POESIA CONCRETA NA AMÉRICA DO SUL

O crítico argentino Gonzalo Aguilar fala sobre poesia e vanguarda

Por Sérgio Medeiros

 

Professor da Universidade de Buenos Aires, o crítico argentino Gonzalo Aguilar é autor de um dos estudos mais importantes já publicados no Brasil sobre poesia visual, “Poesia concreta brasileira”, lançado em 2005 (Edusp, 404 páginas), obra escrita originalmente em espanhol e defendida na Argentina como tese de doutorado. Na entrevista a seguir, Aguilar rediscute sua análise da poesia visual brasileira e fala de suas novas propostas de estudo da cultura do nosso País.

 

1. O que primeiro me chamou a atenção no seu importante livro "Poesia concreta brasileira" foi o adjetivo "brasileiro" do título. Hoje, no mundo de fala espanhola, quando aparece a locução "poesia concreta", os leitores associam esse corrente poética a quais poetas exatamente? Como os poetas brasileiros são vistos  por esses leitores? Como precursores, por exemplo?

Para um leitor estrangeiro, duas coisas chamam a atenção, inicialmente, no concretismo brasileiro: a primeira, é a continuidade da atuação e o destaque de alguns poetas vinculados ao concretismo, principalmente os irmãos Campos. A segunda coisa é a presença destes mesmos poetas, mas também de outros, em intérpretes da música popular, em especial, Caetano Veloso. Ambos os elementos fazem o que poderíamos denominar de impensável dentro de uma cultura, mas que é possível em outra, marcando, assim, uma outridade, uma diferença.

Da mesma forma, não creio que se tenha de falar dos poetas concretos como precursores, porque, justamente, eles não são vistos tanto como integrantes de uma mesma tradição, mas, sim, de uma exterioridade, de algo que tem o incentivo da diferença. Por isso, a menção dos poetas concretos, sobretudo, Haroldo, o mais latino-americano de todos eles, exerce sempre o papel de uma ruptura, de um desvio e da incorporação de um corpo radiante e estranho. Basta ver o momento em que o elemento “haroldiano” emerge na obra de Otávio Paz, Cabrera Infante ou Nicanor Parra, para citar três exemplos de escritores bem conhecidos. Funciona mais como, digamos, certos cortes transversais do que cadeias retrospectivas.  

 

2. Na introdução ao livro, você afirma que "dou por encerrados meus trabalhos de análise crítica e de difusão da poesia concreta". Você não considerou, nesse momento, que seu trabalho pudesse suscitar polêmicas ou discussões, e que uma nova etapa de análise da poesia concreta se abriria com seu livro? Você não foi precipitado ao fazer essa afirmação logo na abertura do livro?

Quando terminei a minha investigação, minha maior preocupação era justamente essa, terminar. Sempre digo que nunca terminamos as teses, são as teses que terminam conosco. Não as terminamos, mas em algum momento decidimos abandoná-las. Acredito que nesse sentido a expressão “terminar” é correta, porque era como uma necessidade de algo que havia estado em atividade durante muito tempo e que, para mim, já havia cumprido seu objetivo, no âmbito pessoal, no âmbito do pensamento crítico e institucional. Contudo, como você diz, essa afirmação não levava em conta as polêmicas ou discussões que o livro poderia suscitar depois. Entre elas, várias leituras   (a de Maria Esther Maciel, Raúl Antelo, Jorge Schwarz, Manuel Costa Pinto) que, obviamente, fizeram-me adquirir um distanciamento que não pude ter quando precisei encerrar o livro. Hoje, entre os meus projetos, está fazer uma releitura do meu próprio livro e reabri-lo e, em certo sentido, refutá-lo. Acredito que, ao acentuar o componente concreto, deixei de observar uma série de transformações que, para mim, são evidentes em um livro como “Galáxias”, transformações que, até hoje, ainda não foram destacadas.

 

3. Um aspecto da sua análise que gostaria de discutir é a distinção entre fase concreta ortodoxa e fase concreta não-ortodoxa. É realmente possível ser não-ortodoxo na poesia concreta? A sua força não provém exatamente dessa impossibilidade, já que suas leis são claras e implacáveis? Por outro lado, você também usa a expressão "ex-concretos", para mostrar que os próprios concretos, ao abandonar a ortodoxia, se tornaram outra coisa... Será que um ex-concreto pode se tornar  de novo "concreto"? Isso já aconteceu ou ainda poderá acontecer?

Na sua fase ortodoxa, os poetas do grupo concretista fizeram um trabalho de clarificação de suas próprias posições e práticas que, inadvertidamente, foram seguidas muito ao pé da letra pela crítica, seja por comodismo ou por preguiça. A crítica costuma se encantar com os autores que lhes poupam o trabalho conceitual, e isso, com o tempo, torna-se um problema. No entanto, basta considerar os “popcretos”, de Augusto de Campos, o poema mural de Décio Pignatari, “Stèle pour vivre”, ou as “Galáxias”, de Haroldo de Campos, para dar-se conta de que, neles, dos postulados do plano piloto resta pouco ou nada. Isto significa que, na prática, os poetas foram menos ortodoxos do que as posições que tiveram que tomar no campo da polêmica, para defender suas conquistas anteriores.

