ENTREVISTA COM ALBERTO MUSSA


Publicado em 2009 pela Editora Record, o livro "Meu Destino é Ser Onça", de Alberto Mussa, autor de contos e romances premiados, se propõe a narrar novamente parte da mitologia tupi do período colonial, "restaurando" em particular a saga da onça tupinambá. A atualidade desse trabalho inovador fica evidenciada pela entrevista a seguir, que discute, entre outros temas candentes, o canibalismo ameríndio.

Por Ana Paula Pizzi

 

P."Meu Destino É Ser Onça" reserva uma atenção especial à História do Brasil, mais precisamente aos índios que aqui viviam no período da chegada dos europeus. Mas ao contrário de alguns livros que tratam do tema sob o olhar do europeu, neste predomina o ponto de vista do índio, que é um sobrevivente, um vencido. A questão da vingança retratada no livro tem alguma relação com a reivindicação dos valores indígenas? A literatura foi um meio de poder retratar esse momento dessa forma?

R. Na verdade, não considero que o índio foi vencido. Porque nós somos índios ainda, é uma herança que está nos nossos genomas. O que desapareceu foram algumas das culturas indígenas dos primeiros séculos, fundidas numa cultura nova, que também não é apenas portuguesa, nem apenas africana. O Brasil é um país novo, que tem um povo novo, completamente miscigenado (e isso está cientificamente provado pelos estudos genéticos realizados sob o comando de Sergio Danilo Pena, da UFMG).

A vingança de que tratei, a vingança tupi, é um dos aspectos filosóficos mais importantes da cultura dos nossos antepassados, podemos dizer que era a motivação essencial da vida de um ser humano. Não dou a ela uma conotação política, de reivindicação ou de protesto.



P. Como iniciou sua pesquisa para a redação do livro e por que a escolha deste tema? Que autores lhe foram imprescindíveis para escrever "Meu destino é ser onça"?


R. A história desse livro começou em 1990, quando me preparava para fazer um doutorado em linguística, que abandonei. Meu projeto era estudar a dispersão pré-histórica das línguas tupi; e isso me levou a estudar não só o tupi antigo mas toda a literatura colonial que tratava dos tupis. Li Thevet e fiqui maravilhado com os fragmentos mitológicos que ele recolheu. Muito tempo depois, decidi fazer uma brincadeira literária, meio borgeana, de "restaurar" um texto que nunca existiu, que seria o Mito dos tupi, que chamei "Meu destino é ser onça". Alguns etnólogos acham a idéia absurda e têm razão. Mas como se trata de literatura, tudo é permitido. Os autores imprescindíveis foram, além de Thevet, fonte fundamental, Lévi-Strauss, Darcy Ribeiro e Eduardo Viveiros de Castro.



P. Pode-se afirmar que o ponto central do livro é o canibalismo. Como esse fato da cultura indígena é importante para nossa história e para a literatura brasileira?

R. Para a literatura brasileira, permanece com uma importância potencial. Oswald de Andrade escreveu o "manifesto canibal", uma peça bonita, mas superficial, que revela total incompreensão do sentido indígena do canibalismo. O único texto que realmente incorporou aspectos fundamentais do pensamento canibal é "Meu tio, o iauaretê", do Rosa, que associa a onça à vingança e ao inimigo.

Para a história do Brasil, o canibalismo foi a instituição fundamental, no primeiro século particularmente. Porque o indígena, em função da filosofia canibal, era obrigado a incluir os europeus ou na categoria de inimigo (para ser comido) ou na de aliado (quando não era comido). Toda a atitude indígena (falo especificamente dos tupis) dependia disso, ou seja, dependia da classificação do europeu no sistema do canibalismo. Para os europeus, o canibalismo foi simplesmente o principal elemento cultural indígena a ser eliminado. O canibalismo foi o costume mais combatido pelos missionários; e também foi a desculpa para a escravização. Ou seja, o canibalismo movimentou toda a vida brasileira, durante o primeiro século do contato

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P. Como você conseguiu delimitar, sobre o canibalismo, o que é falso e o que é verdadeiro nos relatos dos europeus - tão espantados com essa prática comum entre os índios?


R. Usei a classificação falso-verdadeiro apenas como método para escolha de uma alternativa entre variantes. Em princípio, toda variante é verdadeira, no seu contexto.

Quanto aos relatos europeus, creio que grande parte deles é baseada em testemunhos reais, pois são muito homogêneos e recorrentes.



P. A onça é um animal muito citado no seu livro. Qual é a importância desse animal na cultura indígena, e na formação da cultura brasileira? Qual é a ideia do titulo do livro?

R. A onça, o jaguar, é talvez o predador que inspire mais admiração ao tupi. Porque ela está acima do homem na cadeia alimentar. A onça come o homem, mas o homem não come a onça. Ser onça, ser canibal, é assim uma maneira de evoluir, de transcender. O objetivo existencial do indivíduo tupi é ser onça para ser superior. Os caraíbas tupis, os grandes feiticeiros, eram onças, tinham o poder de se metamorfosear em onças, por isso não participavam do banquete canibal, porque não era preciso. E por isso não entravam nas guerras de vingança, estavam num estágio acima, já tinham atingido esse patamar transcendental.



P. Em outra entrevista, você definiu a literatura brasileira como "uma das grandes literaturas do mundo". Em sua opinião, quais autores da nossa literatura brasileira que melhor trabalham a questão dos ameríndios?

R. Há pelo menos quatro grandes: Alencar, Gonçalves Dias, Darcy Ribeiro e Antonio Callado. Guimarães Rosa, de forma mais indireta, pode ser incluído nessa lista. Mas há outros: Taunay, José Veríssimo, Bernardo Guimarães. Talvez digam que eu esqueci Mario de Andrade, mas acho que ele reforçou os estereótipos negativos.


 

 

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