Um “tupiniqu-inca” seguindo os passos de Sousândrade

Por Ana Carolina Cernicchiaro*

Florianópolis, 18 de agosto de 2007

A obra de Joaquim de Sousândrade (1832-1902) é uma das mais instigantes da literatura brasileira. Conhecido pelo seu hermetismo e pela sua inventividade, o poeta colheu ao longo da segunda metade do século XX poucos, mas dedicados estudiosos, que, apaixonados pela obscuridade de seus poemas - principalmente do emblemático O Guesa (épico composto por 13 cantos, incluindo as duas famosas descidas ao inferno: “Tatuturema” e “O Inferno de Wall Street”), se embrenham em seus versos difíceis, repletos de neologismos, fragmentação, multilingüismo, polifonia e polissemia.
Entre estes estudiosos, uma importante voz é a de Carlos Torres-Marchal, que há mais de 20 anos segue, como ele mesmo diz, “os passos do poeta”. Nascido na cidade de Lima, Peru, filho de pai peruano e mãe francesa, e radicado na Bahia desde 1977, Torres divide com Sousândrade o nomadismo, não só em decorrência de sua profissão e de seus estudos como engenheiro, mas, principalmente, por conta de sua pesquisa da vida e da obra sousandradina. Assim, nesse périplo, o “suna” (estrada pela qual o órfão Guesa peregrina até seu sacrifício ao deus-sol e que no poema se torna o caminho do próprio poeta, ou seja, o continente todo) de Carlos Torres é formado por arquivos e bibliotecas das Américas e da Europa. Os resultados dessa grandiosa e completíssima pesquisa ainda não foram publicados, suas descobertas continuam inéditas. Mas, enquanto esperamos, podemos desfrutar um pouco do universo sousandradino nessa entrevista concedida por e-mail para o suplemento “DCultura” e o site de arte e cultura Centopéia (www.centopeia.net).   

 

Sua formação é na área de engenharia, mas há mais de 20 anos você vem pesquisando a obra de Joaquim de Sousândrade, seguindo seus passos por vários países e estudando as sociedades e a época em que viveu. Como surgiu esse interesse? Quando e como iniciou sua pesquisa? Quais descobertas você considera mais significativas nesse trabalho?

Fui apresentado a Sousândrade pelo saudoso Erthos Albino de Souza, grande bibliófilo e apaixonado pela obra do vate maranhense. Erthos trabalhava em meados da década de 1980 na atualização ortográfica de O Guesa e pediu minha opinião sobre a ortografia moderna de personagens e termos quíchuas relativos ao Peru, particularmente no Canto XI da edição londrina. O fato de Sousândrade ter escrito sobre o Peru, onde nasci, ter se formado, supostamente, em engenharia e ter morado nos Estados Unidos (onde eu estudei e trabalhei) e na França (terra natal de minha mãe) foram coincidências que me aproximaram do poeta, despertando meu interesse na sua vida e obra. A leitura da obra completa de Sousândrade, em particular de O Guesa e, particularmente, dos chamados Inferno de Wall Street e Tatuturema, só fizeram aumentar meu interesse e intuir que por trás da linguagem enigmática havia uma estrutura ainda não analisada. Surgiu então a idéia de aplicar à obra de Sousândrade técnicas de pesquisa bibliográfica que eu já tinha usado com sucesso na área científica e tecnológica. Há, portanto, mais de duas décadas que percorro o suna do Guesa numa viagem sem data de chegada.
Com relação à segunda parte da pergunta, é difícil para mim avaliar a importância ou significância das minhas pesquisas. Uma vertente delas pretende cumprir a promessa feita por Sousândrade: O Guesa “há de ser no fim acompanhado do seu mapa histórico e geográfico”. Consegui, por exemplo, provas documentárias que ele esteve no Peru e Chile em 1878, como indica a data do Canto XI, e não em 1885, como é correntemente aceito. No curso de minhas pesquisas descobri também que o poeta não estudou engenharia de minas em Paris e que passou só umas poucas semanas no Peru, ao contrário do que reza a biografia oficial, eivada de erros e de afirmações não documentadas.
Outra linha de pesquisa iniciou como um intento de completar o glossário da ReVisão de Sousândrade dos irmãos Campos. Compreendi logo que a dissecção, inerente a um glossário era totalmente contrária à visão sousandradina, em que o todo é muito maior que as partes. O desafio não é só identificar as referências individualmente, mas principalmente entender como elas se encaixam. Com o passar dos anos e à medida que a pesquisa avançava e as descobertas se avolumavam, fiquei convencido que os infernos não eram simplesmente inovações estilísticas revolucionárias, mas que se baseavam em acontecimentos vivenciados pelo autor ou que o sensibilizaram por algum motivo.   Desde este ponto de vista um dos maiores prazeres da pesquisa é ser, talvez o primeiro em 130 anos, a entender as intenções do autor quando decifro um trecho de O Guesa.