Assim, acredito que, num sentido rigoroso, ninguém pode tornar-se algo (um poeta concreto) em resposta a uma caracterização histórica ou estética que se dissipou. Acredito, antes, que houve uma mudança de paradigma no começo dos anos sessenta e que, nesse novo paradigma, os poetas puderam iniciar um retorno que, como o retorno à casa de que fala Augusto em “Poetamenos”, nunca será ao mesmo lugar. Neste sentido, parece-me que, na escrita poética,   é mais recorrente Augusto do que Haroldo, e que se dá uma insistência na poesia visual em um momento em que o visual transformou-se totalmente. Do visual como algo autônomo, e que se exibe no museu, passou-se ao visual no terreno da anestética e do espetáculo, e daí a   passagem de Boulez a Cage, e de Maliévitch a Duchamp, que se observa nas preferências de Augusto (se bem que o caso de Malevitch é especial, porque, no início dos anos setenta, sobretudo pela mediação de Oiticica, o artista russo é investido de novas forças que não tinha na leitura dos anos cinqüenta, feitas através da revista francesa “Art d'aujourd'hui”). Em Haroldo, o retorno se dá, sobretudo, no campo da teoria e da polêmica, porque, na sua poesia, a preocupação com a narratividade e o poema longo leva-o a questões muito distantes daquelas dos anos cinqüenta.   É assim, a   despeito do fato de que, em   seus textos críticos, Haroldo sempre exuma um texto seu no qual já debate esse problema. Definitivamente, estratégias críticas e práticas poéticas não caminham de mãos dadas, mas, às vezes, segundo   necessidades do próprio contexto.

 

4. Saiu recentemente no Brasil uma bela coletânea dos poemas concretos e visuais de Pedro Xisto, "As águas glaucas" (Berlendis&Vertecchia Editores, 2006).   A elegância dos poemas e o diálogo deles com o Oriente dão um sabor único à poesia de Xisto. Qual é a posição dele na "Poesia concreta brasileira", segundo a sua ótica atual?

Não conheço essa edição e lamento isso profundamente, porque Pedro Xisto, dentre todos os poetas concretos, é o que tem a graça , tanto em termos estéticos como religiosos.   É o Extremo Oriente da poesia concreta. Não é uma China como a que inventou Haroldo, um pouco no espírito inquisitivo e lúcido de Eisenstein e Pound, mas uma China zen, volátil, tênue e amável. Pelo menos essa é a sensação que me dá os poemas que conheço (não muitos), mas que foram fundamentais na minha investigação, porque me tiraram, de um modo didático, didático como o é um koan zen, dos becos sem saída em que me encontrava. Li “Zen”, no meu livro, como uma radiografia da minha relação estética com o concretismo. Outro poema que adoraria ter incluído, “She”, parece-me um comentário caligráfico chinês de nossos pecados, nossas culpas logocêntricas.    Percebo, pelo papel exógeno e libertador que confiro à China, que a minha leitura é muito muriliana, ou, para dizer como se falasse de um prato saboroso de chef : um Xisto à la Antelo.

 

5. Augusto de Campos continua produzindo muito. Destacam-se, por exemplo, suas traduções de poesia. Essas traduções podem ser uma porta privilegiada para ler o concretismo e sua estratégia de inserção na cultura brasileira. Gostaria de pedir sua opinião sobre uma tradução antiga de Augusto de Campos: trata-se do famoso verso de Mallarmé, "Je suis hanté. L'Azur! l'Azur! l'Azur! l'Azur", que fecha o poema "L'Azur", o qual, em português concretista, ficou: "O Azul! O Azul" O Azul! O Azul! O Azul! O Azul!" Mallarmé, para indicar o infinito e o inumano, precisou repetir quatro vezes a palavra "o azul". Augusto de Campos, em sua tradução, precisou repeti-la seis vezes. Não está aí, explicitamente exposta, uma visão concretista e talvez pós-moderna do sublime tardo-modernista de Mallarmé? 

A pergunta que me fazes é quase um tratado. Não tinha pensado nisso ,   mas, de fato, Augusto apaga o sujeito e, ao fazê-lo, substitui o dizer da possessão pela própria possessão. E, como se não bastasse, uma expressão que o próprio Mallarmé sublinha: “ Je suis hanté ”. Mas, nesse apagamento, se lê a atividade da tradução tal   como a entende Augusto de Campos: como um ato de possessão. Neste tipo de tradução, não se tenta apenas produzir um texto tão original quanto aquele que lhe serve de fonte, mas nele se escreve o nome para se apoderar do texto e se converter nos mediadores privilegiados (ver as capas dos livros de transcriações de Haroldo ou de Augusto, nos quais seus nomes ocupam o lugar da autoria).

