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O paranaense Caetano Galindo é professor de literatura na Universidade Federal do Paraná. Além de ensinar, também traduz, e como traduz: sete livros nos últimos dois anos! Na área da tradução, fez uma proeza e tanto: traduziu integralmente "Ulisses" (1922), de James Joyce, para o português. É sobre esse livro que ele fala a seguir. 1. A tradução de "Ulisses", assinada por você, já tem data de lançamento? R.: O livro sai em 2012. R.: hmmm...Nunca analisei assim a fundo as estrangeiras. Apesar de ter montado uma coleção bem razoável de exemplares, que inclui até línguas que eu nem sei pronunciar. Então prefiro não dar grandes juízos de orelhada. A opinião de um leitor de trechos, e mesmo de um "leitor", é muito diferente da do analista, que fez um trabalho mais consciente e tematizado com as traduções. Todo tradutor sabe o que é ouvir críticas levianas e "amostrísticas". Então não vou fazer aqui a minha. Das nossas, nunca li o Palma-Ferreira, e em geral me julgo incapaz de dar palpite sobre, por exemplo, a vernacularidade (questão sempre central, por escolha ou negação) de um texto lusitano. Li o Houaiss até onde aguentei e estou lendo a Bernardina com os meninos da graduação. Pouco tenho a acrescentar ao que já se sabe sobre essas duas. E me sinto meio mal, meio em interesse próprio....? Como autor de outra. Mas continuo recomendando aos leitores de primeira viagem, enquanto não sai a minha (afinal, se nem eu for recomendar a minha....), que comprem a Bernardina/Alfaguara. A tradução ali tem problemas, claro, todas têm. Mas a edição é muito superior ao Houaiss/Civilização. Com algum aparato crítico etc... E, num mundo em que a fortuna crítica na nossa língua é quase inexistente, isso desequilibra bastante a balança. 3. "Ulisses" é o maior romance moderno? Eu diria que sim. O "Wake" é maior que o "Ulysses". Mas não é bem um romance, e é certamente mais que "moderno". Ainda nem chegamos a ele direito. Mas, quanto ao "Ulysses", eu diria "sim" sem medo. Até porque quem costuma fazer por aí alguma ressalva do tipo "o maior de uma vertente formalista, invencionista etc...", precisa ler mais o romance. Ele é grande em forma, em tema, em tratamento, em abrangência.... Acho mesmo que é o maior em tudo, o maior que tivemos depois de Shakespeare, como diria Bloom, o outro. 4. Segundo você, quais são, desse vasto romance, as passagens ou capítulos Imagino que a pergunta se refira mais à técnica. E aí a resposta tem de ser "O Gado do Sol". Até por ser o momento em que fica mais em risco o princípio da "necessidade" do radicalismo formal. Em todo o "Ulysses" as coisas acontecem no nível formal graças a alguma necessidade que no fundo remonta a uma convenção de certa forma mimética. O texto fica bêbado quando a personagem bebe, fica com sono quando ela se cansa, fica tenso e impostado quanto o tema é sobre isso etc... Mas a brincadeira, no "Gado", é muito mais complexa e leva ao limite a compreensibilidade e mesmo a justificabilidade da experiência, ao menos segundo critérios que facilmente dão conta de outros momentos/trechos do livro. Mas, ao mesmo tempo, pode ser essa mesmo a ideia. De outra forma, "Circe", onde as noções de realidade, simbolismo e representação tocam de maneira divertidíssima os princípios "noturnos" que vão organizar o "Wake". Eu no entanto tendo a achar que o que há de mais radical no Ulysses é a existência do Ulysses. A abrangência, a húbris de suas propostas, e a seriedade e a inamovibilidade com que elas são inexoravelmente carregadas e desenvolvidas. Especialmente essa ideia de levar a mimese onde ela não havia ido, transformá-la em superfície de texto. Pra mim a questão é que Joyce vivencia a frase de Terêncio: "Sou humano e nada do que é humano me é estranho". Logo, nada pode ficar de fora, nem o grosso, o feio, o rude, tosco, ridículo. E, ao mesmo tempo, o ridículo nunca poderá ser "do outro". Aquele, confortável, em que rio do outro para me reassegurar, ou para evitar a análise de mim mesmo, ou sublimá-la. Se o outro é humano como eu, e tanto, e em tudo, como eu, meu riso é sempre o riso duro e dolorido da compaixão também. Daí ele ser tingido de lirismo. Do sujeito que ri mas empatiza, ri e empatiza, ri porque empatiza. O "Ulysses" é, sim, um livro engraçadíssimo, em qualquer chave de leitura. Como eu digo pros meninos, é um livro que tem até piada de pum, ora. Mas acima de tudo é um livro que faz do humor muito mais que uma "arma" virada para algum "inimigo". Rimos de Bloom, com Bloom, porque ele é eu, você e todo mundo. E a gente somos ridículo.
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