UMA INTELECTUAL DO NOSSO TEMPO

Por Sérgio Medeiros

 

Recentemente, Aurora Fornoni Bernardini, que desde 1969 é professora de Língua e Literatura Russa na Universidade de São Paulo, traduziu dois livros fundamentais para o português, do russo e do italiano respectivamente: Indícios Flutuantes (Poemas),  de Marina Tsvetáieva (Martins/Martins Fontes, São Paulo) e Francis Bacon: da Magia à Ciência, de Paolo Rossi (UEL/UFPR, Londrina).

Como se verifica, a tradução é uma vertente importantíssima do trabalho dessa intelectual que já nos deu textos fundamentais, como, entre outros, Ka, de V. Khlébnikov (Perspectiva, São Paulo), poeta cubo-futurista russo, um dos maiores e mais difícieis do século XX.  

Nesta entrevista reveladora, embora sucinta, Aurora Bernardini expõe suas idéias e faz um balanço de sua vida e de sua carreira.

Antes, porém, de passarmos a ela a palavra, acreditamos ser oportuno, como uma pequena amostra da sua arte como tradutora, reproduzir estes fragmentos da lírica asperamente concisa e contundente de Marina Tsvetáieva, retirados do livro citado acima: 

“Que vou fazer, cantor e primogênito,  

Num mundo onde o mais preto – é cinza!

Onde guardam a inspiração numa garrafa térmica!

Imensurável,

Num mundo de medidas?!” 

“E eu, deitada em areias já frias,

Vou para o dia que já não se conta...

Como a serpente olha a velha pele --

Cresci para fora de meu tempo.” 

“Eu sei, eu sei,

Quem é o dono – da taça!

Mas a perna estendida – qual torre

Em alturas de águia!

A taça arranco com a asa

Dos lábios terríveis rosados –

De Deus!” 

“Viver como escrevo: conciso e exemplar, --

Como deus ordenou e os amigos não aconselham.” 

“Insônia! Amiga minha!

De novo tua mão

Como a taça estendida

Encontro na noite

Tinindo sem som.” 
 

Entrevista:

 

Centopéia: Sem querer parodiar Mario de Andrade, mas  aproveitando essa época que vivemos: para  você, enquanto professora de literatura comparada, quais  são os males do Brasil?

Resposta: Vou me inspirar, nas respostas,  em coisas que outros já disseram. Isso, ao mesmo tempo  que corrobora o  que digo, conferindo-lhe certa ( maior, espero) autoridade, tem efeito de triplo corte, pois é prova de humildade e despretensão ( quem diz que não pensei eu antes, muitas dessas coisas?) e  (ao menos, espero) me exime da pecha de xenofobia ao contrário ou  aleivosia que seja.

Mas em lugar da desaprovação tout-court, que tem esse condão de pôr você diante do fato consumado, de ferir seu modo de ser etc., acho que a crítica (construtiva, construtiva, sim senhor)  que se transforma salutarmente em auto-crítica, põe a famosa minhoca em sua cabeça e o leva a repensar muita coisa importante: coisa-causa e não apenas coisa-efeito.

Ora, muito bem. Nada mais oportuno e atual do que abrir o jornal, nesse momento de pós-copa do mundo de futebol, e começar a tal auto-crítica por aí mesmo

O que foi mesmo que o jogador Henri do time francês disse a respeito do menino brasileiro e do menino francês?

Algo assim: O menino francês quer sair às 8 da manhã para ir brincar com seus amigos (eventualmente, jogar futebol). Nada disso, diz-lhe a mãe, o senhor tem suas aulas, depois  do almoço tem a sua lição de casa, e se terminar em tempo, à tarde o senhor vai, antes do jantar, brincar de jogar futebol com seus colegas.

  O que faz o menino brasileiro? Não tem escola  (ou melhor, a tem por causa da bolsa-escola, mas obviamente não se está falando só dos meninos do subúrbio ou da favela), e/ou se a tem, a escamoteia com a maior urgência, não tem hora de almoço, não tem hora de jantar, joga futebol de manhã à noite, e quando escurece e vai dormir.(se chove, de manhã à noite, vê televisão – os parênteses  são acréscimo meu).

 

Pergunta: Onde está, o que faz, o que não faz, porque não faz, a mãe deste menino?

Responda-se a esta pergunta e ter-se-á  a pista, o fio a desenrolar para descobrir o primeiro mal do Brasil. 

 

Centopéia: Teu universo cultural não é só brasileiro, pois nasceste na Itália e estudaste na Rússia.  Poderias comentar esse percurso extremamente rico?

Resposta: Sim, começo ainda pelo jornal : “ Segundo Silvio de Abreu (convidado a falar sobre ética, na Comissão de Educação do Senado), os estudos mostram que as pessoas ditas corretas são consideradas  ´chatas´, enquanto quem luta pelo que quer é admirado, ainda que cometa deslizes”.

