se é importante ler, sejamos pragmáticos e aproveitemos todas as oportunidades para pôr professores, jornalistas e burocratas em contato com bons livros. E com a arte, em geral”.

Acredito, no entanto, na importância de reiterarmos a pergunta sobre o valor da Literatura (da boa literatura, com letra maiúscula, como costuma frisar o ensaísta argentino Daniel Link), sempre, mesmo que o tema nos pareça óbvio. É como uma oração que, repetida diariamente, reforça a nossa fé.

De fato, não perguntamos sobre a importância da Literatura à toa, ou por ignorância do assunto. Sabemos, como afirma Ana Maria Machado, num ensaio bem menos intransigente a respeito da questão, “Literatura para Todos”, resultado de uma palestra apresentada no Encontro Anual da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infanto-Juvenil, em 2004 , da necessidade de “(...) substituir o senso comum tradicional por um espírito crítico capaz de formular seus próprios anseios. Sem leitura de literatura, essa meta fica muito distante, se não inatingível. Por mais que hoje tenhamos também outros meios e outras linguagens, nenhuma outra produção cultural tem o potencial do texto literário para desempenhar esse papel. Só a literatura – com o tempo e o ritmo que caracterizam a palavra escrita – permite que  se desenvolva tanto a imaginação do usuário, dando-lhe a possibilidade de criação individual de roteiros improváveis paralelos, enquanto lê. Ou lhe propiciando a simultânea construção imaginária, às vezes até inconsciente, de cenários utópicos sofisticadamente estruturados. Só ela é capaz de acompanhar de dentro a mente de diferentes personagens com visões do mundo variadas, contraditórias e complementares, ou contrapor autores diversos, mas igualmente fortes e sedutores. Com isso, ao mesmo tempo, ela é capaz de ensinar tolerância, respeito à diferença e a capacitar a que se oponham teses distintas e se busquem as sínteses necessárias”.

Apesar da certeza que temos em relação à importância da Literatura, no dia-a-dia os fatos reais nos fazem, por vezes, não exatamente duvidar dela, mas questioná-la.

Ao ler esta semana The Annotated Snark, editado por Martin Gardner, deparei-me com uma nota, reproduzida a seguir, que conta a seguinte história:

“A escritora americana Edith Wharton adorava o poema Snark, de Lewis Carroll, quando ela era uma menininha. Na sua autobiografia, A Backward Glance (1934), páginas 311-12, ela conta um almoço com o Presidente Roosevelt, a quem ela conhecia desde a infância. “Bem”, ele disse, “estou feliz de receber na casa Branca uma pessoa para quem eu possa recitar The Hunting of Snark sem ser perguntado sobre o que estou falando! ... Você não vai acreditar, mas ninguém do governo jamais ouviu falar de Alice, muito menos do Snark, tanto que outro dia, quando eu disse para o Secretário da Marinha: ´Sr. Secretário, o que eu repito três vezes é verdade`, (um verso do poema Snark), ele não reconheceu a alusão e respondeu com ar aflito: ´Sr. Presidente, nunca, nem por um instante, me ocorreria contestar a veracidade do que o senhor afirma’”.

Duas questões interessantes surgem da leitura dessa passagem: a primeira, destaca a menininha Edith Warthon, fã de The Hunting of the Snark (A caça ao Turpente), de Lewis Carroll, que futuramente se tornou uma grande escritora, possivelmente por ter sido desde cedo uma grande leitora; a segunda, diz respeito aos funcionários do governo, no caso o norte-americano, que chegaram a altos cargos – Secretário da Marinha, por exemplo, -- sem conhecer Lewis Carroll, um dos maiores escritores de língua inglesa. O Presidente, porém, sabia de cor o poema, mas ele era uma exceção.

Pensando no caso do Secretário da Marinha norte-americana que, embora nunca tenha se tornado Presidente (não levarei em consideração a situação em nosso País), ocupou um cargo importante no governo, mesmo sem ter sido um ávido leitor de Literatura, perguntei-me: qual a importância da Literatura? Para que serve a Literatura, se podemos ter destaque profissional sem ela? Qual a sua importância na vida prática?

