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Recentemente, Aurora Fornoni Bernardini, que desde 1969 é professora de Língua e Literatura Russa na Universidade de São Paulo, traduziu dois livros fundamentais para o português, do russo e do italiano respectivamente: Indícios Flutuantes (Poemas), de Marina Tsvetáieva (Martins/Martins Fontes, São Paulo) e Francis Bacon: da Magia à Ciência, de Paolo Rossi (UEL/UFPR, Londrina). Como se verifica, a tradução é uma vertente importantíssima do trabalho dessa intelectual que já nos deu textos fundamentais, como, entre outros, Ka, de V. Khlébnikov (Perspectiva, São Paulo), poeta cubo-futurista russo, um dos maiores e mais difícieis do século XX. Nesta entrevista reveladora, embora sucinta, Aurora Bernardini expõe suas idéias e faz um balanço de sua vida e de sua carreira. Antes, porém, de passarmos a ela a palavra, acreditamos ser oportuno, como uma pequena amostra da sua arte como tradutora, reproduzir estes fragmentos da lírica asperamente concisa e contundente de Marina Tsvetáieva, retirados do livro citado acima: “Que vou fazer, cantor e primogênito, Num mundo onde o mais preto – é cinza! Onde guardam a inspiração numa garrafa térmica! Imensurável, Num mundo de medidas?!” “E eu, deitada em areias já frias, Vou para o dia que já não se conta... Como a serpente olha a velha pele -- Cresci para fora de meu tempo.” “Eu sei, eu sei, Quem é o dono – da taça! Mas a perna estendida – qual torre Em alturas de águia! A taça arranco com a asa Dos lábios terríveis rosados – De Deus!” “Viver como escrevo: conciso e exemplar, -- Como deus ordenou e os amigos não aconselham.” “Insônia! Amiga minha! De novo tua mão Como a taça estendida Encontro na noite Tinindo sem som.” Entrevista:
Centopéia: Sem querer parodiar Mario de Andrade, mas aproveitando essa época que vivemos: para você, enquanto professora de literatura comparada, quais são os males do Brasil? Resposta: Vou me inspirar, nas respostas, em coisas que outros já disseram. Isso, ao mesmo tempo que corrobora o que digo, conferindo-lhe certa ( maior, espero) autoridade, tem efeito de triplo corte, pois é prova de humildade e despretensão ( quem diz que não pensei eu antes, muitas dessas coisas?) e (ao menos, espero) me exime da pecha de xenofobia ao contrário ou aleivosia que seja. Mas em lugar da desaprovação tout-court, que tem esse condão de pôr você diante do fato consumado, de ferir seu modo de ser etc., acho que a crítica (construtiva, construtiva, sim senhor) que se transforma salutarmente em auto-crítica, põe a famosa minhoca em sua cabeça e o leva a repensar muita coisa importante: coisa-causa e não apenas coisa-efeito. Ora, muito bem. Nada mais oportuno e atual do que abrir o jornal, nesse momento de pós-copa do mundo de futebol, e começar a tal auto-crítica por aí mesmo O que foi mesmo que o jogador Henri do time francês disse a respeito do menino brasileiro e do menino francês? Algo assim: O menino francês quer sair às 8 da manhã para ir brincar com seus amigos (eventualmente, jogar futebol). Nada disso, diz-lhe a mãe, o senhor tem suas aulas, depois do almoço tem a sua lição de casa, e se terminar em tempo, à tarde o senhor vai, antes do jantar, brincar de jogar futebol com seus colegas. O que faz o menino brasileiro? Não tem escola (ou melhor, a tem por causa da bolsa-escola, mas obviamente não se está falando só dos meninos do subúrbio ou da favela), e/ou se a tem, a escamoteia com a maior urgência, não tem hora de almoço, não tem hora de jantar, joga futebol de manhã à noite, e quando escurece e vai dormir.(se chove, de manhã à noite, vê televisão – os parênteses são acréscimo meu).
Pergunta: Onde está, o que faz, o que não faz, porque não faz, a mãe deste menino? Responda-se a esta pergunta e ter-se-á a pista, o fio a desenrolar para descobrir o primeiro mal do Brasil.