 

Sousândrade havia previsto que O Guesa só seria lido 50 anos depois - “decepção de quem escreve cinqüenta anos antes”, dizia em Memorabilia -, mais de um século se passou e, apesar dos esforços de importantes teóricos da literatura, sua obra continua pouco conhecida e estudada, a publicação completa de seus poemas, por exemplo, só aconteceu em 2003 (com o livro Prosa e Poesia Reunidas de Sousândrade, organizado por Frederick G. Williams e Jomar Moraes). A que você credita essa obscuridade?

Sousândrade é um poeta muito citado, porém muito pouco lido. Não há dúvida que é um autor “difícil”. Ao ler pela primeira vez os infernos, Novo Éden ou Harpa de Ouro dificilmente deixará o leitor de experimentar assombro ante a ousadia da linguagem e o estilo taquigráfico. Uma frase do gaúcho Qorpo Santo aplica-se perfeitamente a Sousândrade: [as minhas obras] “quase só eu as entendo. Tantas foram as inutilidades por mim suprimidas.” No caso dos infernos, a estrutura, inspirada no limerick, aumenta a sensação de nonsense para a grande maioria dos leitores.
O descaso com Sousândrade estende-se à sua biografia: 1833 ainda aparece em muitas referências como o ano do seu nascimento, quando sabe-se, há pelo menos 30 anos, que o ano correto é 1832. Ignora-se as datas de morte de seus pais, as do seu matrimônio e do nascimento de sua filha Maria Bárbara, para citar só algumas das principais lacunas na cronologia sousandradina. A biografia oficial é repleta de inverdades, como já mencionei antes.
Em relação aos esforços a que você faz referência para trazer à tona a obra de Sousândrade, infelizmente foram poucos e, mesmo assim, tímidos. Evidentemente a inexistência (até 2003, e excetuando a edição facsimilar de O Guesa, promovida por Jomar Moraes em 1979) de reedições das obras de Sousândrade dificultou muito o acesso de estudiosos ao corpus sousandradino. A última reedição, de 2003, só é vendida pela Academia Maranhense de Letras e virará item de colecionador em poucos anos. O primeiro passo para incentivar o estudo da obra de Sousândrade é disponibilizar o corpus sousandradino, talvez pela internet.
Aproveitando ainda a sua pergunta, você fala dos “esforços de importantes teóricos da literatura”. Eu colocaria a ênfase em teóricos. A obra de Sousândrade é eminentemente autobiográfica e faz referência constante a acontecimentos por ele vividos ou testemunhados. Na minha opinião,  faz-se necessária uma pesquisa de campo antes de empreender a análise teórica. Acredito que a falta de estudos sobre a vida e os tempos de Sousândrade torna muito difícil uma análise séria. 

 

Entre os poucos estudiosos da obra do poeta, grande parte deles não são brasileiros, você mesmo é peruano, Frederick G. Williams e Robert E. Brown, que traduziu parte de “O Inferno de Wall Street” em Re Visão de Sousândrade, são estadunidenses, Claudio Cuccagna, que escreveu o importante A Visão do Ameríndio na Obra de Sousândrade, é italiano... Como você explica esse fenômeno?

