As neblinas e os mistérios: entrevista com Remo Ceserani

Por Aurora Bernardini

 

Bibliografia breve

Remo Ceserani é autor, com Lidia De Federicis, do compêndio Il materiale
e l' immaginario. Entre os seus livros mais recentes, podemos citar: Raccontare la
letteratura (1990), Il romanzo sui pattini (1990), Il fantastico (1996), Viaggio del
dottor Dapertutto (1996), Raccontare il postmoderno (1997), Lo straniero (1998),
Guida allo studio della letteratura (1999), Treni di carta (2002), Guida breve allo
studio della letteratura (2003), Il testo poetico (2005); com A. Bernardelli, Il testo
narrativo (2005). Dirigiu, juntamente com M. Domenichelli e P. Fasano, o grande
Dizionario del temi letterari (DTL), 2006-2007, publicado pela UTET.
No Brasil, além de outras obras (veja-se o google), publicou recentemente (2006)
um estudo sobre O Fantástico ( ed. Universidade Federal do Paraná).

* * *

Remo Ceserani, professor de Literatura Comparada junto à Universidade de
Bolonha , esteve recentemente na Universidade de São Paulo a convite da pró-
reitoria de pós-graduação, da área de Teoria Literária e Literatura Comparada e do
Depto. de Literaturas Modernas da FFLCH , onde ministrou cursos e conferências.
Trata-se de um dos mais importantes críticos italianos contemporâneos, de
renome internacional.
Convergenze. Gli strumenti letterari e le altre discipline será seu último trabalho
a ser publicado na Itália (previsto para este fim de ano) e aborda uma questão
cada vez mais atual e, aparentemente, paradoxal. Como e por quê os vários
domínios do saber, inclusive os científicos, se interessaram, e se interessam tanto
– hoje em dia - pelo discurso literário? Quais as vantagens que disso lhes advêm
e, por outro lado, quais as contribuições desse interesse para a literatura? O
próximo, ou melhor, os próximos livros a serem publicados pelo autor são Nebbia
( Einaudi), uma curiosa antologia de escritos de grandes autores sobre ou com a
neblina, prefaciado e pesquisado em conjunto com Umberto Eco, seu colega de
Universidade e amigo desde há muito, e Lo sguardo della Medusa – previsto para
fevereiro de 2011, que trata de Literatura e Fotografia (ou melhor, a Fotografia na
Literatura).
Além de original, consistente e up to date (ao lado das variadas fontes
consultadas, antigas e contemporâneas, há as numerososas viagens realizadas:
desde sua aposentadoria o crítico tem mantido contato com as principais
universidades do mundo, através de encontros, cursos e conferências ), a
abordagem crítica de Remo Ceserani é segura e atraente. Atraente porque ele
sabe "racontar", entremeando trechos sintomáticos das narrativas , categorias
filosóficas e anedotas reveladoras e , last but not least, uma delicada ironia. Sua
entrevista deixa entrever um pouco esta faceta.

Florianópolis, 25 de outubro de 2009



P. O senhor é originário do vale do Pó ( Cremona). Vem daí seu interesse pela
neblina?

R. ( Risos.) Bem, na verdade, saí de casa muito cedo. E fiquei distante por tanto
tempo que quando voltei, recentemente ( me fizeram cidadão honorário), não
reconheci meus colegas de escola que ainda estavam por lá. Não, o interesse
pela neblina foi uma coincidência. Quero dizer, certo interesse pela neblina eu
sempre tive, tanto que estava escrevendo sobre o verbete "neblina" para um
dicionário temático e eis que me vi lendo (há uns dois anos, mais ou menos) o
último romance de Eco, onde o protagonista principal não só tem uma verdadeira
paixão pela coisa , mas cita uma porção de textos que tem a ver com a neblina.
Daí veio-me a idéia da antologia e Eco topou imediatamente. O dia seguinte já
me chegou o contrato da Einaudi para assinar (risos). Umberto escreveu um belo
prefácio, e eu uma introdução onde falo, é claro, dos escritores que escolhemos,
mas também teorizo, exemplificando. A neblina e suas funções: esconder, desvelar,
revelar, etc., associadas a temas como medo, melancolia, perigo, proteção, olvido,
compreensão de si etc., onde a ambiguidade dos contrários se alia sempre a uma
ironia sutil ou - conforme o caso – cortante.