Todavia, esta visão sublime já está em Rubén Darío , quando comenta o mesmo verso. Transcrevo uma passagem do estudo que Darío redigiu depois da morte do poeta francês: “Mais além, revelado unicamente de modo fragmentado e em desordem, devido ao sonho, ou através desse vidro opaco, em língua de ciência e em cerebração   inconsciente, e a partir do qual seremos espíritos, por graça celestial ou porta infernal, receberam revelações inauditas, Shakespeare, Poe, Wagner. A meditação acerca deste fio de Ariadne, duplamente útil entre o jaspe, o ouro, o marfim, do labirinto: “ je suis hanté. L'Azur L'azur ”. Ressurreição de modos de expressão, concretização imemorável de fórmulas ritualísticas ou sibilinas. Ausência de uma religião, presença virtual de todas, em sua relação com o mistério e as pompas litúrgicas, virtude dos signos, força secreta das palavras; a feitiçaria musical, o sagrado em movimento”. Foi esta presença virtual de todas as religiões, evocadas pelo verso (ou pelo quase-verso), que se perdeu. Portanto, seria bom ver, a partir de sua proposta, as diferentes leituras que o verso mallarmeano desencadeou.

 

6. Seu interesse pela cultura brasileira extrapola naturalmente o concretismo e a sua época. Você já declarou, por exemplo, estar interessado nas relações entre Hélio Oiticica e Haroldo de Campos. Algo que continua "irritando" muitos leitores de Haroldo e Augusto de Campos é a auto-referencialidade explícita: não importa o que eles discutam, tudo acaba sendo conduzido de volta aos tempos áureos do concretismo, como ponto de partida. Nas suas novas abordagens da cultura brasileira, qual é o papel do concretismo?

Não me preocupa muito a auto-referência, embora no livro trate de dar algumas hipóteses que a explicam: não me apaixono por essa discussão e muito menos me indigno. Prefiro continuar com o meu olhar de falso exilado, porque nunca morei no Brasil e quero esquecer que sou argentino, mas tampouco quero chegar a ser (como alguns de meus amigos) brasileiro. As brigas entre as tribos me parecem legítimas e necessárias para a vitalidade de uma cultura, mas não quero filiar-me a nenhum partido. De certo ponto de vista, também trato de evitar a leitura que os adeptos do concretismo fizeram do movimento. Na relação com Hélio Oiticica, por exemplo, encontrei um Haroldo que não aparece em lado algum: e, no entanto, toda a poética sincrônica do branco não pode ser lida, satisfatoriamente, sem se levar em conta o diálogo entre o poeta paulista e o artista carioca.

Outro aspecto que quero abordar, num futuro próximo, são as “Galáxias”, porque tenho a sensação (cuidado, até agora é somente uma sensação) de que estão sendo lidas numa constelação equivocada: como uma máquina de linguagem e não, como tratarei de mostrar, uma máquina conectada com o exterior e os corpos. Veremos o que sai disso tudo.

 

7. Um poeta argentino contemporâneo, Arturo Carrera, praticamente desconhecido no Brasil, explorou a noção poética de "galáxias", como já o fizeram, antes dele, Mallarmé e Haroldo de Campos. A teoria da poesia concreta pode ser útil para ler Arturo Carrera? Haroldo de Campos é uma referência para ele? E para outros poetas argentinos também?

Carrera começa a sua trajetória com uma invocação ao concretismo, mas peculiar: porque Escritos con un nictógrafo refere-se ao céu noturno e estrelado e lembra   mais as “Galáxias” e a “O Pulsar” do que os primeiros poemas da fase ortodoxa (talvez “o â mago do ô mega”). A chave, em todos esses encontros, é Mallarmé e, desse modo, esta linhagem pode incluir Octávio Paz, Lezema Lima, ou- sincrônico-retrospectivamente- Sor Juana Inês de la Cruz. Não se trata de uma pluralidade, na medida em que não admite nenhuma unificação: antes, é um grupo heterogêneo, uma estrela de muitas pontas com concreções diferentes e até opostas (basta pensar no surrealismo de Paz, nas tonalidades de Carrera ou nas diferenças entre Lazema e Haroldo). Em um lance de dados (no plural, no original), os números que saem não têm nenhuma relação senão   com o acaso e as constelações que se pode armar.

 

*Poeta, tradutor e professor de literatura na UFSC.

 

(Tradução de César Andrés Ciappino)

 

 

HOME . GALERIA . POEMAS . ENSAIOS . EVENTOS . RESENHAS . TEATRO . NARRATIVAS . TRADUÇÕES . ACORDE COM VERA . INFANTO-JUVENIL . LINKS . CONTATO