Eu acrescentaria que, mesmo estudiosos brasileiros de Sousândrade, como Luiza Lobo e Sebastião Moreira Duarte, desenvolveram as suas teses de doutoramento nos Estados Unidos. É possível que a importância de Sousândrade seja melhor percebida fora do Brasil. A parca bibliografia sobre o poeta, comparada com a de outros escritores e poetas brasileiros, facilita a pesquisa bibliográfica e a proposta de novos enfoques. Outra possível causa da relativa popularidade de Sousândrade no exterior é a escassez de grandes bibliotecas no Brasil, particularmente com coleções relevantes à época que Sousândrade morou fora do Brasil. Eu mesmo realizei grande parte das minhas pesquisas fora do país. Esta carência bibliográfica tem sido aliviada nos últimos anos pela disponibilidade de documentos primários e obras de referência confiáveis através da internet. Mesmo tendo acesso aos documentos, grande parte da bibliografia relevante está em inglês, francês ou espanhol, o que representa um obstáculo adicional. Por outro lado, percebo nos últimos anos um renovado interesse na obra de Sousândrade em meios acadêmicos brasileiros, talvez conseqüência da republicação da sua obra em 2003.
Criou-se um paradoxo: exaltação da obra de Sousândrade aliada ao desconhecimento quase total da mesma. Cai-se num “vazio crítico”: admira-se, com motivo, a inovação léxica e estilística, mas a análise fica nos aspectos formais. Ao que e ao como falta acrescentar o porquê, já que os eventos relatados não são de conhecimento geral. No ano 2000 um jornal de circulação nacional publicou, após consulta a um painel de poetas e críticos literários, uma lista dos “dez mais” importantes poemas da literatura brasileira.     O segundo lugar foi ocupado pelo Inferno de Wall Street. A escolha foi duplamente curiosa: era o único dos dez poemas selecionados que estava, à época, fora de catálogo e, mais significativamente, Sousândrade nunca escreveu um poema com esse título. O nome, como é sabido, foi criado pelos irmãos Campos, na sua ReVisão de Sousândrade.

 

O trabalho de Haroldo e Augusto de Campos foi, provavelmente, a pedra fundamental da pesquisa que existe hoje sobre a obra sousandradina, mas a liberdade de suas interpretações e correções é bastante polêmica, diriam alguns, excessiva. Como você interpreta esses estudos?

Sem esquecer as contribuições pioneiras de Fausto Cunha e Luís Costa Lima, é inegável que a publicação da ReVisão de Sousândrade, por Erthos Albino de Souza em 1964, deu um importante impulso ao interesse pela obra do poeta. Pela primeira vez era divulgado um conjunto de estudos sobre o poeta e uma seleção do corpus sousandradino. A ReVisão continua sendo a obra fundamental para iniciar o estudo de Sousândrade. Se compararmos, porém, a primeira e terceira edições, separadas por 38 anos, percebemos que pouco material significativo foi acrescentado, excetuando a inclusão do texto integral do Tatuturema, na segunda edição. É como se o assunto tivesse sido exaurido e não existissem novos enfoques a serem apresentados pelos autores.
Com relação às interpretações, pelo menos àquelas referentes aos fatos históricos contemporâneos a Sousândrade, a ReVisão pecou por falta de cuidado na pesquisa, não corrigida nas edições posteriores.
Já as correções dos textos envolvem uma escolha. Deve-se manter a paronomásia em: —Ao Sol dos Incas s'incantava o Guesa ? ou deve-se seguir o uso moderno e grafar encantava, considerando que Sousândrade sempre grafa incantar e não encantar?   Aparentes erros tipográficos podem ocultar claves ou indicação da fonte original (em que o mesmo erro é cometido — poderia citar vários exemplos a este respeito); a padronização de nomes da Antigüidade apresenta alguns problemas; Sousândrade utiliza regências que contrariam a norma atual; arcaísmos e neologismos constituem outro ponto de dúvida, etc. Por isso, eu procuro trabalhar com as versões originais para evitar a perda de informação, pelo menos até a publicação de uma edição crítica.  

 

O Guesa é um poema que exige muito do leitor, as citações de personagens de jornais da época, o caráter multidiomático do texto e sua ousada fragmentação faz da leitura uma tarefa árdua, ainda que infinitamente prazerosa. Nesse sentido, qual a importância do glossário publicado pelos irmãos Campos em ReVisão de Sousândrade?

Já mencionei que o conceito de glossário não faz jus à complexidade da obra de Sousândrade. Em 1966 uma resenha da primeira edição da ReVisão publicada no Handbook of Latin American Studies afirmava: “É duvidoso que o leitor médio ache a exegese dos irmãos Campos útil para a compreensão dos textos”.  
Consideremos a estrofe:

Postwar Jews, Jesuítas, Bouffes
Que decidem de uma nação
A cancã!.. e os * 
Homeros
De rir servem, não de lição!”.