Centopéia: Teu universo cultural não é só brasileiro, pois nasceste na Itália e estudaste na Rússia. Poderias comentar esse percurso extremamente rico? Resposta: Sim, começo ainda pelo jornal : “ Segundo Silvio de Abreu (convidado a falar sobre ética, na Comissão de Educação do Senado), os estudos mostram que as pessoas ditas corretas são consideradas ´chatas´, enquanto quem luta pelo que quer é admirado, ainda que cometa deslizes”. Por que será? Não é preciso ir longe; basta a frase sintomática do Presidente, amplamente divulgada por toda a mídia, (quando questionado sobre o fenômeno Caixa 2), para nos iluminar: “Todo mundo faz”. Bem, a primeira vantagem de meu percurso é que me permitiu verificar até que ponto o tipo de educação (familiar, primária e ginasial – deixemos os adolescente e os universitários de lado) , dada nos outros países, é diferente daqui. Mesmo que adolescentes e universitários dos vários mundos se aproximem, depois, em contato com a realidade mais que caótica, selvagem, que nos ronda, há um estrato de valores apreendidos durante os primeiros anos e um imaginário pessoal e nacional que resistem. Procura-se, ao máximo, preservar a infância.
Centopéia: A tradução nasceu de um desejo ou de uma necessidade? Pois te tornaste uma tradutora prolífica, vertendo para o português sobretudo textos do russo e do italiano. Resposta: Não foi, inicialmente, por gosto. Foi por necessidade. O ensaio sobre um autor é muito mais proveitoso se existe alguma obra dele traduzida para o nosso idioma. Comecei -- e meus alunos começam, -- por traduzir a obra.
Centopéia: Particularmente interessante é o teu contato com certos intelectuais e artistas estrangeiros, como certo poeta russo, Aigui (hoje muito admirado no ocidente), que viste escrevendo versos sem parar e bebendo chá, no interior da velha Rússia. Resposta: Na Rússia encontrei figuras excêntricas – como Guennadi Aigui, o poeta tchuvache ao qual você se refere, muito traduzido na Europa, e/ou emblemáticas, como Rudolf Dugánov ( um dos maiores estudiosos da obra de Velímir Khlébnikov) ou o semioticista V.V. Ivanov.
Centopéia: Uma faceta recente de sua vida intelectual é o interesse por línguas e vocabulários indígenas. Podias explicar isso? Resposta: Começou com uma viagem que fiz, na década de 90, acompanhando um professor estrangeiro numa visita a uma série de reservas indígenas, no Mato Grosso e Rondônia. Continuou com viagens que fiz à Amazônia e com o estudo da obra do conde Ermanno Stradelli, -- que viveu 43 anos no Brasil e morreu de lepra em 1926 -- ( Boletins e Vocabulário Nheengatu/Português e vice-versa) sobre os índios da região amazônica. O Vocabulário está sendo revisto e reeditado pela Ateliê e os Boletins, que terminei de traduzir há pouco, serão editados pela Martins Fontes.
Centopéia: O que significará para nós todos, o fim do livro (do livro impresso)? Resposta: Não creio que o livro impresso venha a desaparecer.
Centopéia: Para quem já publicou tanto neste país, como avalia o relacionamento do intelectual brasileiro com os editores, nesta época do advento do livro eletrônico? Resposta: O intelectual brasileiro procura ser publicado ou contribuir para a publicação de obras de nível, o editor publica, principalmente, se o livro promete vender. O leitor brasileiro, além de ler pouco, lê mal – basta ver as listas de best-sellers, de livros de auto-ajuda ou de divulgação sensacionalista ou mesmo manuais específicos que, inclusive, em geral, são pessimamente traduzidos... Então é uma luta árdua, mas, há resultados, especialmente no ambiente universitário e junto a editores empreendedores, especialmente os jovens. Livros teóricos não fáceis, como A Poética do Mito ou Arquétipos Literário , de E. Meletínski, já esgotaram a edição, enquanto romances fundamentais e apaixonantes como Aquela Confusão Louca da Via Merulana, de Carlo Emílio Gadda, ou Dissipatio H. G., de Guido Morselli, ficaram na prateleira da editora. É curiosa a adoção de certos autores, por parte do público. Às vezes, de tão badalado, o autor é comprado sempre, mesmo que suas obras não sejam lá essas coisas.Nos E.U.A. comentava-se o caso do quase sempre chato John Updike. Claro que a divulgação é fundamental. Mas, para livros de qualidade, deve ser uma divulgação especial. Resenhas objetivas e inteligentes, em colunas ou seções onde o leitor saiba o que procurar e onde o(s) resenhista(s) seja (m) confiável (veis). O meio eletrônico funciona para textos breves. Poucos conseguem passar horas ao computador, lendo um livro. Mesmo o download de livros é bem menos freqüente que o xerox. Mas quem sabe o meio eletrônico, em lugar de matar o livro impresso, ajude a divulgá-lo?
Centopéia: Poderias citar um evento cultural marcante que ocorreu no mundo e/ou em tua cidade nos últimos tempos? Resposta: Em Roma: a eleição de Prodi. Em São Paulo: a exposição de Volpi.
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