UM ULISSES BEM-HUMORADO, por Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros

O tradutor paranaense Caetano Galindo concede entrevista ao nosso site

 

Ninguém esperava que o romance Ulisses, de James Joyce, fosse traduzido na íntegra para o português pela terceira vez e incluído numa tese de doutorado defendida na USP no segundo semestre de 2006. Podemos imaginar o tamanho da tese. E o tamanho da ousadia do seu autor, um professor de lingüística da Universidade Federal do Paraná, Caetano Waldrigues Galindo, ainda jovem.

Galindo, como gostamos de chamá-lo, conhece romeno e traduz dessa língua. Quando, tempos atrás, nos mostramos surpresos com seu domínio de línguas consideradas difíceis, ele apenas sorriu e disse que aprendeu romeno justamente para ver a cara de espanto das pessoas. Isto é, para ele, aprender uma língua não é um prodígio em si. As pessoas é que transformam as línguas em bichos de sete cabeças. Galindo as enfrenta. Com sucesso. Estava, portanto, equipado para traduzir Ulisses, um dos textos mais complexos de todos os tempos.

O que a nova tradução nos oferece é, entre outras coisas, um Joyce bem-humorado, como nunca se viu em português. O leitor pode conferir isso, consultando neste site a seção “Traduções”.

Vamos à conversa que tivemos com o tradutor de Charles Darwin e Saul Bellow, e também grande apreciador da música erudita e popular.


1. Todo mundo se espanta com a notícia de que temos em português mais uma tradução do romance "Ulisses" de Joyce. Será que ninguém esperava isso? É algo inusitado em português várias traduções alternativas de um grande livro?

Não sei. O nosso mercado editorial é estranho. Ele às vezes parece funcionar contra o bom-senso. Eu realmente compreendo que um editor pense trezentas vezes, hoje, antes de querer lançar comercialmente a minha tradução (assim, em cima da mais nova). Mas a demora de quarenta anos para sair a segunda versão é incompreensível. Portanto parece que sim, que ninguém contava com essa esquisitice minha e da professora Bernardina. Aliás, que fique bem claro que nem eu contava com o projeto dela quando comecei o meu...

As traduções envelhecem mais rápido que os originais, e me parece incrivelmente saudável que os “classicões” vivam sendo retraduzidos, como contribuição de cada geração à sua literatura e como exercício para cada uma delas. Além do serviço prestado aos leitores, evidentemente.

 

2. Agora uma questão pessoal: em que momento de tua vida surgiu o desejo de traduzir "Ulisses"? Como e por que conseguiste cumprir esse desejo?

De trás para frente. Só consegui cumprir o desejo porque dei um jeito de transformar o desejo em um projeto acadêmico consistente e porque trabalho em uma universidade pública, que ainda demonstra interesse em titular seu pessoal à custa de alguns anos de afastamento dos encargos didáticos. Não teria sido possível, em quatro anos, escrever o meu texto teórico para o doutoramento, e mais a tradução, sem essa possibilidade, que os meus colegas e o sistema federal me garantiram.

Mas o desejo surgiu aos poucos. Primeiro eu, na graduação, resolvi imitar um amigo meu e ler o Ulysses. Mas me detive. Maldadinhas à parte, não consigo dedicar energia a ler um catatau daquele tamanho que comece com “Sobranceiro e fornido”. Um bom livro, idealmente, sequer deve ter UMA dessas palavras, em qualquer momento. Que dirá as duas! E na primeira linha!!

Aí fui polir o meu inglês.

No fim dos anos 90 tentei de novo. E esse contato que começou ali me levou até 2000, quando tive de desistir (por motivos pessoais) de uma bolsa de doutorado na Alemanha. No interlúdio meio hedonista que se seguiu a essa decisão bem difícil, decidi que a romanística podia ficar sem mim agora que os alemães também ficariam. Quis criar um novo projeto de doutoramento que, um, me divertisse e me fizesse realmente crescer; dois, gerasse algo mais que uma tese; três, não me enchesse de tédio depois de dois, três anos..

Aí, num acesso fáustico em uma caminhada pelo jardim botânico de Curitiba eu disse “vou traduzir o Ulysses”, o que me dava a melhor das oportunidades para finalmente ler esse livro com o grau de lente de aumento que ele exige.