Para entendê-la, pouco adianta saber que postwar Jews é “judeus de após-guerra”, em inglês; que Jesuíta é um membro de uma ordem religiosa católica fundada por Inácio de Loiola; que bouffes é burlescos, em francês; que cancã é uma dança popular em teatro de revistas; que eros (grafado em grego no original - * ) é heróis, em grego; nem que Homero é tido como autor da Ilíada e da Odisséia. Saber que Sousândrade usa jesuíta e loiola como sinônimos de hipócrita tampouco acrescenta muito ao esclarecimento destes versos.
Consideremos agora a biografia de Jacques Offenbach (1819-1880), compositor judeu franco-alemão convertido ao catolicismo por pressão da família da sua noiva francesa, criador da opéra bouffe, gênero que inaugurou com Orfeu nos infernos, e considerado um ícone do Segundo Império na França (1852-70). A família mudou seu sobrenome para Offenbach em 1808 por imposição do governo de ocupação francês na Renânia, (de onde post-war Jews). Jacques emigrou ainda jovem para Paris, onde fundou, anos depois, uma companhia de ópera chamada Bouffes Parisiens. Em 1858 estreou Orfeu nos Infernos, na qual ele e seu roteirista Halévy fazem troça dos heróis da mitologia grega cantada por Homero. Na versão clássica, Eurídice, mulher de Orfeu, morre mordida por uma cobra e viaja para o mundo dos mortos (o inferno do título). Orfeu, transido de dor, tenta trazê-la de volta ao mundo dos vivos. Na ópera de Offenbach, Plutão apaixona-se por Eurídice e a leva para o inferno. Orfeu fica feliz de ser novamente um homem livre. É necessária a insistência de Calíope, sua mãe, para convencê-lo a resgatar Eurídice. Na época da estréia do Orfeu, Offenbach foi acusado de “blasfêmia contra a Antigüidade”. Lembremos ainda que a melodia mais famosa do Orfeu, até os nossos dias, é o Cancã.
Sousândrade muito provavelmente, assistiu à apresentação do Orfeu em 1868, quando ele morava em Alcântara e a obra foi apresentada em São Luís do Maranhão por uma troupe francesa. Em maio de 1876, durante a permanência de Sousândrade em Nova Iorque, Offenbach iniciou uma turnê nos Estados Unidos. É possível que a presença de Offenbach tenha motivado a sua inclusão em O Guesa, além, é claro, da ferida sensibilidade helenista de Sousândrade.
Este exemplo mostra que a análise da obra de Sousândrade exige um enfoque integral.   Neste contexto um glossário pode, no máximo, identificar as partes, mas não determinar onde se encaixam na intenção do poeta.

 

Você acredita que a leitura de O Guesa precisa necessariamente passar pelas instâncias da compreensão? Será sempre necessária uma leitura semântica do poema? Não seria a obra de Sousândrade uma oportunidade para libertar o pensamento da ditadura do sentido?

Já foi dito que, após publicado, um livro não mais pertence ao autor, e sim ao leitor.   Desde este ponto de vista qualquer interpretação é válida. A minha pesquisa, como já manifestei, visa à compreensão dos textos e do contexto em que foram escritos, procurando revelar a intenção imediata do autor e as fontes primárias que utilizou. O próprio Sousândrade admitiu ter conservado nomes próprios tirados a maior parte de jornais de New York e sob a impressão que produziam. Se escrevesse hoje, Sousândrade seria um blogueiro brasileiro em Manhattan. 
Acredito que a principal intenção do poeta nos chamados infernos era a descrição de situações concretas. Por outro lado, Sousândrade cria polissemias que permitem várias interpretações. Por exemplo, no Inferno, urso/ursa é usado com vários sentidos, como detalha Luiza Lobo em Épica e Modernidade em Sousândrade: especulador da bolsa de valores, membro da Tammany Ring (quadrilha de políticos nova-iorquinos corruptos), animal totêmico dos índios iroqueses, comerciante estrangeiro na Amazônia brasileira (Pra que q'rias Pará, Urso-Yankee, / Que só tem borracha por Deus?..). As Ursas no Inferno representam as constelações do hemisfério boreal mas também as mulheres norte-americanas (Ursa no cio ...  São freeloves Ursas do Norte). Na última estrofe aparece novamente o ring d’ursos condenando o guesa. Podemos dizer, então que os ursos representam a rapacidade e a cupidez, nas suas diversas formas.
Voltando à sua pergunta, é claro que a linguagem sousandradina é polissêmica e revolucionária: é muito fácil inventar novas interpretações. Reconheço o direito de qualquer leitor de libertar o pensamento da ditadura do sentido, como você diz. Eu prefiro, antes de dar asas à imaginação, interpretar Sousândrade à luz das referências do próprio autor. Acredito que, dessa forma, qualquer interpretação não trairá a intenção do poeta. Por outro lado Sousândrade usa a intertextualidade muito livremente, o que pode ser interpretado como uma licença para libertarmos o pensamento. No Tatuturema lemos: — Os poetas plagiam / desde Rei Salomão: .../— procriam,  transcriam ...  

