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Ana Helena Souza é a principal tradutora da prosa de Samuel Beckett hoje no Brasil. Sua excelente tradução de O inominável, obra-prima do escritor e dramaturgo irlandês, foi recentemente publicada pela editora Globo, São Paulo. Em 2003, Ana Helena Souza já havia assinado a tradução do desconcertante Como é (Iluminuras, São Paulo), texto sem pontuação de Beckett, e, em 2006, lançou um ensaio sobre o seu processo tradutório, A tradução como um outro original (Iluminuras, São Paulo), dando inestimável contribuição a uma área de estudos cada vez mais respeitada no Brasil. Sabemos que Beckett foi um autor-tradutor que transitou entre duas línguas, o inglês e o francês, tornando indissociáveis, no seu trabalho de escritor, a criação e a tradução. É um dos temas da entrevista que publicamos a seguir.
1. Você acaba de traduzir "O inominável". Sabemos que Beckett escreveu essa obra em francês e depois a traduziu para o inglês. Você partiu do francês, exclusivamente, ou consultou também a versão inglesa? Haveria diferenças entre elas? Nesta tradução, usei o texto em francês e, como fiz nas minhas traduções anteriores, consultei paralelamente o outro texto. Beckett é um maravilhoso recriador das suas obras. Isso significa que, na maioria das vezes, as soluções encontradas por ele parecem adequar-se perfeitamente à outra língua, seja o francês ou o inglês. Como resultado, temos um par de textos mais ou menos semelhante, dependendo do grau de liberdade empregado na recriação de cada trecho. Às vezes, há grande proximidade entre o francês e o inglês; às vezes, as intervenções são maiores e é aí que se encontra uma das marcas do autor-tradutor, que é capaz de eliminar algumas passagens ou substituir referências, por exemplo. Outra característica importante é a diferença de tom entre os textos, que é bem mais difícil de explicar, mas é o que torna singulares as “traduções” de Beckett. Penso que é a esse tom que o tradutor deve se manter fiel, ao escolher o texto-fonte, sem esquecer, é claro, o outro texto, que se constitui num poderoso recurso de interpretação durante o processo tradutório. Na minha experiência, traduzir Beckett dessa maneira é bastante enriquecedor para quem traduz e, se formos felizes, para a tradução.
2. O que representa esse romance na carreira de Beckett prosador? O ponto culminante? O que o diferencia, por exemplo, de "Molloy", também traduzido por você? O inominável é o último dos três romances escritos por Beckett em francês, no pós-guerra, a que a crítica convencionou chamar de primeira trilogia. Os três romances, Molloy e Malone morre, publicados em 1951, e O inominável em 1953, obtiveram reconhecimento imediato da melhor crítica francesa da época – basta dizer que Molloy foi resenhado por Bataille e O inominável por Blanchot. Acho que o impacto causado por esses romances e a consequente proliferação de material crítico sobre eles diz da sua importância. No entanto, não poderia colocar O inominável como ponto culminante da obra em prosa de Beckett, pois seus desdobramentos são extremamente ricos e interessantes. Por outro lado, acho que esse livro leva ao ápice o que Beckett vinha fazendo em ficção, desde a composição das Novelas diretamente em francês. De maneira muito breve, diria que a diferença entre Molloy e O inominável é a que reside na radicalização da auto-consciência com que Beckett dota os seus narradores. É essa auto-consciência que vai filtrar as percepções e pôr em xeque a validade de qualquer representação aventada. Desde as observações sempre reformuladas – às vezes até diretamente negadas, depois de registradas – de Molloy, passando pelas ficções implodidas de Malone, até atingir a magnífica fragmentação do narrador sem nome. Nesse sentido, O inominável é o ponto culminante dessa fase. Tanto que com ele Beckett parece ter experimentado um impasse na prosa que só seria quebrado dez anos depois com a publicação de Como é.
3. Beckett escreveu, no final da vida, outra trilogia, muito mais breve, na qual, parece-me, as distinções entre ficção e teatro (ou cinema) se tornaram confusas... e surpreendentes. Poderia comentar?
5. Afinal, os longos monólogos que lemos nos romances de Beckett denunciam, da perspectiva dos personagens, o absurdo de um discurso infinito ou revelam, ao contrário, grande lucidez no manuseio da linguagem?
*Sérgio Medeiros é tradutor e ensaísta e publicou, entre outros, o livro de poesia em prosa O sexo vegetal (Iluminuras, São Paulo, 2009). Ensina literatura na UFSC.
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