 

P. A neblina é também um dos elementos privilegiados do gênero fantástico, creio,
ao qual o senhor também dedicou um livro...

R. Bem, eu vejo o fantástico mais como um modo retórico formal de agregar
temáticas, formas elementares e concretas do imáginário, que se aliou a alguns
gêneros narrativos, desde suas raízes históricas, principalmente no gótico inglês de
1700-1800, até o pós-moderno.
A partir do fantástico pós-freudiano entraram novas cognições, novas crises
de antigas crenças e certezas e aí, também, desfilam grandes autores dos quais os
críticos estudam persistências e diferenças.

(Parêntese: entremeio aqui algumas respostas que ele deu às perguntas do público,
após sua palestra, justamente, sobre o fantástico):

 

P. Uma vez que o senhor se referiu ao fantástico como " a representação
problemática das ilusões da modernidade", como se insere aí o pós-moderno?

R. A modernidade caracterizou-se por uma forte autoconsciência - um tipo
de análise freudiana , um exercício epistemológico de formação; agora, no pós-
moderno , o exercício é ontológico. Qual é a substância do sujeito?

Qual é seu lugar no mundo? Trata-se de um mundo real ou de um mundo virtual, feito de
discursos? A narratividade é relativizada, observa-se, muitas vezes, o sujeito
que fala a si mesmo como se fosse um outro: a primeira pessoa que, de repente,
passa para a segunda, e outras manipulações que apresento em meu livro, como a
passagem do limite, o objeto mediador, as elipses, o detalhe...

 

P. O senhor mencionaria alguns dos autores e dos temas sintomáticos?

R. Bem, são muitos. Tabucchi e o jogo do revés, como em Anywhere out of the
world, que se passa em Lisboa; Cortázar (Bestiário) e a casa tomada, que nasceu
de um pesadelo ; Antonia Byatt (Possession, The Matisse Stories) e a presença de um
sub-texto como chave do texto inteiro, uma forte manipulação de gêneros . Um tipo
novo de modalidade literária interagindo com as novas modalidades sociológicas e
culturais: as grandes metrópoles, o culto do corpo, a morte inaceitável, a vida que
escorre, o tempo serial, repetido, os percursos labirínticos, as personagens que
escorregam, os gestos suspensos...

 

P. Haveria algum rival pós-moderno de A volta do parafuso de Henry James?

R. Sim. Os livros da Byatt. A tradição anglo-saxã é muito forte. Claro que nesta
tradição também deve se fazer distinção entre a literatura dita "alta" e a literatura
de consumo, elas tendem muito a se confundir.

(Fim do parêntese: retomo a seguir a entrevista.)

 

P. E na produção literária italiana recente, haveria algum movimento
interessante?

R. Sim, há o assim chamado "New Italian Epic" – um grande movimento de retorno
ao romance de detetive. São romances históricos a partir de nossas tradições, mas
há contato com a realidade de hoje. Especialmente em Bolonha. Há lá um grupo
de cinco autores, ligados ao DAMS (ex-alunos de Umberto Eco) que escrevem
conjuntamente e assinam com um nome chinês: Wu Ming. É um fenômeno de
grande interesse, que usa a rede e se tornou extremamente popular. Seus livros
são publicados na coletânea da Einaudi, a Collana Stile Libero. Põem em discussão o
direito de autor. Quando escrevem individualmente, porém eles assinam Wu Ming
I, II, ou Altai I, II etc., e assim por diante. Também escrevem romances, roteiros de
cinema, etc.

 

P. O senhor cultiva algum hobby?

R. Não dá tempo. ( Risos.) Quero dizer, é que também sou avô. (Suas duas filhas

são professoras/pesquisadoras respectivamente, em Stanford e em Yale, onde ele
ministra cursos, anualmente).

 

P. Qual é seu próximo projeto?

R. É sobre a Weltliterature. A discussão deste conceito, a partir de Goethe.
Frequento muito a literatura alemã. Minha mulher é germanista.

 

P. Por último, uma curiosidade, ainda ligada à neblina: o senhor teve ocasião de
visitar Paranapiacaba?

R. Não, ainda não.

 

P. Então combinado: fica para a próxima vez.


 

 

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