 

 A poética de Sousândrade, como um todo, se dá a partir de uma reinvenção da linguagem, mas é nas duas descidas ao inferno, “Tatuturema” e “O Inferno de Wall Street” (justamente quando suas críticas se tornam mais contundentes) que se encontra o grau máximo de sua radicalidade estilística e formal, uma verdadeira revolução da língua, uma “gramática do desequilíbrio”, para usar uma expressão de Deleuze. Seria uma tentativa de transpor a impossibilidade da linguagem, com suas amarras e interdições, na tradução do real inexprimível, da exploração e da imoralidade do capitalismo?

Como já mencionei anteriormente, meu trabalho tenta a exegese da obra de Sousândrade. Não pretendo me aventurar no território da lingüística ou da filosofia, tarefa que entrego aos especialistas. Para citar só um exemplo, frente a uma expressão aparentemente enigmática, “copo-d’água-DEUS”, que aparece na estrofe 124, contento-me com achar a fonte original, em francês (um peu de vie à boire, et ce verre d’eau, Dieu), notando que copo-d’água-Deus é uma tradução literal de verre d’eau, Dieu, mesmo que tirada do contexto original. Indico em que obras Sousândrade cita o mesmo poema, assim como a data de publicação, informações que podem ajudar a datar a estrofe do Inferno.  
Gostaria de dizer, porém, que limitar o Inferno de Wall Street à uma crítica da “exploração e da imoralidade do capitalismo” coloca um rótulo (sugerido pelos irmãos Campos) que cerceia a visão sousandradina. A gama de assuntos tratados ultrapassa, em muito, Wall Street e a Bolsa de Valores de Nova Iorque. Sousândrade fala sobre os vícios e sobre a corrupção política e moral que percebe na sociedade norte-americana.    Critica também personagens históricos (incluindo D. Pedro II, eterno desafeto, o pregador Henry Ward Beecher e James Gordon Bennett Jr., dono do jornal New York Herald), denuncia o extermínio e a exploração do ameríndio pela sociedade dominante, etc. ao tempo que exalta os avanços tecnológicos (telefone, fotófono, estilógrafo, o navio a vapor – a Fulton’s folly da segunda estrofe do Inferno),
As últimas 25 estrofes do Inferno sequer relatam eventos acontecidos nos Estados Unidos; tratam da viagem de Sousândrade a Europa em 1883. Insisto que o caráter autobiográfico do Inferno não tem sido ainda devidamente reconhecido e estudado.
Apesar de o inferno ter tirado o nome diretamente de O Guesa (“E voltava, do inferno de Wall Street, Ao lar, à escola, ao templo, à liberdade”), uma leitura atenta da primeira estrofe do Inferno não indica que a intenção seja encetar uma diatribe contra o sistema financeiro:

—Orfeu, Dante, Enéas, ao inferno
Desceram; o Inca há de subir . . .
         ==      Ogni sp'ranza lasciate,
                   Che entrate . . .
—Swedenborg, há mundo porvir ?