Eu sou um mal primeiro leitor (apressado e leviano), mas sou bem melhor de segundas e terceiras, e esse projeto e obrigou a ir bem além de duas ou três..

3. Uma das questões fascinantes é decidir qual é a melhor edição de "Ulisses". Qual foi tua esciolha como tradutor e por quê?

Comecei com a edição Bodley Head padrão. Simplesmente porque não tinha a Gabler, que só fui comprar em uma viagem à Irlanda. A primeira razão de ter adotado finalmente o texto Gabler é que, bem ou mal, ele vem se transformando em uma referência universalmente aceita. Todo mundo cita pelo Gabler... Os textos clássicos de crítica vêm mesmo sendo reeditados para adotar a paginação da edição Gabler. Como eu, afinal, estava em primeira medida produzindo para a academia, apenas um motivo muito forte poderia apontar em outra direção.

De resto, pessoal e artisticamente, acho mesmo que o texto Gabler é melhor. Talvez não naqueles dois, três momentos realmente mais polêmicos, mas no miúdo. Está longe de ser o ideal, mas parece realmente mais sólido que a Bodley Head.

4. Como vai ser a edição comercial dessa tradução? O que implica hoje no Brasil lançar uma terceira tradução de "Ulisses"?

Olha, por enquanto não vai ser. Existe uma chance de a gente fazer uma ediçãozinha entre-amigos, só para registrar o fato. Mas comercialmente.. Não vi e não vejo interesse. E, além de tudo, a questão toda dos direitos autorais da obra de Joyce, como vocês bem sabem, é complicada pacas. Não vejo chance em um horizonte próximo.

O que implicaria?

Dizer que ela tem algo a dizer que não foi dito (de todo ou adequadamente) pelas traduções hoje existentes. Melhor? Pior? Não me cabe dizer. Tenho a impressão de que o meu trabalho ainda é muito mais “sujo” que os outros: ele não foi revisado profissionalmente, etc... Mas tenho também a impressão de que ele ocupa um nicho de possibilidades que não é coberto pelos trabalhos de Houaiss e Pinheiro e que, na minha modesta, obviamente, é mais interessante.

 

5. O que é mais atual, "Ulisses" ou "Finnegans Wake"?

O Ulysses.

O Ulysses parece ter sido escrito ontem. Melhor ainda, semana que vem. Ele é mais fresco e, nesse sentido, atual que a imensa maioria da produção literária de hoje. E isso, veja-se bem, não apenas formalmente. Humanamente mesmo.

Além de tudo ele é obviamente muito mais relevante para o conjunto da literatura que se seguiu à vida de Joyce. Ele é fundador.

Sobre o Wake, fico cem por cento com Bloom (Harold). Ele é certamente maior e mais poderoso que o Ulysses, mas continua inassimilável. Continua ilegível segundo muitos dos critérios que ainda consideramos centrais para uma definição de leitura e legibilidades. Ele é um reformador radical demais para passar goela abaixo mesmo dos leitores de sessenta anos depois. Tudo ali é novo. O conceito de leitura, de leitor, de personagem, de literatura, de trama, de tempo... E, pior ainda (óbvio que isso vale dizer melhor ainda), tudo isso em uma explosão “paracima”, em que todas as possibilidades são aceitas e multiplicadas. Um gigantesco e estrondoso SIM a todas as possibilidades de todas as possibilidades literárias. Uma imensa afirmação da literatura acima de todas as coisas.

Não acho de estranhar que o projeto Beckettiano, por exemplo, em sua obsessão por “get over J.J.”, e em sua característica implosão negativista, tenha tido tantos frutos a mais. Aceitar o sim do wake é, ainda, difícil demais. E ele continua sem ter prole direta, tendo apenas influenciado alguns sobrinhos...


6. A partir da década de 1970, inúmeros estudos acerca das questões políticas na obra de Joyce vem sendo publicados. No Brasil o tema parece novo e pouco explorado. Existiria por aqui ainda uma certa resistência em se estudar Joyce a partir de outros perspectivas que não o formalismo?

Eu diria que sim. E que isso certamente é pena. Eu mesmo, como leitor, demorei demais em me aproximar de Joyce por causa dessa pecha, que não é, acrescente-se, exclusividade ou invenção brasileira. É confortável pegar um cadáver barulhento como o do Joyce e metê-lo numa caixinha dessas. Tanto mais se for precisamente a caixinha que, diga-se de passagem, o mainstream da crítica literária no Brasil sempre evitou como o diabo etc... Assim ele ficava inócuo.