Por que será?

Não é preciso ir  longe;  basta a frase sintomática do Presidente, amplamente divulgada por toda a mídia, (quando questionado sobre o fenômeno Caixa 2), para nos iluminar: “Todo  mundo faz”.

Bem, a primeira vantagem de meu percurso é que me permitiu verificar até que ponto   o tipo de educação (familiar, primária e ginasial – deixemos os adolescente e os universitários de lado) , dada nos outros países, é diferente daqui. Mesmo que adolescentes e universitários dos vários mundos se aproximem, depois,  em contato com a realidade mais  que caótica, selvagem, que nos ronda, há um estrato de valores apreendidos durante os primeiros anos e um imaginário pessoal e nacional que resistem. Procura-se, ao máximo, preservar a infância.

 

Centopéia:  A tradução nasceu de um desejo ou de uma necessidade? Pois te tornaste uma tradutora prolífica, vertendo para o português sobretudo textos do russo e do italiano.

Resposta: Não foi, inicialmente, por gosto. Foi por necessidade. O ensaio sobre um autor é muito mais proveitoso se existe alguma obra dele traduzida para o nosso idioma. Comecei -- e meus alunos começam, -- por traduzir a obra. 

 

Centopéia: Particularmente interessante é o teu contato com certos intelectuais e artistas estrangeiros, como certo poeta russo, Aigui (hoje muito admirado no ocidente), que viste escrevendo versos sem parar  e bebendo chá, no interior da velha Rússia.

Resposta: Na Rússia encontrei figuras excêntricas  – como Guennadi Aigui, o poeta tchuvache ao qual você se refere, muito traduzido na Europa, e/ou emblemáticas, como Rudolf Dugánov ( um dos maiores estudiosos da obra de Velímir Khlébnikov) ou o semioticista V.V. Ivanov.

 

Centopéia: Uma faceta recente de sua vida intelectual é o interesse por línguas e vocabulários indígenas. Podias explicar isso?

Resposta: Começou com uma viagem que fiz, na década de 90, acompanhando um professor estrangeiro numa visita a uma série de  reservas indígenas, no Mato Grosso e Rondônia. Continuou com viagens que fiz à Amazônia e com  o estudo da obra do conde Ermanno Stradelli, -- que viveu 43 anos no Brasil e morreu de lepra em 1926 -- ( Boletins e Vocabulário Nheengatu/Português e vice-versa) sobre os índios da região amazônica. O Vocabulário está sendo revisto e reeditado pela Ateliê e os Boletins, que terminei de traduzir há pouco, serão editados pela Martins Fontes. 

 

Centopéia: O que significará  para nós todos, o fim do livro (do livro impresso)?

Resposta: Não creio que o livro impresso venha a desaparecer. 

 

Centopéia: Para quem já publicou tanto neste país, como avalia o relacionamento do intelectual brasileiro com os editores, nesta época do advento do livro eletrônico?

Resposta: O intelectual brasileiro procura ser publicado ou contribuir para a publicação de obras de nível, o editor publica, principalmente, se o livro promete vender. O leitor brasileiro, além de ler pouco, lê mal – basta ver as listas de best-sellers, de livros de auto-ajuda ou de divulgação sensacionalista ou mesmo manuais específicos que, inclusive, em geral, são pessimamente traduzidos...

Então é uma luta árdua, mas, há resultados, especialmente no  ambiente universitário e junto a editores empreendedores, especialmente os jovens.  Livros teóricos não fáceis, como A Poética do Mito ou Arquétipos Literário , de E. Meletínski, já esgotaram a edição, enquanto  romances fundamentais e apaixonantes como Aquela Confusão Louca da Via Merulana, de Carlo Emílio Gadda, ou Dissipatio H. G., de Guido Morselli,  ficaram na prateleira da editora.

É curiosa a adoção de certos autores, por parte do público. Às vezes, de tão badalado, o autor é comprado sempre, mesmo que suas obras não sejam lá essas coisas.Nos E.U.A. comentava-se o caso do quase sempre chato John Updike.

Claro que a divulgação é fundamental. Mas, para livros de qualidade, deve ser uma divulgação especial. Resenhas objetivas e inteligentes, em colunas  ou seções onde o leitor saiba o que procurar e onde o(s)  resenhista(s) seja (m) confiável (veis).

O meio eletrônico funciona para textos breves. Poucos conseguem passar horas ao computador, lendo um livro. Mesmo o download de livros é bem menos freqüente que o xerox.

Mas quem sabe o meio eletrônico, em lugar de matar o livro impresso, ajude a divulgá-lo? 

 

Centopéia: Poderias citar um evento cultural marcante que ocorreu no mundo e/ou em tua cidade nos últimos tempos?

Resposta: Em Roma: a eleição de Prodi. Em São Paulo: a exposição de Volpi.

 

 

 

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