Mas não é só isso. O ensaísta, tradutor, editor e romancista argentino, naturalizado canadense, Alberto Manguel, em Uma História da Leitura (Companhia das Letras, 2006) lembra que, quando a sua mãe o via com um livro na mão, dizia: “´Saia e vá viver!`, (...), como se minha atividade silenciosa contradissesse seu sentido do que significava estar vivo”.

Apesar desses fatos, não duvido da importância da Literatura, de seu valor no nosso dia-a-dia e na nossa vida profissional, mas é natural que, vez por outra, certas inquietações nos assaltem e sejamos levados a repetir a velha e eterna pergunta sobre o valor da Literatura, como para reiterarmos a nossa fé nela.

Certamente, saber mais e ver mais longe, dons que a Literatura nos concede, foram, são e serão sempre qualidades. O que teria sido de Graciliano Ramos, perdido no interior de Alagoas e Pernambuco, praticamente analfabeto até os nove anos de idade, sem a Literatura? Em Infância, livro autobiográfico, o escritor conta como descobriu os livros (na biblioteca de Jerônimo Barreto e não na escola) e a importância deles no universo árido de idéias e sentimentos em que vivia: “Em poucos meses li a biblioteca de Jerônimo Barreto. Mudei hábitos e linguagem. Minha mãe notou as modificações com impaciência. E Jovino Xavier também se impacientou, porque às vezes manifestava ignorância de selvagem . Os caixeiros do estabelecimento deixaram de afligir-me e, pelos modos, entraram a considerar-me um indivíduo esquisito.” E, no parágrafo seguinte, ele conclui: “Minha mãe, Jovino Xavier e os caixeiros evaporavam-se. A única pessoa real e próxima era Jovino Barreto, que me fornecia a provisão de sonhos, me falava na poeira de Ajácio, no trono de S. Luís, em Robespierre, em Marat”.

Em O último leitor, o escritor e ensaísta argentino Ricardo Piglia, ao analisar o que ele chama de os dois movimentos do leitor em Jorge Luis Borges, propõe uma conclusão que dialoga com a afirmação acima de Gracialiano Ramos: “a leitura é ao mesmo tempo a construção de um universo e um refúgio da hostilidade do mundo”.

É evidente a importância da Literatura, ninguém negará isso, no entanto, sempre haverá fatos concretos que a colocarão em cheque, principalmente no momento atual, em que vivemos uma crise da leitura, em que somos o “último leitor” (de Literatura). Por isso, não vejo mal alnhum em nos perguntarmos o que parece óbvio: por que devemos ler? Ou, para que serve a literatura? Não vejo mal algum em querermos escutar de novo aquilo que já estamos cansados de saber: que devemos “ler para viver” (Gustave Flaubert) ou “ler para fazer perguntas” (Franz Kafka). É assim, mais uma vez, que reavivamos a chama da nossa fé. Fé que só tem quem é leitor de Literatura.
Responder a essa pergunta sobre a importância da literatura não deveria causar, portanto, nenhum embaraço ou transtorno. Quem é argüido deveria ter a postura do “mestre ignorante”, numa referência ao filósofo francês Jacques Rancière, e relevar a capacidade do seu interlocutor e a possibilidade de um diálogo com ele, pois, segundo Rancière, “no ato de ensinar e de aprender, há duas vontades e duas inteligências” que propiciam sempre uma troca de idéias.

Essa pergunta “óbvia” – para que serve a leitura? -- deveria, isso sim, ser refeita sempre que possível, para escutarmos aquilo que já sabemos, mas que podemos em algum momento esquecer. O óbvio, as platitudes e os lugares comuns que porventura cerquem essa questão podem, como mostrei, servir de ponto de partida para uma nova reflexão sobre o tema. Eugène Ionesco não desperdiçaria essa oportunidade.

 

* Professora de Literatura Infanto-Juvenil na UFSC, onde desenvolve pesquisa de pós-doutorado como bolsista do CNPq.

 

 

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