E isso atrapalhou muito. É difícil convencer alunos de que Joyce era um humorista. De que o Ulysses (e o Wake!) é incrivelmente tocante. De que sua obra é, para além da “catedral” formalista, literatura, pura e simples, sobre homens, seu mundo, e as coisas que os definem (homens e mundo).

 

7. Qual a melhor maneira de se ler "Ulisses" e "Finnegans Wake": sabendo muito ou não sabendo nada?

Primeiro, que fique claro que eu dar palpite sobre esses dois pólos não significa dizer que eu me considere “sabedor de muito”. Estamos no começo. Ainda mal se passaram oitenta dos trezentos anos que Joyce profetizou que caberiam à crítica acadêmica do Finnegans Wake.

Mas, então. Para o Ulysses, não sei. Depende do leitor. A primeira leitura, se feita em vôo solo, pode ser muito frustrante para a grande maioria dos leitores. Se você é do tipo analítico rigoroso, eu recomendaria a experiência. Caso contrário, uma leiturazinha prévia não vai machucar.

O que é definitivo, no entanto, é que Curtius tinha razão. O Ulysses só se lê efetivamente quando se relê. A segunda leitura é que costuma trazer o prazer maior. Como com qualquer livro complexo.

Para o Wake por outro lado, eu seria mais categórico. Eu, como o leitor que sou, simplesmente não consigo conceber a possibilidade da existência de muitos Campbells e Robinsons, que se debruçaram sobre o livro assim que ele saiu (e vejam que mesmo antes do FW sair como livro já havia aparato crítico publicado!) e conseguiram encontrar dezenas de padrões, temas, estruturas.. Para mim seria impossível.

Quanto mais leitura prévia, nesse caso, melhor.

A não ser que o leitor se disponha, no entanto, a um convívio diferenciado com o livro. Se você desiste de sentar e ler de capa a capa, se você aceita carregar durante anos um volume e fuçar nele o tempo todo, entrelivros, entretarefas... ele, como muito poucos outros livros, pode se prestar a isso como se tivesse sido feito para ser lido assim. Sem ordem, sem método, ao sabor da língua..

Mas eu, pessoalmente (mesmo tendo um volume do Wake que é certamente o livro mais maltratado da minha casa), ainda acho que esta leitura não evita aqueloutra..

 

8. Quais os teus próximos trabalhos relacionados com a obra de Joyce?

Hmm..

Parece que tem um pessoal bem bacana na ilha de Santa Catarina que quer publicar uma tradução minha de um texto composto na época, e com o estilo, da redação do Wake.!

De resto, quero ver se preparo a tese toda, ou alguns pedaços da tese, para publicação em forma de livro.

Ainda no começo do ano que vem, tenho que terminar a revisão (terceira, quarta, nem lembro..) da minha tradução, para ver se essa edição não comercial chega a acontecer.

Eu tinha vontade de mexer com Um retrato e Dublinenses. Mas, nas circunstâncias atuais, acho que só faria isso contratado por alguma editora. Pra daqui a uns dez anos, quem sabe eu remexa com o Wake.

De resto, tenho um ensaio sobre Joyce e os usos da ironia que acabou não entrando na tese, e que talvez eu queria publicar de alguma maneira..

Acho que é isso.

 

9. Já pensaste em adaptar "Ulisses" para crianças? Afinal, és autor de textos infantis...

Não.

Aí sim, depois que li a pergunta.

Mas nem sei se saberia por onde começar. O projeto, até por isso mesmo, no entanto, parece sedutor.

Uma vez eu fiz uma adaptação do Hamlet para minha filha, que se chamava Os três porquinhos da Dinamarca (os porquinhos eram o príncipe, Rosencrantz e Guildenstern..). Foi divertido..

 

10. Quem é o mais joycianos dos escritores latino-americanos?

Eu não saberia dizer. Mas eu gostaria de escapar daquele óbvio algo formalizante que sugeriria de saída, sei lá, Octavio Paz, Guimarães Rosa... Não que mesmo esses não caibam no rótulo por outros motivos. Pra ser bem honesto com vocês, vou dizer o primeiro nome que me veio à cabeça, e que as ligações sejam feitas por quem de direito.

Manuel Puig.

 

 

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