A estrofe parece mais uma reflexão sobre a vida após a morte, nos conceitos da Antigüidade (morada dos mortos ou lugar de recompensa e punição — Tártaro/Eliseo), cristão (lugar de castigo físico e espiritual) e swedenborgiano (continuação da vida espiritual e intelectual). A admonição do Dante na entrada ao inferno: Abandonai toda a esperança, ó vós que entrais! reforça o tom escatológico. Só a menção de Swedenborg, o místico sueco do século XVIII parece destoar da atmosfera “clássica”. 
Outra interpretação é que esta estrofe representa um lamento pela morte de Emil Schwerdtfeger, amigo do poeta cujo suicídio é pranteado ao longo de duas páginas de O Guesa, pouco antes do início do Inferno de Wall Street. Um jovem e brilhante filólogo, Emil foi estudioso de latim e grego, admirador e tradutor do Dante. O dia de sua morte o tema do sermão da igreja swedenborgiana de Nova Iorque foi The Future World (O mundo por vir). Não acredito tratar-se de uma coincidência.
É claro, portanto, que a interpretação da obra de Sousândrade admite diversas interpretações. Eu prefiro limitar-me àquelas que podem revelar as intenções imediatas do autor.

 

Há na poética sousandradina uma ruptura deliberada com a língua materna, como uma tentativa de subverter o idioma português, símbolo da colonização e da dominação político-cultural portuguesa?

Não há dúvida que a poética sousandradina apresenta uma ruptura deliberada com a língua materna, numa evidente intenção de ampliar as fronteiras impostas pelas regras vigentes. Não tenho elementos para julgar a motivação, menos ainda supô-la uma insurreição contra a dominação político-cultural portuguesa. De fato, não há elementos para supor que a ruptura lingüística se estendesse aos campos da cultura e da política.   A admiração de Sousândrade por Camões, as citações de Alexandre Herculano e Almeida Garrett, entre outros, sugere não existir nele preconceito contra autores portugueses.  
A visão política de Sousândrade, por outro lado, não apresenta grande coerência: inimigo figadal de D. Pedro II, o poeta foi opositor jurado da monarquia brasileira e republicano convicto. Por outro lado, numa carta de 1896 afirma ser a Princesa Isabel, de quem era fervente admirador, a “fundadora da República da Sul-América” e que haveria de “reconduzi-la á nossa patria não imperatrix do Brasil, mas como a melhor mãe de família brasileira”. A sua posição perante movimentos populares é francamente crítica. Grandes manifestações sociais como a greve de estradas de ferro que paralisou os Estados Unidos em 1876 ou a Comuna de Paris, merecem comentários como “revolução hedionda”, “canalha esbandalha !”, e “reino de horror”. A decisão de Sousândrade e sua esposa de “partilharem entre seus ex-escravos as terras que possuíam em Codó e Cururupu”, comunicada na imprensa maranhense em 21 de novembro de 1889, logo após a proclamação da república, indica, muito provavelmente, que Sousândrade e sua esposa tinham escravos até a proclamação da Lei Áurea, um ano antes.
Sousândrade foi e é um revolucionário da linguagem.   Não enxergo motivos para torná-lo paladino de outras causas.

 

O Guesa é constantemente pensado como parte de um projeto político pan-americanista de Sousândrade, esse era realmente um dos ideais do poeta?

É geralmente aceito que a primeira expressão de pan-americanismo em Sousândrade é a escolha de assunto indígena não brasileiro, um ritual dos índios muíscas da Colômbia, como tema central de sua obra máxima. Não deixa de ser irônico que nunca existiu uma vítima ritual chamada guesa entre os chibchas, fato já insinuado por Cláudio Cuccagna.  Talvez o próprio Sousândrade tivesse consciência disto quando tirou o errante do título da edição definitiva de O Guesa. De qualquer forma é intrigante ele ter lembrado, na carta de 1896 a que me referi anteriormente, de uma frase publicada num jornal francês em 1883: La gueuse c’est la République. Evidentemente a matéria não se referia à obra de Sousândrade (gueuse em francês quer dizer errante, vagabunda — mera coincidência com o significado de guesa?), mas pode ter sido um reconhecimento tardio do erro e uma reafirmação de seu projeto político republicano.
Voltando à pergunta, acredito que o mais perto que Sousândrade chega a um manifesto pan-americanista está no início do Canto XI de O Guesa quando escreve sobre o futuro canal inter-oceânico em Panamá:

Traçada outra vereis, linha equatória
     Unindo os mares, dividindo as terras
     A dois imensos povos e uma a glória
     De confederações: a Sul, das serras
Ândeas e os áureos vales do Amazonas,
     Representa-a Bolívar; tendo a Norte
     Industriosa, Washington ;
. . . .
     Um amplo coração o austral, que sente;
     E o boreal pulmões, o que respira.

Sousândrade, porém, fica geralmente alinhado com a doutrina Monroe e seu lema contrário à intervenção européia no hemisfério ocidental: “América para os [norte-]americanos”.   Em O Zac, espécie de testamento político de Sousândrade, ele escreve:

Em Cuba, a Espanha; o trono d’ Inglaterra
No Canadá; nas costas do Pacífico
O ibério insulto - ardia a Cordilheira;
E a sós, no Atlântico, Washington magnífico.

Até a visão de uma América Latina sem nacionalismos não é clara na obra de Sousândrade. Em O Zac ele cobra a anexação do Uruguai ao Brasil ante as pretensões argentinas: “Saudar venho a fronteira cisplatina / De quem aliança para os meus reclamo”.
A ideologia política de Sousândrade pode ser descrita como um socialismo cristão utópico de influência platônica. No canto XI de O Guesa, falando do império dos Incas, resume a sua visão:

Vem, ó Platão, fundar tua República,
Eis a patria edenal, nativo o crente,
Do socialista a lei, tua e tão pudica
Às de Jesus guiando, ao Deus vivente !

Há uma evidente contradição entre as noções de império (dos incas) e socialismo.   Serve de consolo registrar que, em 1928, Louis Baudin publicou seu famoso Império socialista dos incas.

 

Como você define a relação de Sousândrade com os Estados Unidos? Num primeiro momento, ele parece encantado com a nova república, mas em “O Inferno de Wall Street” ele percebe a imoralidade no seio da nação que tanto o inspirou, trata-se de uma decepção para o poeta? 

Não há dúvida que Sousândrade tinha uma grande admiração pelos Estados Unidos, os princípios sobre os quais foi fundado o país, e seu sistema de governo. Certamente admirava o sistema democrático republicano, a liberdade, a importância dada à educação, o avanço tecnológico, o sentimento religioso, o desenvolvimento incipiente dos direitos da mulher. Estes pensamentos são condensados nas estrofes abaixo, do Canto X de O Guesa:

—Livre terra !  onde á luz da liberdade
Os raios Franklin subjugou dos céus ;
Venceu Fulton do mar a tempestade ;
E Washington disseras ser um deus !
Onde Morse a distância aos povos tira ;
Pelo escravo combate o cidadão ;
Ergue a fronte a mulher e amor s'inspira
Pátrio no amor eterno do Cristão.

Ao mesmo tempo teve a lucidez de reconhecer defeitos e vícios da sociedade norte-americana: a cobiça dos especuladores na bolsa de valores, a corrupção de políticos, a falsidade de líderes religiosos, o genocídio dos índios, etc. Insisto novamente que o chamado Inferno de Wall Street não tem, ao meu ver, a crítica do sistema capitalista como principal objetivo. Outros assuntos, como os que acabei de mencionar, tem igual ou maior destaque.
Tampouco acredito que a principal motivação tenha sido uma possível decepção de Sousândrade ao tomar contato com as falhas da sociedade norte-americana.   Sousândrade é, a meu ver, um crítico equilibrado dos Estados Unidos. Aprova os aspectos que percebe como positivos ao tempo que critica os defeitos da sociedade.   Enaltece filantropos como Peter Cooper e Matthew Vassar e ataca outros milionários como Astor, Vanderbilt e Stewart. Entre os órgãos de imprensa concentra suas baterias em James Gordon Bennett Jr, filho do fundador do Herald, no que mais parece uma crítica pessoal do que uma invectiva contra a imprensa norte-americana.

 

Em “O Inferno de Wall Street”, Sousândrade denuncia, entre outras coisas, os excessos do capitalismo selvagem, a relação incestuosa entre mídia e poder, a corrupção política, a intolerância e, até mesmo, o mercantilismo norte-americano na Amazônia brasileira; sendo assim, o resgate da obra sousandradina não poderia ser uma ótima chance para pensar o presente?

A atualidade do Inferno não cessa de maravilhar. Não sei ao certo se é a História que se repete ou a natureza humana que permanece inalterada. Raramente passa uma semana sem que as manchetes dos jornais lembrem algum verso de Sousândrade. O Inferno é, em última instância, uma reflexão sobre a natureza humana e, como toda grande obra, é intemporal.

 

*Mestranda em literatura na UFSC, onde estuda  a obra de Sousândrade

 

 

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